2 de julho de 2009

Vampiros: Por Trás da Máscara - Parte II




Não há como traçar exatamente a origem do mito vampírico; da mesma forma como não se pode colocar data de nascimento para a invenção da escrita; trabalhamos sempre com aproximações.

De qualquer forma, não é como se a data da origem do mito fizesse alguma diferença. O que se pode dizer é que a figura do vampiro realmente se popularizou após Bram Stocker publicar seu Drácula.


Antes de Drácula, contudo, podemos ainda contar com Carmilla, que o precede em vinte e cinco anos, da autoria de Joseph Sheridan Le Fanu, história que influenciou, e muito, na criação de Stocker.

Provavelmente voltaremos a esses livros mais tarde. Agora estamos tratando das origens. E se não as origens do mito, então, as origens dos vampiros.

Como vocês devem ter visto no artigo passado, há muitas formas de transformar uma pessoa num vampiro – você pode fazer um gato pular sepulturas, ou morrer sem ser batizado, ou morrer grávida e assim por diante.

Essas são particularidades de cada cultura. Eu gosto mais da história de que vampiros são feitos vampiros após serem mordidos por outro. É uma explicação muito mais interessante do que achar que qualquer um depois de morto pode voltar para sair sugando sangue por aí.

Só que, se um vampiro cria um vampiro, de uma maneira ou de outra, temos de ter um “vampiro fundamental”; o primeiro de sua espécie. É dessa origem que quero falar hoje: mito por mito, a minha versão favorita é, sem dúvida, a do Livro de Nod.

Quem nunca jogou RPG e nunca ouviu falar do jogo Vampiro: A Máscara certamente também nunca ouviu falar do Livro de Nod. Bem, esse é um livro ficcional usado pelos jogadores como background para criação da história e dos personagens.

De acordo com ele, os vampiros descenderiam todos de Caim. Se vocês não se lembram de Caim – ou não pertencem a nenhum dos três troncos monoteístas que guardam entre si diversas semelhanças religiosas -, aí vai o resumo: Caim e Abel eram irmãos, filhos do primeiro casal, Adão e Eva. Caim era agricultor, Abel era pastor. Em certa época determinada, eles tinham de oferecer a Javé as primícias, os primeiros resultados de seu trabalho como sacrifício.

Abel matou um cordeiro do seu rebanho, enquanto Caim trouxe frutos e verduras. No Antigo Testamento, Javé sempre prefere oferendas mais... sanguinolentas. E, assim, ele gosta mais do sacrifício de Abel.

Por ciúme da preferência de Deus, Caim, que era o primogênito, mata o irmão, transformando-se no maior assassino da história humana (ignorando o fato de que o Gênesis seja uma alegoria, ok?), já que matou 25% do total da população da época.

Disse-lhe o Senhor: O que fizeste? Ouço da terra a voz do sangue de teu irmão, clamando por vingança! Agora, pois, serás maldito sobre a terra, que engoliu o sangue de teu irmão, derramado por ti. Quando cultivares o solo, ela te não dará os seus frutos. Tu andarás vagabundo e errante sobre a terra. E Caim disse aos Senhor: O castigo é grande demais para suportá-lo. Tu me lanças hoje fora da terra; e eu serei obrigado a me esconder diante da tua face. Quando estiver fugindo e vagueando pela terra, o primeiro que me encontrar, matar-me-á. Respondeu-lhe o Senhor: Pois bem. Se alguém matar a Caim, será por isso castigado sete vezes. O Senhor pôs, então, um sinal em Caim para que ninguém, ao encontrá-lo, o matasse. E Caim, tendo-se retirado de diante da face do Senhor, andou errante pela terra e foi habitar na região de Nod, que está ao nascente do Éden.
Gen 4, 10-16


A explicação do Livro de Nod é mais interessante, do meu ponto de vista: Caim não teria agido por inveja, mas por amor; sua obrigação era oferecer a Deus a primeira parte de suas alegrias e, para Caim, que amava o irmão, Abel era seu verdadeiro sacrifício – não muito diferente de quando Javé pede, como forma de prova de fé a Abraão que sacrifique Isaac.


E quando o Pai disse “o tempo por Sacrifício veio novamente
E Abel conduziu seu mais jovem, seu mais doce, seu mais amado
Para o fogo sacrificatório,
Eu não trouxe meu mais jovem, meu mais doce, porque eu sabia
O Único Acima não os quereria.

E meu irmão, amado Abel disse para mim “Caim, você não trouxe um sacrifício,
Um presente da primeira parte de sua alegria,
Para queimar no altar do Único Acima”.

Eu chorei lágrimas de amor por ele e com ferramentas afiadas,
Sacrifiquei a que foi a primeira parte de minha alegria, meu irmão.

E o Sangue de Abel cobriu o altar e cheirou docemente quando queimou.

Mas meu Pai disse “Amaldiçoado é você, Caim, que matou seu irmão”
Eu fui expulso, assim como deveria ser.


Alguns estudiosos identificam o mito de Caim condenado a vagar por toda sua existência com a história do Judeu Errante. O sapateiro que, enquanto Jesus carregava sua cruz, zombava do Filho (com outras variações do tema), teria recebido a mesma maldição que Caim.

Em todo caso... após ser expulso da presença de Javé, Caim teria vagado pela terra de Nod até encontrar Lilith, a primeira mulher.

Lilith é uma figura interessante da mitologia. Alguns identificam-na como um demônio, mas isso é intriga patriarcalista. O caso é que Lilith foi a primeira mulher dada a Adão, mas recusou-se a se submeter ao homem, como Deus ordenara, já que se considerava sua igual [a Adão, não Deus], sendo então exilada do Éden. Só então teria sido criada Eva, menos esperta, mais fácil de ser manipulada, subjugada e posta em posição inferior ao homem (em vários sentidos).

Todo mundo sabe como termina a história, não é?

Bem, após ter sido exilada, Lilith aparentemente comungou com demônios e transformou-se numa espécie de feiticeira. Ela acolheu e amou Caim e deu a ele de seu sangue, para “despertá-lo”.

Caim ganhou poderes, mas foi amaldiçoado pelos anjos que o procuraram para oferecer misericórdia divina desde que ele se arrependesse. Miguel o condenou com o temor ao fogo; Rafael, com a impossibilidade de andar sob o sol, tornando-o permanentemente uma criatura das trevas. E Uriel, o Anjo da Morte...


”Então, para que você caminhe nesta terra,
Você e suas crianças se agarrarão à Escuridão.
Você só beberá sangue. Você só comerá cinzas.
Você sempre será como você estava na morte
Nunca morrerá, mantendo-se vivo.
Você entrará para sempre na Escuridão,
Tudo o que você tocar irá se tornar em nada,
Até os últimos dias”.


Quando percebeu o verdadeiro significado de sua maldição, Caim chorou lágrimas de sangue. Veio ao seu encontro, então, o último arcanjo, Gabriel, que lhe prometeu uma possibilidade de salvação chamada Golconda, pela qual ele e sua descendência poderiam ser perdoados.

Não muito depois disso, Caim abandonou Lilith e voltou para a convivência dos filhos de seu terceiro irmão, Seth. Não me perguntem como Seth teve filhos, se só havia no mundo ele, os pais, Caim e um bando de demônios... o caso é que Caim voltou e foi rei da Primeira Cidade...

Sentindo-se solitário, Caim transformou Enoch, e, em homenagem ao seu primeiro filho, colocou o nome de Enoch à cidade. Depois disso, ele transformou também Irad – que serviria como seu braço forte – e Zillah, a qual ele amou e transformou em sua esposa.

Enoch, Irad e Zillah aprenderam a fazer sua própria Progênie e não demorou muito para que houvesse guerra. Beber do sangue de um Sire fazia os mais novos mais poderosos e, após o Dilúvio, as Crianças se levantaram contra os Anciões... Os três primeiros filhos de Caim foram mortos.

Da terceira geração de cainitas, restaram treze grandes clãs. De Caim, não se ouviu mais notícias, mas acredita-se que ele está por aí, esperando pelo Grand Finale: Ragnaröck, Apocalipse, o Fim do Mundo...

Gehenna logo virá...

Fiz um apanhado geral do jogo, mas vocês têm de convir comigo que, se fôssemos escolher uma origem para os vampiros, a idéia de colocar Caim como o “Pai Sombrio” é bastante promissora.

Existem, é claro, outras formas interessantes de originar-se vampiros... Como eu disse, prefiro a transformação através da mordida, mas eu também gosto muito da forma como Drácula de Bram Stocker – no filme, não no livro – se transformou.

A adaptação de Coppola em 92 traz um elemento significativo que difere do livro e que faz toda a diferença para a história: Vlad Tepes, líder romeno, está em guerra contra os turcos; uma guerra santa, pela Igreja. Por truques do inimigo, sua noiva, Elisabetha, acredita que ele está morto, e se suicida.

Quando Vlad volta de sua campanha, descobre que, como suicida, Elisabetha foi condenada ao Inferno (os suicidas não podiam ser enterrados em terreno santo – cemitérios – e suas almas estavam condenadas). Ele se revolta, renega Deus e é amaldiçoado por isso.

Então, se você quer se transformar num vampiro, amigo, sugiro que você saia catando um Sire por aí para sugar do seu pescoço (ou polegar ou pé ou qualquer outra parte do corpo, a depender da predileção nacional) ou então cometa uma heresias básicas.

Ou você pode ainda seguir os exemplos históricos... Não faltam vampiros “reais” em nossa História...

Continua...


A Coruja


p.s.: nota rápida... descobri hoje que estamos no Ano Internacional da Astronomia. Falarei em breve sobre o assunto aqui. Por hora, deixem-me ir e nos veremos amanhã, antes de eu viajar (é, pois é, de novo...)


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Um comentário:

  1. Carmilla é muito bom, mas muito pouco comentado e conhecido! Uma resenha será muito bem vinda! ^^

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