quinta-feira, 5 de abril de 2012

Projeto Pratchett: Jingo



"It was much better to imagine men in some smokey room somewhere, made mad and cynical by privilege and power, plotting over brandy. You had to cling to this sort of image, because if you didn't then you might have to face the fact that bad things happened because ordinary people, the kind who brushed the dog and told the children bed time stories, were capable of then going out and doing horrible things to other ordinary people. It was so much easier to blame it on Them. It was bleakly depressing to think that They were Us. If it was Them, then nothing was anyone's fault. If it was Us, then what did that make Me? After all, I'm one of Us. I must be. I've certainly never thought of myself as one of Them. No one ever thinks of themselves as one of Them. We're always one of Us. It's Them that do the bad things."

Terry Pratchett – Jingo

Jingo - que é uma gíria britânica, pelo que entendi, aplicada a Rússia de 1870, para a idéia de nacionalismo militar, agressivo - é o vigésimo primeiro livro publicado na série Discworld, mais uma fantasia urbana centrada na Guarda de Ankh-Morpork – e a essa altura, acho que já deu para perceber que, de maneira geral, esses são exatamente os meus favoritos, não?

Tudo começa de forma pacifica, com uma pescaria e aí se transforma num imbróglio de proporções épicas quando sem mais nem menos, uma ilha perdida ressurge no mar, exatamente entre os territórios de Ankh-Morpork e Klatch. A ilha de Leshp já apareceu e desapareceu misteriosamente antes e os dois potentados reclamam soberania sobre o território desde tempos imemoriais.

O que ninguém parece levar em conta é a arquitetura estranha e ‘errada’ dos edifícios gigantescos e antiqüíssimos, que pouco parecem com obras humanas, os hieróglifos misteriosos e as criaturas assustadoras apenas sugeridas em seus contornos em torno da ilha.

O tema lovecraftiano é aqui apenas um aperitivo, um detalhe mínimo – mas me parece bastante óbvio que Leshp está para o Disco como R’lyeh está para o universo de Cthulhu.

Mas o importante em Jingo não é a ilha em si, com quaisquer que sejam as vantagens (e desvantagens) de chamá-la de seu território, mas sim a perfeita desculpa que ela representa para uma declaração de guerra.

Sendo uma estudiosa do assunto, eu vibrei com as tiradas de Pratchett sobre o instituto da guerra e o ordenamento em torno dela. Parecia que eu estava vendo minha monografia da faculdade enquanto observava a aproximação de Lorde Rust, que vê o combate como um jogo de cavalheiros (no princípio da História da Guerra, quando ela era identificada com honra e coragem), contra o cinismo de Vimes, que vê tudo aquilo como uma grande crime (visão atual do direito de guerra), caindo, portanto, em sua jurisdição.

E não se engane que pela enormidade do trabalho, ele seja impossível – Vimes está determinado a ir contra o resto do mundo e prender todos os responsáveis, sejam eles reis ou exércitos como um todo – o primeiro Tribunal Penal Internacional para Crimes de Guerra do Disco.

Isso para não falar nos comentários de que “a comunidade internacional está assistindo” ou como o conflito externo influi internamente, traduzindo-se em preconceito e perseguição – e não importa que seus pais, tendo emigrado de Klatch, tiveram você em Ankh, que você tenha vivido sua vida inteira na cidade e que sequer saiba falar a língua do outro país: você é estrangeiro e portanto, é culpado.

Como de hábito, Pratchett é simplesmente genial e certeiro em suas críticas – e o final do livro fez-me lamentar a impossibilidade de votar em Lorde Vetinari nas próximas eleições...

Vetinari para Presidente: eu apóio essa idéia!
"It is always useful to face an enemy who is prepared to die for his country,' he read. 'This means that both you and he have exactly the same aim in mind."


A Coruja

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