31 de agosto de 2011

Para ler: A Princesa e o Goblin

Era uma vez uma pequena princesa cujo pai foi rei de um grande país cheio de montanhas e vales. Seu palácio foi construído sobre uma das montanhas, e era muito grande e belo. A princesa, cujo nome era Irene, nasceu lá, mas foi enviada logo após seu nascimento - porque sua mãe não era muito forte -, para ser educada por pessoas do campo em uma grande casa, metade castelo, metade fazenda, no lado de outra montanha, a meio caminho entre a sua base e seu pico.

A princesa era uma criaturinha doce, e no momento em que minha história começa tinha cerca de oito anos, eu acho, mas ela ficou mais velha muito rápido. Seu rosto era claro e belo, com olhos como dois pedaços de céu à noite, cada um com uma estrela dissolvida no azul. Aqueles olhos você pensaria saber que tinham vindo de lá, muitas eram as vezes em que eles se voltavam nessa direção. O teto de seu quarto era azul, com estrelas no meio dele, como se o céu pudessem reproduzir. Mas eu duvido que alguma vez ela tenha visto o céu com as estrelas de verdade nele, por uma razão que é melhor eu falar de uma vez.

Essas montanhas estavam cheias de lugares vazios por baixo; cavernas enormes, e caminhos sinuosos, alguns com água corrente por meio deles, e alguns brilhando com todas as cores do arco-íris quando uma luz era jogada lá dentro. Não se conheceria muito deles, não fossem as minas, grandes poços profundos, com longas galerias e passagens a correr a partir deles, que tinham sido escavados para chegar ao minério de que as montanhas estavam cheias. No decorrer da escavação, os mineiros chegaram a muitas dessas cavernas naturais. Algumas tinham aberturas distantes do outro lado da montanha, ou em uma ravina.

Agora nestas cavernas subterrâneas vivia uma estranha raça de seres, chamada por alguns de gnomos, por alguns, kobolds, por alguns, goblins. Havia uma conhecida lenda no país que dizia que houve um tempo em que eles viveram acima do solo, e eram como as outras pessoas. Mas, por alguma razão ou outra, sobre os quais havia diferentes teorias lendárias, o rei tinha decretado o que eles achavam serem muito severos impostos, ou tinha requerido que os vigiassem, ou tinha começado a tratá-los com mais gravidade, de uma forma ou outra, impondo leis mais rigorosas, e a conseqüência foi que todos tinham desaparecido da superfície do reino. Segundo a lenda, contudo, em vez de irem para outro país, todos eles tinham se refugiado nas cavernas subterrâneas, de onde nunca saíam senão à noite, raramente mostrando-se em quantidade, e nunca para muitas pessoas de uma só vez. Era apenas nas partes menos freqüentadas e mais difíceis das montanhas que se dizia que eles se reuniam durante a noite ao ar livre.

Aqueles que os tinham avistado disseram que eles tinham muito se alterado ao longo das gerações, e nenhuma surpresa nisto, uma vez que eles viviam longe do sol, em lugares frios e úmidos e escuros. Eles eram agora não apenas feios, mas ou absolutamente hediondos, ou ridiculamente grotescos, tanto no rosto quanto na forma. Não há invenção, se diz, da imaginação mais sem lei, expressa por caneta ou lápis, que possa superar a extravagância de sua aparência. Mas eu suspeito que quem disse isso confundiu alguns dos seus companheiros animais com os próprios goblins. Os goblins não se distanciam tanto do humano como implicam tais descrições. E enquanto disforme cresciam seus corpos, também o fizeram em conhecimento e astúcia, e agora eram capazes de fazer coisas que mortal algum acreditava possível.

Porém, da mesma forma que cresceram em astúcia, cresceram também em maldade e seu grande prazer era em todos os sentidos pensar em como incomodar as pessoas que viviam no andar ao ar livre, acima deles. Eles tinham o suficiente de afeto uns pelos outros para preservá-los de serem cruéis apenas pela possibilidade de ser cruel; mas ainda assim acalentavam em seus corações o rancor ancestral contra aqueles que tinham ocupado suas posses anteriores – especialmente contra os descendentes do rei que causara sua expulsão, de tal forma que buscavam cada oportunidade de atormentá-los em formas tão estranhas quanto seus inventores e ainda que diminuídos e disformes, eles tinham força equivalente à sua astúcia. Com o passar do tempo, eles conseguiram um rei e governo próprios, cujo principal negócio, além de seus próprios simples affairs, era elaborar problemas para os vizinhos.

Será agora muito evidente porque a princesinha nunca vira o céu à noite. Eles tinham muito medo dos goblins para deixá-la sair da casa, mesmo em companhia de muitos atendentes – e eles tinham boas razões, como nós veremos logo.


George MacDonald – A Princesa e o Goblin
Este é outro título que vai entrar para minha lista de “livros que queria ter lido quando era criança”. A continuar nesse ritmo, terei uma biblioteca completa para meus filhos imaginários se eventualmente eles vierem a nascer.

Qualquer dia desses escreverei sobre a educação que pretendo dar aos tais pimpolhos. Tenho visões bastante claras sobre isso. Pretendo ensinar religião para o pirralho usando Small Gods do Pratchett como catecismo; vou cantar Queen como canção de ninar e ler Douglas Adams antes de dormir.

E aí já deu para entender porque meus filhos continuarão a ser apenas imaginários, não é mesmo?

Antes que eu comece a delirar aqui dando uma de Rousseau com Emílio, vamos ao que interessa...

George MacDonald escreveu A Princesa e o Goblin em 1872 e era um dos ídolos de Tolkien, que chegou a começar um prólogo de uma edição especial de outro conto do autor, Golden Key, em 1964 – e que terminou por se transformar no conto Smith of Wooton Major. Aliás, os goblins de MacDonald me fizeram constantemente lembrar de Gollum, até mesmo por suas origens...

A história é contada numa linguagem simples, quase musical – de tal forma que quando você acaba o livro, fica com aquela sensação de contentamento, vontade de sorrir para as paredes, de sair cantando e dançando por aí. A Princesa e o Goblin é o tipo de livro pelo qual você sente tanto carinho que dorme com ele abraçado ao peito, na mesma linha de volumes como O Pequeno Príncipe, A Princesinha e O Jardim Secreto.

Engraçado, tenho a impressão de que já usei palavras muito parecidas para descrever outros livros dessa série... vários dos mestres da fantasia antes de Tolkien escreveram contos que, a despeito de serem infantis, possuem uma dimensão e uma delicadeza muito características.

A Princesa do título, Irene, tem oito anos, e nunca viu o céu estrelado sobre sua cabeça. Desde a morte da mãe, ela vive escondida numa das residências de verão do rei, para sua própria proteção. Isso porque o reino vive sob uma praga de goblins, criaturas muito tolas, que vivem sob a terra, morrendo de medo do sol, de rimas e de canções.

Fica a dica: se algum dia acontecer de encontrarem com um goblin num ermo escuro, comecem a cantar alguma de suas rimas de infância - Sapo Cururu ou Pirulito que bate, bate ou ainda Ciranda, cirandinha.

O problema é que, embora Irene não tenha qualquer consciência dos goblins, os goblins têm consciência dela – na verdade, eles têm um intricado plano que subsiste em raptá-la, casá-la com seu príncipe e chantagear o rei.

E isso apesar do fato de que a princesa, que é humana, ter dedos nos pés, o que é horrível, simplesmente horrível – mas sacrifícios são necessários e estamos falando de política aqui, de forma que o príncipe consorte terá que passar por cima da aversão que os goblins sentem por dedos dos pés e engolir a noiva.

Se seu plano falhasse, havia outro de contingência: inundar as minas vizinhas ao seu lar e assim matar os mineiros, que eles acreditavam ser de fundamental importância para o reino.

Os goblins até que tinham bons planos... Eles não contavam, porém, com a presença do “fantasma” da rainha Irene, bisavó da princesa, nem com Curdie, um garoto esperto que trabalha na mina com o pai e é excelente com rimas.

Há muito que fica no ar em A Princesa e o Goblin. Há algo que não se explica sobre a natureza da família de Irene; algo sobrenatural em seu pai e em sua bisavó que me fazem muito lembrar dos elfos de Tolkien: altos, belos, poderosos, tristes.


Existe um filme baseado no livro – dá para assisti-lo no youtube (embora sem legendas) e quando o vi, tive a sensação de já conhecê-lo; tenho quase certeza de que assisti quando criança. Ele não é tão fiel à história original e o rei é bizarramente parecido com o Burger King, símbolo da cadeia de fast-food. Ainda assim, fiquei sorrindo como boba ao longo de todo filme...

Enfim, A Princesa e o Goblin é uma história incrivelmente delicada, gostosa de ler, que te deixa com gosto de quero mais – existe uma continuação chamada The Princess and Curdie, que ainda não li e da qual não vi tradução (o primeiro volume foi traduzido aqui no Brasil).

Para quem lê em inglês, ambos podem ser encontrados no site do Project Gutenberg, uma vez que já entraram em domínio público. Aliás, quando estava procurando o link, achei lá os Fairy Books de Andrew Lang... tô ferrada... vou endoidar até conseguir ler todos...


A Coruja


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