13 de dezembro de 2010

Para ler: Tales from the Perilous Realms



A princípio, no Reino das Fadas, andou em grande parte, pacatamente, entre a gente de menos importância e as bondosas criaturas das florestas e dos prados de belos vales, e pela beira das luminosas águas onde à noite brilhavam estranhas estrelas e ao alvorecer se espelhavam os picos cintilantes de montanhas longínquas. Algumas das suas visitas mais breves passou-as a olhar apenas para uma flor ou para uma árvore; mas mais tarde, em viagens mais longas, viu coisas em que havia simultaneamente beleza e terror e de que depois não conseguia lembrar-se claramente nem contar aos seus amigos, embora soubesse que tinham ficado a habitar no fundo do seu coração. Mas algumas coisas não as esquecia e permaneciam-lhe na mente como maravilhas e mistérios que freqüentemente recordava.

Quando começou a caminhar para longe sem um guia, pensou que descobriria os limites extremos da Terra; mas ergueram-se à sua frente grandes montanhas e, indo por longos caminhos à volta delas, chegou por fim a uma costa desolada. Parou ao lado do mar da Tempestade sem Vento, onde as ondas azuis como montes coroados de neve rolam silenciosamente, vindas do Não Iluminado para a praia comprida e trazendo os barcos brancos que regressam de batalhas nas Marcas Escuras das quais os homens nada sabem. Viu um grande barco ser lançado, alto, para terra e as águas recuarem em espuma, sem um ruído. Os marinheiros élficos eram altos e terríveis; as suas espadas brilhavam, as suas lanças cintilavam, e tinham nos olhos uma luz não penetrante. De súbito, ergueram a voz num canto triunfal e o coração de Smith estremeceu de medo, e ele caiu de bruços e eles passaram-lhe por cima e afastaram-se para os montes ecoantes.

J. R. R. Tolkien – Smith of Wootton Major


Há tempos que estava de olho nesse livro. Quando finalmente o comprei, ele passou, pelo menos, uns dois meses sentado na minha estante, enquanto eu corria de um lado para o outro feito barata tonta com duzentos prazos por dia e mais uma monografia.

Mas então, finalmente, terminada a mono, esse foi o primeiro livro que tirei da estante.

Sou suspeita para falar de Tolkien. Ainda não li um livro dele de que não tenha gostado e, como já disse antes em algum lugar, no panteão da minha "religião literária", Tolkien é supremo - eu diria equivalente a Zeus, mas como ele preferia mitologia celta e nórdica, direi que ele é o meu Odin/Wotan.

Agora... embora eu goste muito de todas as outras obras de Tolkien, confesso que Tales from the Perilous Realms, cuja maioria dos contos têm nada a ver com a Terra-Média, passou a ocupar um lugar muito especial na minha lista de livros queridos.

Sim, livros queridos, não necessariamente favoritos. Aqueles livros que te fazem sorrir como bobo, viajar em reinos e mundos fantásticos, que te dão a sensação de comer chocolate ou de caminhar no parque. Livros que são gostosa e confortavelmente lidos em dias de chuva. Livros que te fazem pensar na infância, que te dão um certo quê de nostalgia.

Se bem que a maior parte dos meus livros 'queridos' está também na lista de 'livros favoritos'. Nem todos os livros favoritos, contudo, estão na lista dos livros queridos, porque gosto de alguns livros que me deixam extremamente desconfortável e que me abrem idéias para reflexão.

Mas, ok, vamos parar a digressão por aqui. Voltemos a Tolkien.

Dos cinco contos e um ensaio que estão nesse livro, três eu já tinha lido em português - A Folha de Niggle, Sobre Histórias de Fadas (que volta e meia releio e é quase um livro de cabeceira) e As Aventuras de Tom Bombadil. Os outros três foram um primeiro contato e todos eles absolutamente me encantaram.

Roverandom foi o que teve uma nota mais fortemente nostálgica. Houve momentos do livro em que tive vontade de sair de casa (com ele debaixo do braço) e ir encontrar um lugar sossegado na praia para enfiar os pés na areia e continuar a ler. E depois, talvez, procurar magos enterrados e sereias, enquanto observasse à lua à procurar dois cachorros de asas, o Homem da Lua e os dragões.

Mestre Gil de Ham por sua vez, me fez rir com seus comentários propositalmente academicistas pedantes - sinto uma triste familiaridade com o gênero, tendo feito faculdade de direito (a maior parte dos meus profesores, ao final das contas, eram acadêmicos pedantes. E, pensando direitinho, uma boa parte dos alunos também...).

Independente dos tons de ironia, contudo, essa é uma ótima história, com um humor um pouco mais sutil. Posso dizer também que adorei aquele coup d'état do final. Gostaria que fosse igualmente possível fazer coisas como aquela na vida real.

Finalmente, O Ferreiro de Wootton Major foi o meu favorito. Estou aqui pensando com meus botões como explicar a experiência de ler esse conto e a única imagem que me vem à cabeça é que ela soa como pequenos sinos de prata e cristal. Ela me faz pensar em coisas delicadas e duradouras, belas e terríveis. É uma amostra; apenas uma pequena amostra, de Faërie.

É um dos melhores Contos de Fadas - verdadeiros contos de fadas, que fique bem dito - que já li. Uma pequena obra-prima - entre as muitas obras-primas - de Tolkien.

Esse é um livro que vale muito à pena ler e reler, independente de gêneros e favoritismos. E, se você puder lê-lo enquanto enterra os pés na areia de uma praia deserta e observa de longe o povo do mar, ao mesmo tempo em que o Homem da Lua acende as luzes no céu e fadas e elfos dançam junto à orla da floresta, então, tanto melhor.



A Coruja


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4 comentários:

  1. ótima resenha
    vc acredita que até hj não li nada de Tolkien? Pretendo ler logo a trilogia SdA.
    Eu nem conhecia esse livro do tolkien e parece ser bem bacana, afinal adoro livros de fantasia...

    chris
    leiobooks.blogspot.com

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    Respostas
    1. Vale à pena dar uma olhada sim, Chris, e acho, inclusive, que esse livro é uma boa introdução para os escritos de Tolkien no caso de ainda não ter lido nada referente à Terra-Média.

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  2. já li SdA e O Hobbit, e estou com Simarillion lá pra ler, tbm amo Tolkien e um dia quero ter todos os livros dele na minha estante

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    1. É a minha mesma ambição, Débora... Acho que completei ao menos a parte dos romances e contos; meus próximos objetos de desejo são os livros enciclopédicos...

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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