1 de outubro de 2018

Geek Love: o belo, o feio e o bizarro


Os movimentos da minha corcunda são agradáveis no ar quente, e o suor da minha cabeça careca escorre para dentro dos olhos, fazendo-os arder sob a luz intensa. O espírito da corcunda sacolejante se move pelo palco e contagia calças vermelhas, barrigas peludas e todo mundo, enquanto eu piso na minha blusa sem botões, escorrego nos arreios de elástico emaranhados e abro tanto os olhos quase cegos que eles conseguem enxergar que de fato há um tom cor-de-rosa ali - o olho albino na órbita sem cílios para protegê-la -, e isso é bom. Como me sinto orgulhosa dançando no ar cheio de olhos que me observam ali descoberta, incapazes de se desviar por causa do que eu sou. Aqueles pobres sapos atrás de mim estão em silêncio. Eu os superei. Eles pretendiam me usar e envergonhar, mas eu venci pela natureza, porque uma verdadeira bizarrice não pode ser inventada. Um bizarro de verdade deve trazer isso desde o nascimento.

Se você passasse pela livraria e só visse o nome Geek Love na capa, sobre o que você acharia que era essa história? Pessoalmente, desconfio que um livreiro desavisado poderia muito bem colocá-lo na prateleira de romances achando ser uma história ‘sessão da tarde’ em que nerds se apaixonam em alguma convenção de quadrinhos ou coisa parecida.

Ele não poderia estar mais errado.

Contemporaneamente, ser geek pode até ter outros significados mais positivos, mas Katherine Dunn usou o termo numa conotação mais antiga e específica: artistas ambulantes que se exibiam em performances bizarras e mesmo mórbidas... como a de arrancar a cabeça de uma galinha viva a dentadas, precisamente o talento pelo qual a matriarca da família dos Binewski é conhecida. E assim, num resumo bastante simplista, poderíamos dizer que Geek Love é a história de uma família circense especializada em bizarrices.

Mas, é claro, ele vai muito além disso.

Dividido em dois focos narrativos, o livro se alterna entre a origem e tragédia dos Binewski - do casamento de Aloysius ‘Al’ Binewski e Crystal Lil, à decisão de ter filhos que possam ser usados no mundo do circo, usando para tanto de uma dieta de drogas e materiais radioativos a cada gravidez, até a derrocada causada por ganância, sede de poder e ciúmes - e o dilema de Olympia e Miranda, da verdade sobre seu parentesco e o que significa, para elas, serem quem são.

Como classificar um livro como esse? Drama familiar? Suspense? Humor negro, horror sobrenatural, fantasia, ficção científica? Talvez começar eu deva começar dizendo que se trata de uma história perturbadora e que deve ser lida despindo-se de moralismos e julgamentos. Todos os personagens da história estão, de uma forma ou de outra, à margem do que a sociedade considera aceitável - exceto quando estão nos limites do circo, para servirem ao fascínio horrorizado do público pagante: as mutações de Arturo, o garoto com guelras; ou das gêmeas siamesas, Elly e Iphy, ou mesmo a anã corcunda albina, Oly. Fora daquele ambiente, é perfeitamente aceitável praticar tiro ao alvo com eles, e dane-se que sejam crianças.

Ilustração de Laura Park

O curioso é que nenhum dos filhos dos Binewski se pergunta como seria ser ‘normal’. Pelo contrário, para ele, o fato de serem diferentes é motivo de orgulho. E o nascimento de Fortunato, o caçula das crianças, com sua aparência comum e poderes de telecinese, amplia ainda mais a fricção entre essas várias personalidades, em especial a megalomania e manipulação de Arturo. Dessa forma, muito mais que suas deformações físicas, são as escolhas, os caminhos que esses personagens tomam que nos marcam.

Quando comecei a ler Geek Love, eu não tinha muita ideia do que tratava o livro; minha única referência o fato de Gaiman citá-lo como um de seus favoritos (e também o Burton, King e mais uma penca de gente interessante; mas é das indicações do Gaiman que costumo correr atrás…). Dunn tem uma prosa sublime em alguns pontos, e um problema de ritmo em outros, mas compensa pela complexidade e singularidade dos personagens, e pela forma como pinta imagens vívidas na cabeça do leitor. A história pode começar um pouco devagar, inclusive pela alternância dos enredos, mas uma vez que engrena, é difícil largá-la.

Ao terminar, tive de respirar fundo várias vezes. Passei um tempo sentada, tentando lidar com a reação bastante visceral que a história me causara, e uma certa sensação de... desolação. De ter de voltar ao mundo real, normal. Sendo sincera, eu não esperava que ele me causasse tamanho impacto, mas a verdade é que a história dos Binewski se esgueira por cantos escuros até te ter firmemente capturado em suas garras. Ou barbatanas. Patas. Enfim, alguma coisa do tipo.

Não é um livro que recomendo para todo mundo, afinal, Geek Love se enquadra em extremos, do tipo que você ama ou odeia. Nenhum dos Binewski são o que poderíamos chamar de herói, ou mesmo particularmente simpáticos e seria fácil se deixar levar pela aversão que muitas de suas atitudes (mais que as aparências) causa. Mas, deixando de lado pudores e pré-conceitos, é um enredo fascinante, intenso, excepcional. Desconcertante. E, sem dúvidas, incomparável.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Geek Love
Autor: Katherine Dunn
Tradução: Débora Isidoro
Editora: Darkside
Ano: 2018

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Um comentário:

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