
A Tábata, do Happy Batatinha, que é membro do nosso Clube do Livro, sugeriu pelo final do ano passado que organizássemos entre os membros da trupe um booktour. O primeiro livro escolhido foi O Clube Dumas, de Arturo Pérez-Reverte, que já viajou de Santa Catarina para Ceará, para Pernambuco e para Bahia, com próxima parada em Minas Gerais.Como pode ver, o tema é um pouco erudito e um pouco infantil ao mesmo tempo, um jogo literário e nostálgico que resgata algumas velhas leituras e nos faz voltar a ser como éramos, com nossa inocência original. Depois que amadurecemos, tornamo-nos flaubertianos ou stendhalianos, pronunciamo-nos por Faulkner, Lampedusa, García Márquez, Durrell ou Kafka... Tornamo-nos diferentes uns dos outros, até mesmo adversários. Mas todos damos um piscar de olhos cúmplice ao nos referirmos a certos autores livros mágicos, que nos fizeram descobrir a literatura sem nos amarrar a dogmas, nem nos ensinar lições errada. Esta é a nossa autêntica pátria comum: narrativas fiéis não ao que os homens vêem, mas ao que os homens sonham.
Claro que depois de passar pela minha mão, ele foi com um peso extra, cheio de post-its. Mas como não poderia? O Clube Dumas é um prato cheio para qualquer bibliófilo - especialmente para alguém que gosta de folhetins, Dumas e... Umberto Eco XD
Sim, porque esse livro me parece uma grande, enorme homenagem ao Umberto Eco - e metade da graça de lê-lo talvez seja perdida para quem não conheça a obra do italiano.
Para começar, o clima dele me fez pensar constantemente em O Pêndulo de Foucault - teorias da conspiração; mentiras, livros e baboseiras (ao menos para os protagonistas) místicas são a receita dos dois e ambos terminam de forma parecida também: com uma interpretação errada.
Este é o cerne do livro. Toda a história de O Clube Dumas pode se resumir nas interpretações que Lucas Corso faz dos fatos que estão ocorrendo ao seu redor. Ele relaciona o manuscrito que supostamente seria de Os Três Mosqueteiros com todo o mistério por trás do Nove Portas. Ora, só com esse ponto, eu poderia escrever um mini-tratado sobre como suas conclusões estão intimamente relacionadas às idéias de interpretação e superinterpretação do Eco.
Segundo Eco, todo texto tem três 'intenções': a do autor, a do leitor e a do próprio texto. O leitor pode ultrapassar os limites das intenções do autor sem grandes problemas - suas experiências pessoais é que vão ditar a forma como se relaciona com o livro e influenciar em sua interpretação final. Mas o leitor não pode ultrapassar as intenções do próprio texto. Ele pode ver uma placa de "não pise na grama" e atravessar o gramado rolando ou de joelhos - e estará dentro dos limites de interpretação do texto (mas muito além dos limites de interpretação interpostos pelo autor, no caso, o legislador). No entanto, não há como ler um artigo sobre economia como uma declaração de amor. A partir do momento em que o leitor ultrapassa as intenções do texto, ele está fazendo uma superinterpretação.
Deu para entender?
O que o Corso faz no livro é um superinterpretação dos fatos - ele relaciona o manuscrito de Dumas com o Nove Portas e assim entende duas histórias que correm paralelas como uma única história entrelaçada - quando tudo o que elas têm em comum é a sua própria presença nelas.
A forma como Pérez-Reverte utilizou esse conceito foi genial. Não gostei muito do estilo pesado dele, excessivamente 'adjetivesco', mas a inteligência, as roldanas, os mecanismos que ele utiliza para fazer funcionar a história fizeram com que eu perdoasse esse pecadillo, que, ao final das contas, é uma questão puramente de estilo.
Isso para não falar das inúmeras citações diretas - você tem uma biblioteca incendiada, a busca de um livro proibido, Guilherme de Baskerville, uma série de mortes nos rastros de um livro... quer dizer, OLÁ, O Nome da Rosa!
Na verdade, o próprio Eco aparece. Gente, eu quase caí da cama rindo quando vi isso!
Resumo da história... eu gostei. Algumas partes me deixaram um pouco com pé atrás - como as explicações mais sobrenaturais da coisa... - mas de uma forma geral, o livro se sustenta. E tem a homenagem a Eco, então não é como se eu pudesse reclamar.Pág. 383 - "Olhe quem está chegando. Conhece-o, não é?... Professor de semiótica em Bolonha..."
Há também um filme inspirado no livro, chamado Nove Portas, com o Johnny Depp fazendo o papel de Lucas Corso e que até tive uma vontade inicial de ver.... Mas aí li uma sinopse dele e acho que o Polanski - que é o diretor - não se dignou a ler o livro, porque numa sinopse de umas dez linhas eu achei umas duzentas contradições com o livro. A começar do fato de que o mistério da história é justamente a ligação do manuscrito de Dumas com o livro medieval que supostamente tem encantos e rituais para chamar o diabo e não apenas a questão do ritual demoníaco.
Vou pensar no caso... se chegar a assistir o filme, dou notícias por aqui.

A Coruja
Já li a resenha da Tábata e estou morrendo de curiosidade...
ResponderExcluirO Clube é de encontros "ao vivo"? Se não, tem como entrar? Se for, tem como entrar só na "Booktour?"