2 de maio de 2017

Desafio Corujesco 2017 - Um Livro que Você Tem mas Nunca Leu || O Sol é para Todos

“- Talvez quisesse mesmo me bater. - concordou Atticus. - Mas, filho, quando você for mais velho, vai entender melhor as pessoas. Uma multidão, qualquer que seja ela, é sempre formada por pessoas. Na noite passada, o sr. Cunningham fazia parte de um grupo, mas continuava sendo uma pessoa. Todo grupo em toda cidadezinha do sol é sempre formado por pessoas que a gente conhece. O que não diz muito a favor dessas pessoas, não é?

- Eu diria que não - concordou Jem.

- Foi preciso uma menina de oito anos para fazer eles recobrarem o bom senso, não foi? - perguntou Atticus. - Isso prova que um bando de homens ensandecidos pode ser contido, simplesmente porque eles continuam sendo humanos. Hum, talvez precisássemos de uma força policial formada por crianças… Na noite passada, vocês crianças fizeram Walter Cunningham se colocar no meu lugar por um minuto. Foi o suficiente.”
Publicado no início da década de 60, no auge do movimento por direitos civis nos Estados Unidos, O Sol é para Todos é considerado um dos mais importantes romances do século XX e um pilar da própria identidade americana. É um livro que estava há bastante tempo na minha estante e ao qual vim dar prioridade mês passado, vez que ele foi indicado para debate no Clube do Livro - tendo rendido um dos melhores debates do grupo, com direito a risos nostálgicos e olhos embargados. E que também me fez criar uma nova categoria de livros na minha cabeça: a de “títulos que eu gostaria de ter lido na faculdade”, pois o romance de Harper Lee ensina mais sobre ética e justiça que muitos dos seminários que tive de assistir sobre o assunto quando estudante.

A história se passa numa cidade do interior do Alabama - Maycomb - abarcando um período de três anos no início da década de 30. Narrada por Jean Louise “Scout” Finch, que inicia a história com seis anos é primeiro uma série de aventuras de verão, com Scout seguindo fielmente o irmão mais velho, Jem e o melhor amigo, Dill nas tentativas de atrair para fora de casa o ermitão Arthur “Boo” Radley; para então se transformar num drama de tribunal cuja injustiça do veredicto contrasta com a figura calma e centrada do pai de Scout, o advogado Atticus Finch. O julgamento do negro Tom Robinson, acusado de estuprar uma jovem branca, Mayella Ewell (inspirado em fatos reais, no que ficou conhecido como Caso Scottsboro, em 1931) torna-se o centro da narrativa quando Atticus aceita defender o rapaz. Numa comunidade extremamente racista - estamos falando do interior sulista dos Estados Unidos afinal - essa decisão afeta as vidas de Scout e Jem, que a princípio não conseguem entender nem o porquê das acusações que sofrem nem os motivos do pai para ir contra o que o resto da cidade crê ser certo. Pouco a pouco, contudo, Scout começa a entender que Robinson foi acusado injustamente e que há muito mais acontecendo ao seu redor do que se aparenta.

Há quem critique a forma como Lee retratou os afro-americanos em seu romance, como ‘vítimas indefesas’ que precisam constantemente da proteção dos brancos. Talvez eu pudesse concordar que a tragédia de Robinson estava servindo apenas de escada para o desenvolvimento de Atticus não fosse o fato de que a história é narrada por Scout e isso dá um foco diferente para a narrativa: não se trata simplesmente de apresentar uma história sobre injustiça; mas de demonstrar a ideia de que preconceito é algo que se aprende, que se reproduz por exposição ao grupo, e que pode ser mudado, desaprendido quando confrontamos a realidade do medo do Outro, do diferente, do estranho - algo que é também explorado na curiosidade das crianças em relação a Boo Radley.

Scout entende que o que está acontecendo não está certo, mas ainda não tem compreensão do tamanho da injustiça que está sendo feita; mas é possível enxergar, em sua narrativa, o preciso momento em que Jem entende, em que sua inocência de criança termina. É quase possível ouvir seu coração se partindo quando o veredicto dos jurados é lido. Embora Scout amadureça ao longo da história, é Jem que faz de O Sol é para Todos um romance de mudança, ‘coming of age’.


O julgamento de Robinson é um aprendizado para as crianças, e o é, também, para a sociedade de Maycomb. Como bem observa Miss Maudie, embora o resultado não seja perfeito, é certo que Atticus, em sua defesa, fez os jurados - todos eles brancos - refletirem por um momento para além de seus preconceitos e criação. A justiça, aqui, não é um direito, mas um privilégio. Apesar disso, de um sistema criminal bastante imperfeito, ele ainda é a melhor alternativa. Do contrário, o resultado seria o linchamento público, o triunfo da histeria coletiva e do padrão moral da sociedade contra a consciência individual - e esse confronto gera uma das cenas mais impactantes do livro.

Nesse contexto, Atticus Finch é mais que um herói: é pilar de ética e moral de Maycomb, um dos bastiões do panteão literário americano. E ele conquista essa posição não com atos de grandiosidade, mas na consistência de suas atitudes. Atticus vive seus princípios no dia a dia e é isso, como nos observa Miss Maudie, que o faz admirável. A lição de Atticus para seus filhos e para os leitores do romance, é praticar a empatia, colocar-se no lugar do outro para enxergar a situação antes de começar a fazer julgamentos. É reconhecer que a vida pode não ser justa, mas que isso não nos exime de fazer o certo, ainda que seja doloroso.

“- Em primeiro lugar, Scout - ele disse -, se aprender um truque simples, vai se relacionar melhor com todo tipo de gente. Você só consegue entender uma pessoa de verdade quando vê as coisas do ponto de vista dela.”

A despeito das difíceis lições e do final agridoce, O Sol é para Todos é um livro que se encerra com esperança, que nos deixa com lágrimas, sim, mas também com um sorriso. É uma leitura que não queremos largar, que passa rápida e que nos força a refletir sobre nossas próprias atitudes e consciência. Em tempos de Lava-Jato e escândalos diários no noticiário, é uma lição valiosa sobre ética e justiça.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: O Sol é para Todos
Autor: Harper Lee
Tradução: Beatriz Horta
Editora: José Olympio
Ano: 2015

Onde Comprar

Amazon || Cultura || Saraiva || Submarino


A Coruja


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Um comentário:

  1. Gente... estou super atrasada no tema desse mês! Mas é um tijolão, em algum momento postarei a resenha aqui :-)

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