6 de junho de 2018

Tradução - Em Busca de Portas


Descobri o vídeo da conferência de Victoria Schwab na Pembroke College Tolkien Lecture por puro acaso: o link foi indicado pelo Charles de Lint no Goodreads e, como sigo o autor por lá, o site me fez o favor de enviar a notificação para o meu e-mail. Já conhecia de nome a Schwab (estou com Um Tom Mais Escuro de Magia para ler aqui na estante), mas o que me chamou a atenção foi a referência a Tolkien - especialmente porque continuo às voltas com pesquisas para meu Projeto Arda. Guardei o e-mail para dar uma olhada quando tivesse mais tempo, e no fim de semana seguinte fui assistir.

Sabe quando você encontra um texto que você dava tudo e mais um pouco para ter escrito? Porque foi essa a sensação que tive quando assisti esse vídeo. Eu me senti incrivelmente representada em tudo o que ela disse. Exceto pelo detalhe de que para mim, Tolkien foi uma porta de entrada, foi o autor que me levou a gostar de ficção fantástica. Mas, como Schwab mesma diz, existem muitas portas e não é necessário que todo mundo vá pelo mesmo caminho...

Começando do conceito de 'livros de entrada', passando pelo poder das palavras e a vocação para a escrita, seguindo por questões como a necessidade humana de histórias, a responsabilidade dos escritores, representatividade, Victoria levanta pontos e questionamentos extremamente pertinentes, com humor e muita coragem - de tal forma que, embora não tenha lido ainda nenhum de seus romances, já virei fã.

Compartilhei o vídeo na última edição do Empilhando no Escaninho, mas achei a mensagem toda tão necessária e tão propícia a iniciar debates interessantes, que decidi traduzir o texto em português. Tive algumas dificuldades no caminho: não consegui encontrar uma transcrição; acabei baixando a legenda gerada automaticamente no youtube; tive de ouvir várias vezes para conseguir organizar o ensaio, ver onde o reconhecimento de fala tinha falhado e mais ou menos adivinhar onde ia a pontuação, para só então começar a traduzir. Fiz isso em quatro dias, usando todo momento livre que tinha, doida para terminar e poder dividir com todo mundo o texto completo.

É sempre bom lembrar que não sou uma tradutora profissional; usei um texto lido numa palestra em vez de uma transcrição, e isso significou ter de editar o produto final para tirar repetições e outros vícios de quando estamos falando em vez de escrevendo. Em alguns trechos (marcados com asterisco), não consegui desvendar a palavra que ela tinha dito e não confiei na legenda, de forma que ou cortei um exemplo, ou completei a frase pelo contexto. Isso significa que a essência do que Schwab disse está aqui, mas não se trata de uma tradução literal de tudo o que ela disse. Quando eu encontrar uma transcrição oficial da palestra, completo e corrijo o que for necessário. Mas se puderem, tiverem fluência, vejam o vídeo original. Vale muito, muito à pena, não apenas pelo texto, mas até pela emoção que a Schwab coloca em cada uma dessas palavras.

Dito tudo isso, vamos ao que realmente interessa... a tradução.

Em Busca de Portas, por Victoria Schwab

(Palestra dada na sexta Conferência Anual Tolkien em Pembroke College - 2018)


Olá. Estou honrada em estar aqui, muito obrigada pela introdução.

Bem, tenho uma confissão para fazer: eu nunca li O Senhor dos Anéis ou O Hobbit. Não me considero uma fã entendida de Tolkien, que dirá uma especialista. Não tenho nada contra o autor titular desta série de conferências; na verdade, quando fui contemplada com a imensa oportunidade de vir aqui proferir esta palestra, considerei largar tudo que tinha por fazer da vida para ler esses livros. Não porque eu tivesse vontade, mas porque como eu poderia subir a este pódio de outra forma? Fluência, se não admiração, era o que esperavam de mim. E foi exatamente por essa razão que, no final, optei por não lê-los. Tenho a firme convicção de que a leitura deve ser um ato de amor, de alegria, de descoberta voluntária; que quando forçamos alguém através do limiar literário errado, corremos o risco de afastá-lo em vez de conduzi-lo para além desta entrada.

Estive em uma conferência literária no começo do ano, parte de um painel, quando justamente esta ideia surgiu: o conceito de livros de entrada, de histórias que são responsáveis por nos tornar leitores. Ironicamente, foi o nome de Tolkien que iniciou o debate. Um autor que estava no painel comigo disse que - e estou parafraseando, porque não fiz anotações na hora, mas as palavras ficaram mais ou menos gravadas em minha mente - uma pessoa não deveria ter permissão para se considerar amante de ficção científica ou fantasia se não tivesse lido Tolkien; que seu trabalho deveria ser leitura obrigatória. ‘Leitura obrigatória’? Isso é algo que considero um rótulo perigoso. Sendo a convidada de honra daquela conferência em particular, e alguém que já admitiu para vocês que não alcançou tal distinção, eu o desafiei. Eu perguntei a ele o por quê. Por que Tolkien deveria ser o limiar, o marco, a medida pela qual a associação neste clube seria determinada? E o autor respondeu: "porque ele fez de mim um leitor, porque sem ele eu não estaria aqui". O que é maravilhoso para aquele escritor e para qualquer um que tenha encontrado seu caminho para a leitura através dos salões sagrados de Tolkien. Mas não existe apenas uma porta pela qual podemos encontrar nosso amor por livros.

De fato, tal exortação é perigosa e limitadora. O que acontece quando um leitor novato recebe um livro e lhe dizem "se você não amá-lo, você não ama fantasia"? Deixando de lado o fato de que é injusto colocar tanto peso sobre um único livro, acredito que é igualmente injusto colocar tanta pressão num único leitor. Eu disse ao homem no painel que eu nunca lera Tolkien, e ele me olhou não exatamente com escárnio, mas com espanto tão aberto, que parecia se perguntar como eu encontrara meu caminho até aquela cadeira, aquele painel, aquele prédio ou mesmo as páginas dos livros sem Tolkien. Eu simplesmente respondi: "eu encontrei outra porta". Não tinha ocorrido a ele que poderia haver mais de uma. Mas essa é a beleza de uma comunidade de leitores: não importa como nós encontramos nossas entradas - se com The Boxcar Children ou A Identidade Bourne e McCaffrey ou Stephen King - o que importa é que as encontramos.

Eu tinha onze anos quando encontrei minha primeira porta. Como filha única e precoce, era uma leitora muito capaz, mas não particularmente enamorada. Ainda não encontrara uma história que pudesse fazer as páginas do livro desaparecerem, que pudesse me fazer esquecer que eu estava vendo palavras no papel, da forma que um bom filme te faz esquecer do assento no cinema ou os contornos de uma tela. Então, uma amiga da família ligou para minha mãe. Ela estava numa livraria no sul da Califórnia e havia uma autora lá, autografando seu romance de estreia. Era um livro voltado para crianças da minha idade e a amiga perguntou a minha mãe se eu gostaria de uma cópia autografada. Ela, sabendo que eu não era uma leitora passional, mas sem querer ser rude, disse 'sim, claro, isso seria bom', e uma semana depois o livro chegava pelo correio. Não era um volume muito grosso, mas tinha na capa a imagem de um garoto voando numa vassoura através de um arco. Se vocês não adivinharam, era um livro chamado Harry Potter e a Pedra Filosofal (bem, ‘a pedra do feiticeiro’, visto que isso estava acontecendo nos Estados Unidos…). A escritora com que a amiga da minha mãe esbarrara na livraria era, claro, J. K. Rowling.

Isto soa como o início de uma história familiar, eu sei. Tantas pessoas da minha geração têm uma dívida com Rowling por proporcionar uma paixão por histórias, mas o fato é que, sem ela, sem aquela série, não tenho certeza se eu teria desenvolvido um amor pela ficção. Certamente não até muito mais tarde. Harry Potter foi a primeira vez em que me apaixonei. Foi a primeira vez em que me esqueci de que estava lendo livros, porque eu sentia como se estivesse assistindo um filme dentro da minha cabeça. Foi a primeira vez que me esqueci onde eu estava ou quem eu era. Harry Potter e J. K. Rowling me deram meu primeiro gosto pela verdadeira fuga narrativa, e, daquele momento em diante, eu estava fisgada, hipnotizada pela ideia de que alguém pudesse usar palavras daquela maneira para arrebatar. A alquimia de traduzir letras em histórias é pura e simples magia. E fez de mim uma leitora. Foi a minha porta. Porém, eu jamais colocaria esses livros diante de uma pessoa e diria ‘se você não amar estes aqui, você não é um leitor; se eles não forem capazes de tocá-lo, você não é um de nós’, porque não importa qual porta você tome, contanto que você encontre uma. Quase vinte anos após eu ter passado pela minha primeira porta, aqui estou eu. Alguns de nós encontram a porta jovens, e alguns, não. Meu pai - que completou sessenta e nove anos este ano - descobriu seu amor pelos livros nos últimos seis meses desde que se aposentou, provando que não existe prazo de validade para portas.

Algo mais aconteceu comigo quando li os livros de Rowling. Vocês devem ter percebido antes que, sim, eu amei a história, mas também me impressionou a magia do ofício. A ideia de que alguém, utilizando apenas palavras, era capaz de nos transportar ou transformar. E assim, ao atravessar aquela primeira porta, eu encontrei não apenas um amor pelos livros, mas o início do que seria meu segundo limiar: o portal que faria de mim uma escritora.

Penso bastante sobre linhagem criativa, pessoas, obras responsáveis por moldar e esculpir nossa sensibilidade como escritores, músicos, artistas, criadores. Muitas vezes falamos sobre livros como entidades em si mesmos. Afinal, todo livro tem um começo, meio e fim, eles têm um formato; algumas vezes conversamos sobre o contexto maior, o conjunto da obra, a evolução criativa do próprio autor. Mas muito raramente nós falamos sobre herança. Escritores têm uma dívida com cada voz que veio antes deles, com cada mão e palavra que ajudaram a dar forma ao criador em que eles se tornaram. Talvez para alguns, as fontes se misturem, mas para mim, os dois portais para a leitura e a escrita são claros, seus contornos vívidos, fortes. O primeiro limiar, eu devo a J. K. Rowling; o segundo, pertence a Neil Gaiman. Não fui exposta ao trabalho de Neil até estar no ensino médio. Queria ser uma contadora de histórias, mas não sabia que forma aquilo poderia tomar. Ficavam me dizendo que eu deveria encontrar uma estrada para ficar e eu me irritava com a ideia de que deveria escolher um único caminho. Era como se me dissessem para escolher uma caixa de certo tamanho, sem saber se você sempre caberia nela, suspeitando que a resposta seria negativa.

Sinto como se tivesse encontrado os livros de Neil todo de uma vez só, mas acho que esse é apenas um truque do tempo e da memória. Mas, quando tinha dezesseis anos, lembro vividamente de um período preenchido pelos escritos de Gaiman. Primeiro, Lugar Nenhum e Stardust, depois uma coleção de poemas e histórias intitulada Fumaça e Espelhos e então, Sandman. E toda vez que encontrava seus trabalhos, eles estavam num estilo diferente, um formato diferente, e ainda assim, cada peça era absolutamente ele. A voz dele perpassava todas as histórias, independente do seu feitio. E aquilo era o que eu queria, com o que eu tinha começado a sonhar, e Neil, através de sua obra, mostrou-me que era possível; que contar histórias poderia ser um cobertor em vez de uma caixa, algo sobre o qual exibimos nossos produtos em vez de contê-los. Há vários outros escritores que me marcaram - T. H. White, Susanna Clarke, Holly Blackmore, * - mas esses dois são o alicerce da minha identidade como autora.

As pessoas me perguntam porque eu escrevo fantasia. Eu costumava ter uma única resposta: porque eu cresci querendo que o mundo fosse mais estranho do que era. Hoje penso que o que eu queria dizer é que eu também queria que o mundo fosse mais. Fui o tipo de criança que vasculhava as colinas de pedra por trás da casa da minha avó, em Tahoe, procurando rachaduras em formato de portas, sulcos em forma de fechaduras. Passava minhas mãos pela superfície rochosa e tentava me lembrar de uma magia que eu nunca conhecera, uma senha que eu me tinha me convencido ter simplesmente esquecido. Dizia a mim mesma que se eu apenas pudesse me lembrar das palavras corretas, a passagem se abriria e eu encontraria aquele outro mundo que estava tão certa existir do outro lado. Essa foi minha juventude, passada procurando por portas. Não porque eu estivesse infeliz; pois tive o tipo de criação amorosa que fica registrado na memória como uma pintura em vez de um filme, uma ‘natureza-morta’. Minha mãe era uma sonhadora e meu pai era um diabético, e, exceto pelas explosões ocasionais dela e os episódios ocasionais dele, foi uma infância perfeitamente estável, ainda que bastante solitária. Procurava por saídas não porque me sentisse miserável ou perdida, mas porque não conseguia afastar a sensação de que havia mais, que o mundo era maior e mais extraordinário e mais mágico do que aquele que eu podia enxergar. Suponho que, de certa maneira, essa era minha versão de fé. Uma crença em algo que você é incapaz de enxergar, incapaz de provar, mas você procura por isso, de toda forma convencido de que está lá.

Cresci querendo que o mundo fosse mais estranho do que era em grande parte porque eu não encontrara meu lugar na versão que existia; ou melhor, eu apenas encontrara meu lugar nas páginas dos livros. Eu queria ser Alanna e Hermione Granger, queria ser Jason Bourne e Jonathan Strange e Katniss Everdeen e Rei Arthur e Sabriel. Queria ser poderosa, e importante, e livre. Queria encontrar as chaves do mundo, queria ver a mim mesma e ao mesmo tempo ser outra pessoa. Queria ser reinventada como alguém mais forte. Nunca fui à procura da felicidade, jamais me envolvi com romances. O que eu desejava eram as aventuras. Eu queria vagar pelo mundo dos mortos, lançar feitiços e vestir armadura de batalha, lutar contra espiões e derrubar impérios, e explorar aquele poço de magia que eu sabia estar dentro de mim, esperando para ser despertado, da mesma forma que eu sabia que o mundo era grande e extraordinário, mesmo que não pudesse enxergar isso ainda. Esse é o poder da fantasia, da ficção, de histórias, palavras. Somos ensinados na escola a usar as palavras com cuidado, com gentileza, a usá-las bem, mas nunca somos realmente ensinados - ao menos, não numa sala de aula - o quanto de magia elas realmente possuem. Descobri essa mágica primeiro como uma leitora, mas não levou muito tempo para que eu compreendesse que o poder que as palavras exerciam sobre mim era um poder que eu poderia dominar também. E, uma vez que descobri isso, eu não pude parar. Eu era insaciável. Eu ainda sou. Criatividade não é apenas uma forma potente de magia, é também viciante.

Antes de eu nascer, minha mãe ouviu uma profecia sobre mim - sim, era esse tipo de família. Não foi a mais generosa profecia, mas foi incrivelmente específica. Algumas partes eram um tanto perturbadoras, e algumas, surpreendentemente precisas: eu seria, desde o começo, uma forasteira, uma observadora atenta, uma mímica social, alguém perdido dentro da própria cabeça. Mas a parte que eu mais gostava era aquela em que a médium disse que eu teria talento para as palavras. Um talento que ela não tinha muita certeza de que eu usaria para o bem. Ela predisse que eu me tornaria líder de um culto... ou uma romancista. E, quer vocês acreditem ou não nisso, nunca deixou de me deliciar a ideia de que os fiandeiros de histórias sejam classificados no mesmo nível que agentes de caos e fé. Uma líder de culto ou uma escritora: o poder de mover as massas, de hipnotizar, de doutrinar, de encantar.

Palavras são algo de muito poder. Frequentemente brinco que escritores são os deuses de seus próprios mundos. Certamente somos seus mais adeptos mágicos. Muitos autores falam sobre encontrar seu caminho através de suas histórias, sobre mistério e surpresa e revelação; eles falam de seus trabalhos como coisas que já existem, entidades aguardando serem descobertas, desnudadas, exploradas, compreendidas; eles enxergam a si mesmos como o meio, condutores. Mas eu sempre me enxerguei como uma conjuradora. Colocando peça após peça no caldeirão, até que o feitiço tome forma, o conteúdo se torne mais do que a soma de suas partes. Isso é espírito, o que incorpora essa centelha inquantificável, e isso é que são as histórias também - elas são o que acontece quando ideias e palavras se juntam em algo mais. Uma frase é igual a letras mais espaço, mais significado; uma história é simplesmente uma frase em larga escala. É alquimia, a transmutação de um elemento em outro através de alguma combinação variável de método e loucura. Impossível de quantificar as proporções, porque elas são diferentes para cada um de nós, sempre.

Acreditem ou não - e está ficando cada vez mais difícil acreditar treze livros depois -, eu não pensava em escrever romances. Sou uma pessoa intensamente visual, vejo tudo antes de escrever. Bloqueio cada batida, folheio os segundos de um filme mental, corto para diferentes câmeras na minha cabeça, diferentes ângulos. Cada cena vem com sua própria paleta de cores, cada momento com uma trilha sonora. Eu era uma artista decente, mas nunca consegui encontrar uma maneira de trazer totalmente à vida o que eu enxergava usando canetas e tinta. Por isso, eu escrevia. Quando era criança, fazia roteiros e forçava meus amigos, vizinhos e família a atuá-los, apenas para que eu pudesse ver a história funcionar diante dos meus olhos, em vez de por trás deles. À medida em que crescia, fui ficando mais apegada às palavras em si, como se cada uma delas fosse de fato parte de um encantamento maior. Havia magia em ordem e cadência, sílaba e fluência. Durante anos, tudo o que eu escrevia vinha em métrica e verso. Poesia parecia-me a mais destilada forma de poder. Tinha quinze anos quando venci meu primeiro concurso de poesia e ainda me lembro das oito curtas linhas entrelaçadas no tecido da minha vida:

‘Talvez a lua
esteja no mar
refletindo
contra o céu
enquanto as vigas da noite
se banham nas ondas do oceano
e todas as estrelas
nadam por ele’

Eu amava poesia. Ainda amo, mas à medida em que as histórias na minha cabeça cresciam, mais e mais complexas, eu sabia que ainda não encontrara o formato certo para elas. Não foi até que eu chegasse à faculdade, até que tentasse contos e não ficção e micro-ficção e roteiros e jornalismo, que finalmente compreendi porque ainda não tentara escrever um livro: eu estava com medo. Tinha medo de não ter a disciplina necessária, medo de não ser inteligente o suficiente para construir algo tão grande, medo de que o livro desmoronasse, medo de falhar. E, felizmente para mim, tenho uma natureza bastante contraditória quando se trata de medo. Eu tinha medo de alturas, então pulei de pára-quedas. Tinha medo de mudanças, então cortei todo o meu cabelo. Tinha medo de sair de casa, então fui mochilar na Europa antes de seguir para a faculdade. Eu tinha medo de falhar em escrever um livro, então, eu me sentei e comecei a escrever um livro. Terminei meu primeiro romance e ele era terrível, como todos os primeiros romances deveriam ser. Mas era um começo. E o barato não foi apenas começar uma história, mas terminá-la; foi a mais viciante viciante que já senti. E eu fui fisgada. Desde aquela primeira incursão, sempre escrevi fantasia. De vez em quando tentei colocar um dedinho na ficção realista, mas dentro de alguns capítulos invariavelmente me descubro ansiando por um demônio ou um fantasma com que trabalhar, para fazer o mundo mais estranho.

Fantasia - isto deve ser dito - é um guarda-chuva bem grande. Alguns insistem em dividi-lo em refúgios menores, como fantasia especulativa, alta fantasia, mundos alternativas, fantasia urbana, thriller sobrenatural, contos de fadas em realismo mágico e assim por diante. E, a despeito de uma concepção tão ampla, muitas vezes parece que temos uma visão bem estreita dela. Fantasia nem sempre precisa ter magos, dragões, necromancia, magia, o escolhido, ou mundos que não podemos tocar. Eu escrevi sobre bruxas nos pântanos ingleses, bibliotecas onde mortos são colocados na estante como livros, super-poderes nascidos de experiências de quase-morte, magia elemental em Londres alternativas, e cidades em que a violência gera monstros reais. Quando falo de fantasia, quero dizer simplesmente uma história em que um pé - ou calcanhar ou mesmo o dedão do pé - não é plantado em terreno firme e familiar. Minhas fantasias favoritas são aquelas em que o outro pé está no lugar em que a linha entre o desconhecido e o sabido - a realidade observável e o fantástico e estranho - é pontilhada, se não, borrada. É algo que remonta à minha infância, procurando naquelas colinas de Tahoe por rachaduras na pedra que poderiam ser portas. Porque uma fantasia plantada inteiramente em outro mundo é um escapismo com limites: você pode ler sobre esse lugar, claro, mas nunca pode realmente chegar lá.

Fantasia com uma porta, um portal, uma maneira de entrar, isso gera um tipo diferente de crença. É a distinção entre Tolkien e C. S. Lewis: a Terra-média é acessível apenas na página; mas Nárnia tinha uma entrada nos fundos de um guarda-roupa. O guarda-roupa não é apenas uma peça de mobília, é um objeto que instiga incerteza. Desconfiança de que o mundo seja realmente tão simples ou mundano quanto parece, o tipo de dúvida que faz uma criança subir em toda despensa e armário que possa encontrar, procurando por passagens. Quando fazemos os leitores duvidarem de sua própria realidade, mesmo que só um pouco, nós lhe damos esperança de uma realidade diferente.

Escritores de fantasia possuem um tipo muito especial de magia: eles têm a habilidade de mudar o mundo. Escritores de fantasia especulativa têm a incrível oportunidade de especular, de reinventar e reimaginar. Temos o poder de criar espaços nos quais leitores diversos podem se enxergar, não apenas como tangenciais, mas como essenciais. Autores de fantasia têm a oportunidade de contar histórias sobre personagens cujos análogos da vida real costumam ser deixados do lado de fora dos limites da narrativa, e dar protagonismo àqueles constantemente relegados às suas margens. Por isso é desanimador (sendo generosa) e enlouquecedor (sendo honesta) ver tantas histórias novas se conformando a conceitos tão antigos. Ver tantos autores de fantasia contemporânea se subscrevendo a modelos antiquados, seja por nostalgia, ou pela facilidade de estradas já trilhadas, ou, mais provavelmente, porque eles ainda se sentem adequadamente representados por eles. Isto é um desperdício. A mais bela parte de escrever fantasia é a liberdade - não das regras, porque todos sabemos que boas histórias precisam de bons mundos e bons mundos, quer estejam enraizados em fantasia, ficção científica ou realismo, requerem fundamentos sólidos -, não, não das regras, mas dos precisos detalhes do presente que habitamos.

Temos a oportunidade de subverter os tropos estabelecidos, de redefinir poder, de conceber paisagens e climas sociais perpendiculares àqueles em que já vivemos. Fantasia nos permite explorar os pontos fortes e fracos do nosso próprio mundo através das lentes do outro, extrair conceitos de sua moldura natural, do seu contexto clássico e desgastado, e examinar a fragilidade destas ideias, de reestruturar e recentralizar. Fantasia nos proporciona o luxo de um exame atento das células e de uma sociedade inserida em um contexto de escapismo. Ela pode ser comentário, diálogo e também refúgio. A boa fantasia opera neste aparente paradoxo: permite ao escritor - e, por extensão, ao leitor - usar análogos ficcionais e fantasiosos para examinar os dilemas do mundo real, e também permite ao leitor a fuga, para descobrir um espaço onde as coisas são diferentes, estranhas, mais.

Na minha opinião, não há algo como ‘pura fantasia’. Fantasia, como todas as histórias, tem suas raízes na realidade, cresce a partir desse solo. Histórias nascem do ‘e-se?’, e essa questão sempre estará enraizada no que é conhecido. ‘E-se?’ é, por sua natureza, a essência do ‘e se as coisas fossem diferentes?’, e essa pergunta depende de uma base, daquilo que queremos que ela seja diferente. Nesse sentido, toda fantasia está numa conversa com a realidade que reconhecemos; é um contraste, um contraponto. Na minha opinião, as melhores fantasias são aquelas que admitem e se engajam com essa realidade de alguma forma. Talvez isso signifique que enxerguemos o mundo que estamos deixando - embarcamos no trem para Hogwarts, entramos no Guarda-roupa. Ou talvez nós tenhamos simplesmente de reconhecer as fundações sobre as quais nossa história nasceu e da qual estamos partindo. Não estou necessariamente advogando por uma fantasia como metáfora aberta. Os pontos de encontro desses questionamentos não precisam ser a força motriz da narrativa*. Mas aquela pergunta - ‘e-se’ - é mais forte quando desafia o mundo que já conhecemos e encontra uma maneira de se desviar dele, de perguntar mais questões interessantes, de contar histórias mais novas. Porque, devo confessar, eu estou cansada de ‘únicos verdadeiros reis’.

Eu estou cansada das histórias centradas em torno do jovem homem branco aprendendo como exercer seu poder, como se o mundo real já não fizesse o suficiente para prepará-los para isso. Estou cansada de histórias em que mulheres são princesas, prostitutas ou ‘Manic Pixie Dream Girls’, que não têm história própria, mas existem apenas como instrumentos do enredo, obstáculos e pausas para descanso na jornada do protagonista masculino. Estou cansada de histórias que se parecem e nos fazem sentir, agem e se comportam como o mundo em que já vivemos, porque elas se subscrevem às mesmas definições de hierarquia, os mesmos delineamentos de poder, as mesmas normas já aceitas. E, cansada como estou, sequer posso imaginar quão fatigados alguns dos meus colegas estão: o que parece uma colina para mim deve ser montanhas para escritores negros. Sei disso. Posso apenas ter esperança que, ajudando a criar uma fantasia comercial que quebre esses velhos moldes, eu possa abrir espaço para outros fazerem o mesmo. Eu amo esse espaço. Eu amo fantasia e adoro o potencial que ela tem. Existe esse medo que sinto em alguns autores - muitos deles hetero, brancos e homens -, como se seguir em frente significasse deixar o passado, o passado particular deles, para trás. E, talvez, na vida real isso seja verdade, mas na ficção tais regras não se aplicam. O antigo não é apagado, substituído pelo novo; é apenas feito melhor, extraordinário, algo mais.

Essa é a razão pela qual escrevo fantasia, porque sempre escrevi fantasia: para fazer o mundo mais estranho do que ele é, mais do que ele é, melhor do que ele é. Escrevo fantasia porque quero sentir o que eu sentia quando estava nas colinas de pedra da minha avó, procurando aquelas portas; o que sinto quando o ar muda de repente e posso farejar a energia em nosso mundo, como no começo de uma tempestade. Não escrevo para criar uma magia que não está já presente: escrevo para acessar uma magia que é, para ampliá-la, para que outros possam senti-la também. Escrevo fantasia para fazer rachaduras nos alicerces das expectativas de um leitor, para desafiar a solidez de suas suposições e crenças. Escrevo fantasia porque quero encorajar os crentes, e fazer os céticos se perguntarem; para incutir dúvida e esperança em igual medida, para auxiliar os leitores a imaginarem um tempo, um lugar, um mundo onde conceitos fantásticos como mágica, imortalidade ou igualdade pareçam estar dentro do nosso alcance.

Minhas histórias favoritas são aquelas tecidas como teias de aranha sobre nossa realidade, aquelas que fazem a magia parecer à mão, que nos prometem uma porta, mesmo que não a tenhamos encontrado ainda. Aquelas que nos fazem duvidar de nossos próprios sentidos, da mesma forma que uma experiência sobrenatural, ou de quase-morte, ou espiritual, faz um cínico desconfiar suas próprias verdades estabelecidas e aceitas. Uma das minhas experiências mais satisfatórias gira em torno do meu romance Vicious. É um livro sobre dois estudantes de medicina que descobrem que a chave para super-poderes são experiências de quase-morte; que a iminência de uma fatalidade pode desencadear uma mudança adrenal permanente. Eu enrosquei minha mágica com ciência, peguei aquilo que era e cutuquei-o uma medida adiante para o que poderia ser. E, cerca de três meses após o livro ter sido publicado, recebi um e-mail de um homem que não conseguiria dormir até que eu lhe contasse a verdade: alguma coisa daquilo era real? Um adulto crescido me mandou uma mensagem no meio da noite por causa da pergunta; a ideia do ‘e-se’ fazia-o permanecer acordado. Ele tinha certeza! - ele tinha quase certeza -, mas a dúvida se infiltrara como kudzu no sul, descamando os alicerces limpos de sua mente enquanto criava espaço para crescer.

Gostaria que acreditar nas coisas fosse sempre tão fácil. Queria poder escrever uma realidade que fosse mais gentil para tantos que leem meu trabalho, queria que, como em Um Tom Mais Escuro de Magia, o vigor do poder de uma pessoa fosse mais importante do que por quem ela se apaixona; queria poder transformar em protagonistas mulheres, LGBTQ e negros tão facilmente no mundo real como é em meus livros. Mas enquanto esse dia não chega, eu me comprometo a fazê-lo na ficção. Escreverei mulheres poderosas e príncipes que se apaixonam por príncipes e mundos em que os monstros que nos atormentam têm formas que podem ser combatidas e derrotadas. Escreverei pessoas imperfeitas, porque as pessoas são imperfeitas, e escreverei livros onde aqueles que são freqüentemente relegados a ajudantes, símbolos ou objetos estejam no centro da narrativa, onde eles tenham suas próprias escolhas, seu próprio poder e sua própria história. Escreverei o que amo e o que desejo, na esperança de que, para alguém, não seja apenas uma escapatória, mas uma entrada.

Em suma, escreverei na esperança de escrever para outra pessoa uma porta.


A Coruja


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3 comentários:

  1. Muito obrigada por me apresentar a esse video, já tinha lido algumas obras da autora, e acho que essa palestra ajuda a entender melhor e até a gostar mais do trabalho dela.Como uma fã de Tolkien me senti um pouco desafiada no começo do video, o que não é algo ruim, muito menos quando se ouve bons argumentos.

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    1. Pois é, Gabriela, também fiquei encantada com o vídeo (vide minha necessidade de traduzi-lo e compartilhá-lo) e, como você mesma disse, desafiada pelo vídeo. Ela foi muito pertinente nos argumentos que apresentou. Ainda não tinha lido nenhum livro dela, mas já estou com o primeiro da trilogia da Londres alternativa para começar essa semana.

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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