13 de maio de 2018

Desafio Corujesco 2018 - Uma História sobre Livros || A Biblioteca Invisível

A acusação implícita de mentira, ou no mínimo de omissão, a atingiu com um tapa na cara. Não ajudou em nada o fato de, sob alguns aspectos, ser verdade. Ela baixou os olhos e não conseguiu responder. Pior de tudo, pela primeira vez em anos só estamos fazendo isso para salvar os livros soou mesquinho, e escolher não saber mais pareceu infantilidade.
Assim que bati o olho nesse título e na sinopse dele, imediatamente me interessei por lê-lo. Afinal, tratava-se de um livro sobre livros; ou, mais exatamente, sobre uma biblioteca fora do tempo e do espaço que preserva livros de várias dimensões e que funciona como uma espécie de quartel-general de super agentes especializados em infiltração, espionagem, roubos, magia… e preservação de histórias. No enredo desse primeiro volume - sim, trata-se de uma série - temos ainda Grandes Detetives, seres feéricos prenunciando Caos, dragões guardiões da Ordem, vampiros, zepelins, lobisomens, sociedades secretas e uma edição especial dos Contos de Fadas dos Irmãos Grimm.

A Biblioteca Invisível não tem qualquer remorso em ser simplesmente divertido. Não é um título que está preocupado em tratar das grandes questões do universo, debater moral e ética, ou mesmo criar um mundo cheio de detalhes ou sistemas de magia extremamente complexos. Genevieve Cogman está mais preocupada em brincar com estereótipos e referências literárias, ao mesmo tempo em que cria uma história rápida, cheia de ação, humor e diálogos espirituosos.

Caso você não reconheça as referências, isso não é um problema para aproveitar a história. Mas fazer essa costura torna a leitura ainda mais prazerosa. Os Bibliotecários - agentes da Biblioteca responsáveis pela ‘aquisição’ dos livros protegidos pela entidade (aquisição que pode ser tão inocente quanto uma simples compra, como pode se tornar um incidente internacional repleto de teorias da conspiração) - escolhem seu nome ao serem admitidos no trabalho, o que diz muito sobre sua personalidade. Nossa protagonista, por exemplo, escolheu o nome Irene - homenageando ‘a Mulher’ do cânone sherlockiano. Kai, seu aprendiz, dá a ela o sobrenome Winters, numa piscadela a Milady de Winter, a grande espiã e femme fatale de Os Três Mosqueteiros. Irene é também o nome de uma das cidades de Italo Calvino, no clássico Cidades Invisíveis, e a descrição que Marco Polo faz dessa cidade ao Khan certamente faz pensar não apenas na personagem, mas na própria entidade representada pela Biblioteca:
“Irene é o nome de uma cidade distante que muda à medida que se aproxima dela. A cidade de quem passa sem entrar é uma; é outra para quem é aprisionado e não sai mais dali; uma é a cidade à qual se chega pela primeira vez, outra é a que se abandona para nunca mais retornar; cada uma merece um nome diferente; talvez eu já tenha falado de Irene sob outros nomes; talvez eu só tenha falado de Irene.”
Sendo Irene quem é, não é surpresa que na missão que acompanhamos nesse livro, ela vá se deparar como um Grande Detetive - que em vez de Sherlock se chama Vale, mas isso é apenas um detalhe -, tenha de lidar com uma antagonista que é também uma Donzela Guerreira - Bradamante, cujo nome vem da cavaleira andante do poema épico Orlando Furioso - e com um vilão traidor batizado Alberich - cujo nome significa literalmente ‘rei dos elfos’ e pode ser ligado tanto ao Alberich mago anão protetor do tesouro dos nibelungos quanto a Oberon, o rei de Sonho de uma Noite de Verão.

Eu adoro esse tipo de ‘palavra cruzada’ de referências… ou, no dizer técnico, ironia intertextual e metanarrativa. Sempre me dá a impressão de estar compartilhando uma piada com o autor… A narrativa às vezes é um pouco corrida, com muita informação cedida de graça nos diálogos, o que os torna um pouco menos críveis. Não é algo que tire do regalo que é a leitura, mas que passada a ação e digerido o livro, pode ser visto como um problema, algo que imagino que Cogman vá corrigindo com mais experiência.

Em certa medida, A Biblioteca Invisível me lembrou muito a série Thursday Next, do Jasper Fford. A diferença é que Thursday faz parte de uma força policial que, por meio da tecnologia, é capaz de entrar no meio do enredo dos livros que protegem (motivo pelo qual Jane Eyre pode ser sequestrada, por exemplo); ao passo que Irene está mais para uma agente ‘double zero’, sem licença para matar, mas capaz de agir fora da lei para conseguir alcançar o bem maior da preservação dos livros. E, assim, considerando o mistério e a política em torno dos bibliotecários, é meio questionável se Irene realmente serve a um bem maior…
"E, por último (…) Todos nós ligados à Biblioteca somos pessoas que escolheram essa forma de vida porque amamos livros (…) Queremos livros. Amamos livros. Vivemos com livros."
Teorias de conspiração e personagens moralmente ambíguos à parte, A Biblioteca Invisível é uma leitura leve, despretensiosa e rápida. Embora seja um primeiro volume numa série, ele é perfeitamente capaz de se sustentar sozinho e você pode escolher não continuar para além dele. Mas Cogman criou um mundo tão interessante e tão cheio de potencial que não tenho dúvidas de que lerei os títulos seguintes.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: A Biblioteca Invisível
Autor: Genevieve Cogman
Tradução: Regiane Winarski
Editora: Morro Branco
Ano: 2016

Onde Comprar

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A Coruja


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2 comentários:

  1. nem acredito que estou em dia no desafio!!! li um livro muito legal!!
    https://leiturasdelaura.blogspot.com.br/2018/05/mr-penumbras-24-hour-bookstore-livraria.html

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