29 de março de 2022

Projeto Agatha Christie: Depois do Funeral


– Ainda assim, o segredo foi bem mantido, não foi? – falou Cora.

Todos a encararam, e ela pareceu um pouco perturbada.

– Acho que vocês estão bastante certos – continuou Cora apressadamente. – Quero dizer, certos mesmo. Não ajudaria em nada tornar pública a história. Muito desagradável para todos. Deve ser mantida estritamente em família.

Os rostos voltados para ela pareciam ainda mais inexpressivos.

O sr. Entwhistle inclinou-se para frente:

– Na verdade, Cora, temo não entender bem o que você quer dizer.

Cora Lansquenet olhou em volta para sua família com os olhos arregalados. Ela inclinou a cabeça para um lado, como um pássaro.

– Mas ele foi assassinado, não foi? – disse ela.

Dia de trazer mais um título para o Projeto Agatha Christie, e, dessa vez, um que eu não tinha lido antes (ou, pelo menos, não tenho memória alguma de já ter lido). Escolhi para agora Depois do Funeral por ser também indicação do Read Christie 2022 no tema ‘Agatha escreveu no exterior’.

Publicada em 1953, esse livro saiu primeiro nos Estados Unidos com o título alternativo Funerals are Fatal (nada como uma boa rima para chamar a atenção…) e, dois meses depois, no Reino Unido, com o nome original escolhido pela autora. Mais dez anos e ele foi relançado com ainda mais um título: Murder at the Gallop, para casar com o filme de 63, que trocou Poirot por Miss Marple à frente da investigação.

A multitude de títulos que um mesmo romance de Christie pode ter às vezes pode render certa confusão…

Enfim, vamos aos acontecimentos! O patriarca da família Abernethie morre de forma súbita, mas em circunstâncias aparentemente normais e tudo se encaminharia normalmente não fosse pelo comentário desastroso da irmã caçula do falecido durante a leitura do testamento, de que ele teria sido assassinado. Os presentes descontam a história como devaneios de uma idosa excêntrica, não fosse pelo fato de, no dia seguinte, Cora ser encontrada morta, assinada a golpes de machadinha.

O advogado e executor dos Abernethie, o senhor Entwhistle, quer crer que as duas mortes seguidas não passam de tristes coincidências. Mas, por via das dúvidas, decide pedir ao velho amigo Hercule Poirot que tire a prova dos nove e descubra se Richard Abernethie foi de fato assassinado, e Cora, morta em decorrência de sua afirmação.

Logo se torna aparente que todos na família teriam suas razões para apressar a morte do velho patriarca e assim colocar as mãos em sua parte da herança. Mas, como Poirot não deixará de provar, as aparências e expectativas podem enganar até o mais arguto dos observadores.

Eu não acertei nem de longe a solução do crime dessa vez. Em minha defesa, a maior pista do caso é uma deixa visual que tem a ver com simetria e tempo, e o gancho para sua solução é dada quase ao final do livro, quando muito tempo já se passou desde que o leitor passou pela cena crucial ao deslinde do caso. Seja como for, Depois do Funeral possui uma das maiores pistas falsas do arsenal de Christie, simplesmente pelo fato de você não entender até o fim quantos crimes de fato ocorreram.

Ir para muito além disso estragaria o deleite com esse mistério de bolos envenenados e concussões, machadinhas e freiras onipresentes. Não é uma coincidência que mais de um especialista considere esse um dos dez melhores romances protagonizados por Poirot…

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Decepção; 2 – Mais ou Menos; 3 – Interessante; 4 – Recomendo; 5 – Merece Releitura)

Ficha Bibliográfica

Título: Depois do Funeral
Autor: Agatha Christie
Tradução: Jorge Ritter
Editora: L&PM
Ano: 2010

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