21 de agosto de 2016

#LendoSandman: Despertar


No último arco de Sandman damos um adeus definitivo a Morpheus e as boas-vindas a um novo aspecto de Sonho, encarnado pela parte imortal da alma de Daniel Hall. Celebramos a vida do Rei dos Sonhos, revemos muitos rostos familiares e lembramos que o outro lado da destruição é a criação - e que o final de uns representa o início de outros.


O título em inglês desse volume - Wake - se presta a muitas traduções e é perfeito para a dualidade existente na narrativa - o que, aliás, foi utilizado muito bem nos títulos de cada um dos capítulos. De um lado, é a vigília feita antes de um sepultamento, o velório, o momento da despedida. De outro é o despertar, o reviver, o ressuscitar.

O arco se inicia com as consequências imediatas da morte de Morpheus: seus irmãos são oficialmente comunicados e se reúnem em Litargo, a cidade necrópole que conhecemos em Fim dos Mundos, para obter a mortalha e o livro do ritual. Para tanto, eles criam um golem, a quem Delírio batiza de Eblis O'Shaughnessy, conferindo a eles os dons dos Perpétuos presentes: Eblis tem um destino e uma morte, deseja, delira e se desespera, mas não pode sonhar, nem destruir o que, profetiza Destino, “será seu triunfo, será sua tragédia”.

De posse dos objetos necessários ao ritual, os Perpétuos constroem uma ponte e um memorial onde serão recebidos os convidados para a vigília, que já estão chegando ao Sonhar, misturando-se e compartilhando suas memórias de Morpheus.

Enquanto isso, o novo Sonho reconstrói o que foi deixado em ruínas pelas Bondosas - ressuscitando os súditos do Sonhar que foram mortos e se prepara para o momento de conhecer seus irmãos.

É difícil escrever sobre tudo o que esse arco significa - ele faz referência a tudo o que veio antes dele, com personagens e momentos importantes da série. Difícil também porque se despedir desse mundo - despertar ao final da história - é doloroso. Gaiman nos coloca aqui como personagens, como participantes dessa vigília; somos os enlutados que compartilham e celebram a vida de um ente querido, somos os sonhadores que se despedem do rei do Sonhar.


E de todos os personagens que atravessam nosso caminho nesse momento, talvez o que mais represente nosso estado de espírito seja Matthew, o Corvo que acompanhou Morpheus nessa jornada. Matthew, como nós, passa - nesses dois últimos arcos da história - por todos os estágios do luto. Da negação até o momento de aceitar que, bem, a vida continua, Matthew nos representa.


Isso é algo que não podemos esquecer: a morte de Morpheus não é o final. Como muito bem diz Abel, não se pode matar uma ideia - o que se foi é uma apenas uma faceta, um ‘ponto de vista’. Sonho é um Perpétuo e isso significa algo importante, algo que fica claro sempre que o enredo retorna atenção ao novo rei do Sonhar: Ele pode ter sido Daniel, mas ele também sempre foi Sonho - mesmo antes de ser concebido, ele já existia como uma face daquela ideia.


Assim é que a vida continua e há um novo rei no trono. E, embora Daniel seja Sonho, e sempre o tenha sido do ponto de vista do Universo, ele é muito diferente de Morpheus. Ele traz em si a inocência da infância de Daniel Hall e, por mais dolorosa que tenha sido suas últimas experiências como humano, ele não se deixou embrutecer pelo sofrimento. Ele passa uma impressão de tristeza, mas também de paz e compaixão, muito mais propenso a ouvir e a perdoar que seu antecessor.


Talvez o momento em que isso fique mais claro seja no conto Exilados, que serve quase como um segundo epílogo a Despertar e uma continuação da história de Marco Polo em Regiões Abstratas. Na história do conselheiro chinês exilado pelos erros de seu filho as duas facetas de Sonho convivem no mesmo espaço e no mesmo tempo - num lugar maleável em que tempo e espaço não significam muita coisa. Daniel e Morpheus existem e sempre existirão como Sonho.

Afinal, “tudo muda, mas nada se perde realmente”.


Despertar se encerra com Shakespeare e A Tempestade, o que faz… bastante sentido. Sandman é, em sua essência, uma história sobre histórias, sobre o poder das narrativas - e William Shakespeare é um divisor de águas na forma de contar histórias, o ‘inventor do humano’, no sentido de que ele traz para o centro do cânone literário o homem e não os deuses como protagonistas de seu destino.

A Tempestade não é considerada a melhor de suas peças pelos críticos. Ao mesmo tempo, é uma das peças mais importantes do bardo - não apenas por ser seu último trabalho, sua despedida dos palcos, mas também pela impressão autobiográfica que ela passa. Shakespeare é Próspero, despedindo-se do mundo de sonhos criado por sua pena - e Gaiman aqui também é Próspero e Shakespeare, fechando o último capítulo de sua magnum opus.


É também uma peça repleta de metalinguagem, no sentido em que reflete sobre seu papel como peça, como uma montagem de uma narrativa. A arte de Próspero é a própria mágica do teatro e sua manipulação dos personagens que terminam caindo em sua ilha é a de um diretor marcando os lugares de seus atores. E o que é Sandman se não pura metalinguagem?

Quando chegamos ao final de Despertar, percebemos assim que tudo foi costurado perfeitamente. Não há ponto sem nó, não há fios soltos - pelo contrário, tudo o que está ali, é por uma razão.

Gaiman é um mestre dos detalhes, de trazer pequenas pequenas referências que, a princípio, não parecem particularmente importantes… até que você vai pesquisar e descobre que mesmo nomes dados ao acaso - de forma um tanto delirante até - guardam muito mais significado do que aparentam.

Eblis O’Shaughnessy, o golem criado pelos Perpétuos para buscar o livro dos ritos e a mortalha de Morpheus guarda em seu sobrenome uma das inúmeras chaves para a resposta de ‘sobre o que é Sandman afinal?’. O’Shaughnessy é também o sobrenome de um poeta inglês que publicou, em 1873, um poema chamado Ode, que fala sobre o ofício do artista.

Procurei uma tradução do poema, mas não encontrei. Então decidi fazer minha própria tradução, porque a verdade é que esses versos são o resumo e a essência do que é Sandman. Tentem desconsiderar o fato de que quebrei ritmo e ignorei rima para tentar trazer o máximo do sentido das palavras originais e vamos ao poema.

Somos os fazedores de música, e somos os sonhadores de sonhos,
Vagando por solitários quebra-mares, e sentando junto a desolados riachos;
Perdedores do mundo e esquecidos do mundo, sobre os quais a pálida lua brilha:
E contudo somos os que movem e agitam sempre o mundo, ao que parece.

Com maravilhosas imortais cantigas construímos as grandes cidades do mundo,
E de fabulosas histórias moldamos a glória de um império:
Um homem com um sonho, à vontade seguirá adiante e conquistará a coroa;
E três com a medida de uma nova canção podem levar um reinado abaixo.

Nós, nas eras que se encontram no passado enterrado da terra,
Construímos Nínive com nossos suspiros,e a própria Babel com nosso júbilo
E as derrubamos profetizando aos antigos o valor do novo mundo;
Para cada época há um sonho que está morrendo, ou um que está vindo a nascer.

Arthur O’Shaughnessy dedica esse poema aos artistas - e num sentido bastante amplo do que seja arte, sem restrições de estilo. Arte envolve criação e muitas vezes, sofrimento - e até mesmo o repúdio do resto da sociedade. Mas a arte é também mudança, a quebra do status quo - é a semente da revolução. Esse é o papel do artista e é isso que o poema celebra: histórias e fantasia são o que impulsionam a humanidade.

São os fazedores de histórias e mitos que nos fazem avançar e é através das histórias que criamos nossa identidade. Somos o que somos, somos quem somos pelas histórias e memórias que trazemos conosco. E no final, quando deixamos de existir com nossos corpos, é a nossa arte e nossa criação que se mantém.

Essa é a essência de Sandman - e de praticamente todos os livros do Gaiman. Histórias são importantes porque nós somos histórias - ou como Shakespeare maravilhosamente diz em A Tempestade, “nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos e entre um sono e outro decorre nossa curta existência”. Somos nossos mitos e nossos deuses.

Morpheus é o Princípe das Histórias, o lorde moldador. Ele é ideia e inspiração. Autor e personagem de sua própria tragédia. Ele é Sonho dos Perpétuos e como tal, sua essência não deixa de existir e sua morte não representa o fim. Ele continua como parte de uma narrativa muito maior, na memória de todos os sonhadores que tocou.


E assim é que chegamos ao final - ou a um final - do projeto #LendoSandman. Só tenho a agradecer pela oportunidade que a Raquel e o Pipoca Musical me deram de retornar a esse universo estranho, belo e assombroso. Ainda há histórias de Sandman de que falar e tenho certeza que, mais cedo ou mais tarde, retornaremos aqui a elas. Enquanto isso, o debate continua na comunidade All About Gaiman.

Para quem está chegando agora ou quer ver todos os outros posts de projeto cá no Coruja, vocês podem clicar nesse link ou seguir a ordem dos arcos no índice abaixo.

Projeto Lendo Sandman

Prelúdios e Noturnos
Casa de Bonecas
Terra dos Sonhos
Estação das Brumas
Espelhos Distantes
Um Jogo de Você
Convergência
Vidas Breves
Fim dos Mundos
Entes Queridos
Despertar


A Coruja


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