17 de setembro de 2019

Para Toda a Eternidade - Conhecendo o Mundo de Mãos Dadas com a Morte


E então vem o luto. E luto não é sinônimo de dor. É justamente a expressão da dor. Desde sempre, é isso que nós, seres humanos, fazemos: damos sentido às coisas através da linguagem. Por isso é tão importante que o luto tenha espaço para acontecer.

Num dos capítulos finais de Sandman, conhecemos a cidade necrópole de Litargo, local em que os moradores são especialistas em ritos fúnebres. Ali nos é contado sobre vários costumes culturais acerca da morte e aquelas imagens foram a primeira coisa que me vieram à mente quando comecei esse livro da Doughty. É engraçado, porque lendo o Gaiman, imaginei que parte daqueles estranhos serviços funerários eram uma criação do autor, mas descobri em Para Toda a Eternidade que todos são verdadeiros e que há procedimentos ainda mais estranhos.


Eu descobri Caitlin Doughty quando a Darkside lançou cá no Brasil seu Confissões do Crematório. Tinha visto comentários sobre ele no Pipoca Musical e a premissa (além do ironicamente poético título em inglês - “Smoke Get in Your Eyes”) me chamou a atenção. Devorei o livro praticamente de uma única tacada: Doughty tem o condão de tornar suas aventuras na indústria funerária não apenas tocantes, mas até divertidas, além de levantar vários pontos importantes para reflexão (tal como o fato de que a morte deixou de ser um assunto familiar para se tornar, bem, um negócio extremamente lucrativo).

Foi por essa razão que, tão logo anunciaram Para Toda a Eternidade, fiquei na expectativa para lê-lo. Hilariantemente, ele foi minha companhia na sala de espera de um consultório médico - fico me perguntando se alguém ali percebeu sobre o que eu lia e achou apropriado para o local - e, de novo, foi uma leitura que fiz praticamente de uma sentada só, pausando de maneira relutante ao ser chamada para logo retornar quando fui liberada pela médica.

O subtítulo explica muito bem do que se trata o livro. Doughty, ela mesma dona de um crematório nos Estados Unidos, viajou pelo mundo, observando os costumes fúnebres de diferentes culturas, comparando-os com a sua experiência. De cremações em piras a céu aberto até famílias que mantém corpos mumificados em casa por anos, compostagem, crânios conselheiros e budas brilhantes - acompanhado das inspiradas ilustrações de Landis Blair -, há de tudo um pouco aqui. Mais importante, porém, que anotar aquilo que outros poderiam considerar o bizarro e o macabro (porque aquilo que consideramos diferente da nossa norma cultural será muitas vezes classificado como ‘anormal’), o que ela investiga aqui é como essas culturas lidam com o luto e o que elas têm a nos ensinar sobre o assunto.


Tenho uma família bem grande e já tive minhas experiências com funerais. O primeiro de que me lembro foi o da minha avó paterna. Era era pequena e o que me lembro mais foi de chorar muito, mas sem entender de todo o que estava acontecendo. Meus pais não me impediram de chegar perto do caixão e tocar vó Dulce em despedida e ainda hoje me lembro de D. Mãe dizendo que não havia razão nenhuma para ter medo dos mortos; era com os vivos que eu deveria ter cuidado.

Mais recentemente, perdi um amigo querido que foi cremado - eu não consegui ficar na vigília junto ao caixão, da mesma forma que não me senti bem visitando-o quando ele já entrara em coma na UTI. Mesmo a cerimônia de cremação foi algo estranho, artificial, com chuva de pétalas de rosa e música ambiente, algo que muito pouco tinha a ver com a pessoa que eu conhecera. O que realmente ajudou a lidar com a morte de Duda foi quando os amigos se reuniram num canto e começaram a compartilhar histórias: como o tinham conhecido, aventuras e desventuras, viagens, presepadas, quaisquer lembranças que o pessoal quisesse partilhar.

Duda me veio muitas vezes à mente quando foi a vez de me despedir de tia Maria Luísa. Os dois faleceram em anos diferentes, embora na mesma época do ano: janeiro, logo após o réveillon. Duda teve uma parada cardíaca um pouco antes da virada - chegou a ser ressuscitado, mas entrou em coma e faleceu quatro dias depois, sozinho, na UTI. Minha tia deu entrada no hospital pouco depois dos fogos (lembro nitidamente de quando eles começaram, porque estávamos saindo do carro, chegando ao hospital para levá-la para emergência). Ela se recusou a ser internada na UTI. Depois de conversar com os médicos, ela foi colocada num quarto e a família toda se revezou para estar ao lado dela até o final. Todo mundo teve tempo de se despedir, de segurar a mão dela e quando finalmente aconteceu, ela parecia apenas estar dormindo.

Foi muito mais fácil lidar com o luto no segundo caso - e refleti mais de uma vez sobre isso lendo Para Toda a Eternidade. Doughty lembra que, em tempos passados, as pessoas morriam no mais das vezes em casa e a família que as preparava para o enterro; hoje, morremos sozinhos em salas frias e inóspitas em hospitais; somos levados para funerárias dentro de sacos pretos temos um horário certo para o funeral e enterro. E, como bem lembra minha mãe, cá no Brasil, optando-se pelo enterro, tem ainda o boleto do IPTU para pagar anos após ano.

Muita gente talvez considere essa uma leitura macabra. Mas há de se lembrar que a morte, no final das contas, é nossa única certeza. A nossa, dos nossos entes queridos, do estranho que atravessamos na rua. Como lidamos com a morte, como fazemos para superar a dor ou aceitar nossa própria finitude, isso é importante, é algo que não deveríamos simplesmente varrer para debaixo do tapete até sermos brutalmente confrontados com ela. Doughty nos lembra disso, de forma respeitosa, mas também com humor.

Terminei pensando em como gostaria que fosse meu funeral. De todos os costumes que ela mostrou ao longo do livro, a pira funerária ao ar livre e o enterro em que o corpo se transforma em adubo foram os que mais me interessaram. Quiçá daqui muitos anos eu tenha chance de escolher.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Para Toda a Eternidade - Conhecendo o Mundo de Mãos Dadas com a Morte
Autor: Caitlin Doughty
Tradução: Regiane Winarski
Ilustrações: Landis Blair
Editora: Darkside
Ano: 2019

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