5 de maio de 2015

Wonderland – Parte I: Pela Toca do Coelho

Vou simplesmente olhar para cima e dizer ‘Então quem sou eu? Primeiro me digam, aí, se eu gostar e ser essa pessoa, eu subo; se não, fico aqui embaixo até ser alguma outra pessoa’...
Charles Lutwidge Dodgson era um jovem matemático e sub-bibliotecário de Christ Chuch College quando conheceu os Liddell em 1856 – e em especial a caçula da família, Alice, então com quatro anos de idade.

De natureza normalmente tímida e tranquila, Dodgson tinha facilidade com crianças e gostava e contar histórias para elas. Foi numa dessas ocasiões, num passeio de barco em julho de 1862 com as três irmãs Liddell, Edith, Alice e Lorina, que o rapaz começou a contar das aventuras de uma jovem Alice que, após cair numa toca de coelho, terminava por se encontrar no Mundo das Maravilhas.

Encantada com a história de sua homônima, a jovem Liddell pediu a Dodgson que escrevesse para ela a narrativa.

Dois anos depois, esse primeiro manuscrito cairia nas mãos de George MacDonald, escritor e amigo de Dodgson, que o leu em companhia de seus próprios filhos, que adoraram. Esse foi o encorajamento que faltava para Dodgson decidir revisar – adicionando as famosas cenas da festa do chá e do gato de Cheshire – e publicar Alice no País das Maravilhas, em 1865, sob o pseudônimo Lewis Carroll – uma brincadeira com seu próprio nome vertido para o latim.

Ísis: HEIN?! Que parte disso é Latim?!

Lulu: Esta é uma das perguntas que será feita no Great (Owl) Game, então você vai ter de esperar um pouquinho pela explicação ;)

(Combinemos aqui entre nós nesse instante que enquanto estamos falando em termos de biografia, usarei o nome de batismo e quando passarmos aos livros, vou falar dele sob o pseudônimo porque é como todo mundo o conhece de fato, ok?)

Em termos bastante diretos, esse é o resumo de como nasceu um dos mais famosos romances infantis e ícones culturais de nossa época. É claro que muito mais existe nas entrelinhas – boa parte delas ainda hoje envolta em polêmica e mistério.

Mas comecemos do começo...

Ísis: Uma vez nesses especiais você podia começar do fim, não?

Charles Dodgson nasceu em 27 de janeiro de 1832, num antigo presbitério em Daresbury. Terceiro de onze filhos e mais velho dos garotos, era muito próximo e extremamente protetor dos irmãos, especialmente das meninas (Ísis: Aaaaawwwww...). Ainda criança, já gostava de entreter sua família com histórias, jogos e truques de mágica.

Foi com seu pai, o Reverendo Charles Dodgson que iniciou seus estudos – ambos tinham em comum uma predileção pelos números, que mais tarde, quando o rapaz foi para a faculdade, em Oxford, se cristalizou numa graduação em matemática. Pouco depois de se formar, já era professor – embora seja dito que suas aulas eram bem entediantes

Fachada do Christ Church College, em Oxford, onde Dodgson lecionou
Ísis: Coitado, até esses detalhes ficam pra história...

Alto, magro e desengonçado – tinha, aparentemente, mais de um metro e oitenta (Ísis: CARAMBA!)-, com problemas de coluna (Ísis: Com 1,80 metros, também, né? >.< Dé: Devo informar que não tenho absolutamente nenhum problema de coluna, Isis. xD), era surdo de um ouvido, gaguejava, sofria de insônia e fortes enxaquecas e quase não comia. Mais tarde, analisando sua história médica, aventou-se a possibilidade de que ele tivesse epilepsia (em mais de uma ocasião ele teve convulsões características da doença) bem como Síndrome de Todd, uma doença neurológica rara que causa alucinações e distorce a percepção do tamanho dos objetos ao redor levando o paciente a se sentir maior ou menor do que é (Ísis: Isso explica muita coisa...) – não à toa, a doença também é chamada de Síndrome de Alice no País das Maravilhas.

Não surpreende, à vista de tudo isso, que Dodgson não fosse particularmente popular e se sentisse severamente acanhado quando na companhia de mulheres.Aliás, se formos pensar na forma como as mulheres são vistas em seus livros – a Rainha de Copas, a Duquesa, a Rainha Vermelha – pode-se arriscar que ele se sentia oprimido e aterrorizado pelo sexo oposto... Por outro lado, talvez fosse apenas um tipo específico de matrona que o fizesse suar frio, porque sabemos que ele manteve amizade com mulheres mais velhas, em especial atrizes de teatro.

Dé: Ser o único homem do Coruja é uma experiência parecida.

Lulu: Isso é você que diz ;)

A despeito da timidez, era um homem inteligente e sarcástico, escrevendo cartas, artigos e panfletos para reclamar de serviços e ironizar a política acadêmica de Oxford. Organizar seus argumentos de forma lógica, por escrito, parecia-lhe melhor que gaguejar num debate.

Ísis: Acho que com isso todos concordam...

Lulu: De fato...

Tinha um grande apreço por jogos, especialmente jogos de lógica; era um correspondente prolífico e fiel, arriscava-se como inventor, mantinha um minucioso diário e era um competente fotógrafo numa época em que a fotografia apenas começava a surgir.

Não à toa, muitos críticos o identificam com a figura do bondoso e atrapalhado Cavaleiro Branco de Através do Espelho.

A questão das fotografias é uma das mais polêmicas de sua biografia. Sabe-se que Dodgson gostava de tirar fotos de garotas pequenas – ele não era um grande fã de garotos, que considerava muito desordenados para seus gostos pessoais – incluindo aí fotos seminuas. As fotos eram tiradas com permissão das mães e se as crianças se sentissem confortáveis com a idéia. E aqui preciso colocar que imagens de crianças nuas eram um assunto de interesse dos artistas da era vitoriana e praticamente todos fizeram estudos do gênero.

Acredito que já tenha falado do assunto quando escrevi sobre Contos de Fadas: o conceito social de infância nasceu no século XIX e, na esteira de autores como Dickens e Tennyson, houve uma romantização da figura infantil. Enquanto que até o século XVIII, crianças eram vistas como meros adultos em miniatura, responsáveis pelos seus atos e plenamente capazes – inclusive de se matarem de trabalhar nas fábricas da Revolução Industrial –, os vitorianos glorificam a criança como símbolo de virtude, pureza e inocência, e reverenciadas como anjos.

Nesse contexto, fotografias de crianças nuas eram vistas como um interesse inocente – não era incomum mandar como cartão de natal uma foto das crianças da casa em ‘estado de graça’, nuas ou seminuas. Vez que os vitorianos também gostavam de tirar fotos com seus falecidos (Ísis: HEIN?!), essa idéia nem é a mais estranha que eles já tiveram. Seja como for, o interesse de Dodgson pelo assunto era bastante convencional e sua fascinação com a beleza da infância à época não despertava qualquer escândalo, mas hoje é interpretado sob uma lente bem menos tolerante.

Sabem outro autor que adorava fazer amizades com crianças no mesmo estilo de Dodgson? Mark Twain (Ísis: Isso também explica muita coisa...). E nem por isso ninguém sai acusando Twain por aí de ter sido um pedófilo.

Ísis: Não?!

Lulu: Pelo menos, não encontrei nada do tipo nas minhas pesquisas...

Considerando o número de meninas que foram fotografadas por Dodgson, com quem ele fez amizade e manteve correspondência, se tivesse havido de fato abuso, eu acredito que algum tipo de relato, nem que fosse como boato, tivesse surgido – ou que se encontrasse algo de mais inapropriado que mandar milhares de beijos no final de suas cartas.

Se as fotos em si não são exatamente prova de tais teorias, o mistério em torno de sua relação com Alice são outros quinhentos. Dodgson era, usualmente, minucioso na organização de seus diários e de sua correspondência. Contudo, parte dos registros do período entre 1858-1862, quando esteve mais próximo dos Liddell, simplesmente desapareceram, bem como suas cartas para Alice – que se acredita terem sido destruídas pela mãe da garota.

Parece haver certo consenso de que Dodgson fosse apaixonado por Alice e há um ou outro boato de que o motivo do distanciamento entre o jovem matemático e a família teria sido um pedido de casamento – embora a própria Alice, em suas memórias, nunca tenha falado nada sobre isso.

Ísis: A menina que inspirou a famosa Alice também escrevia?

Lulu: Não... mas no fim da vida, precisando de dinheiro, deixar que publicassem suas memórias sobre o autor era uma boa forma de resolver os problemas financeiros.

Também existiram boatos de que Dodgson estava cortejando, na verdade, a governanta Miss Prickett e que esse foi o verdadeiro motivo pelo qual houve a cisão. E, hilariantemente, ainda há quem jure de pés juntos que o verdadeiro alvo da paixão do matemático era não Alice, mas sim sua mãe, Mrs. Liddell. Vá entender...

Ísis: Pra quem tinha dificuldades com mulheres, ele tava cheio de boatos com elas, né?

Lulu: Povo não tinha mais o que fazer além de fofocar...

Tantas informações desencontradas se explicam por dois fatores. Primeiro, a relutância da família num primeiro momento em divulgar qualquer coisa de pessoal sobre seu mais famoso membro – e, quando finalmente permitiram o acesso aos diários e cartas, parte tinha sido censurada, parte ‘perdida’, num expurgo bastante parecido com o de Cassandra nos papéis de sua irmã Jane Austen.

No vácuo criado pela falta de informações ‘oficiais’, os primeiros biógrafos de Dodgson acabaram complementando o que havia disponível com suas próprias suposições e não demorou a que aquilo que era apenas presumido fosse lido como fato. Desfazer o estrago, a essa altura, é quase impossível, vez que essas hipóteses foram tão repetidas que se tornaram verdades absolutas. Por esse motivo, duvido que, mesmo que sejam encontrados os ‘diários perdidos’ e eles contradigam tudo o que se acha saber, isso vá mudar alguma coisa em nossa percepção atual do homem.


E assim é que, na era pós-freudiana, onde todos somos meio psicanalistas, e incapazes de compreender uma pessoa sem atribuir a ela intenções subconscientes para explicar suas ações a nosso contento, os biógrafos do século XX decidiram que Dodgson era um pedófilo.

Ísis: Triste essa realidade, né?

Dé: É pior do que parece. Existem certas vertentes de pesquisa que sugerem que TODA A SOCIEDADE E CULTURA HUMANA evoluíram com um único objetivo: sexo.

Lulu: E por essas e outras eu detesto Freud...

Pesquisando para escrever esse especial, eu me deparei com todo tipo de teoria estrambólica sobre o assunto. Uma das minhas favoritas é que como a diferença de idade entre Dodgson e Alice é a mesma entre ele e sua própria mãe, a fascinação do matemático com a jovem Liddell vem de um complexo de Édipo não resolvido.

Sendo bastante sincera: eu detesto interpretações freudianas de uma maneira geral porque elas normalmente reduzem tudo a sexo e apenas isso.

Ísis: Até onde eu me lembro, essa É a teoria de Freud: tudo gira em torno do sexo, consciente ou não...

Dé: Pelo pouco de Freud que estudei, é bem por aí mesmo...

Lulu: Eu realmente, realmente detesto Freud...

Em suma, nessa parte do debate, tudo são controvérsias, conjecturas e uma perversa fascinação com as tendências sexuais de Dodgson. Francamente, não acredito que tais discussões tenham algum efeito sobre a obra legada pelo autor. Se ele era pedófilo, somos levados a crer que era um pedófilo fortemente reprimido que passou a vida inteira se convencendo que não havia qualquer tipo de erotização em seu interesse por meninas pequenas. E aí, vamos fazer exatamente o quê sobre o assunto? Banir seus livros das bibliotecas? Queimar sua efigie em praça pública? Se houvesse provas de abuso, talvez se justificassem todas essas tentativas póstumas de julgamento, mas, não havendo, eu sinceramente não consigo entender porque perder tanto tempo no assunto.

Cento e cinqüenta anos após a publicação de Alice no País das Maravilhas, o que podemos realmente afirmar é que Dodgson se tornou um dos autores mais traduzidos e mais citados da literatura em todo o mundo, tendo aberto caminho para uma inteira geração de livros infantis e semeado influências que vão da música ao cinema, com resultados muitas vezes geniais. O que há mais para se falar sobre o assunto?

(Continua em... Somos Todos Loucos Aqui)

p.s.: não vamos nos esquecer que The Great (Owl) Game desse ano já começou! A primeira rodada acaba na segunda-feira que vem. Não percam!


A Coruja


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4 comentários:

  1. Adorei o post...
    Confesso que tive que ler Alice 2 vezes para entender a história, mas nunca havia me interessado pelo autor.
    Beijos

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    Respostas
    1. Fico feliz que tenha gostado! Dodgson é um personagem tão interessante quanto Alice e há tanta polêmica em torno dele que as vezes ficamos até tontos... Na próxima parte começa a análise dos livros em si, até lá ;)

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  2. Eu também realmente odeio o Freud.

    Parece que todos estes escritores que escreveram livros com personagens crianças tinham ligações muito forte com elas, o J.M. Barrie.
    Apesar de não haver nenhuma prova que comprove a pedofilia, também não há nenhuma que refute. E tem ainda os registos misteriosamente desaparecidos. Acho que a dúvida vai durar pra sempre. O que não dá pra negar é a importância de Alice pra Literatura.

    :) adorei o post, esperando o próximo.

    (Porque não fizeram uma cinebiografia de Dogson ainda?)

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    1. Sabe que essa é uma boa pergunta? Eu definitivamente assistiria esse filme.

      Façamos um clube dos que não estão nem aí para as teorias de Freud! ;)

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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