7 de dezembro de 2011

Desafio Literário 2011: Dezembro - Lançamentos || Todos os Homens são Mentirosos



Não leve a mal meus comentários: Bevilacqua não era um desses mal‑educados que sentam no sofá e depois você não consegue desgruda‑los dali nem com benzina. Ao contrário. Era uma dessas pessoas que parecem incapazes da menor grosseria, e era essa mesma qualidade que tornava tão difícil pedir a ele que fosse embora. Bevilacqua tinha uma espécie de graça natural, uma elegância simples, uma presença anônima. Magro e alto como era, movia‑se lentamente, como uma girafa. Sua voz era ao mesmo tempo rouca e tranquilizadora. Seus olhos túrgidos, latinos, eu diria, davam‑lhe um ar sonolento e se fixavam na gente de tal maneira que era impossível olhar para outro lugar quando ele falava. E quando estendia seus dedos finos, amarelos de nicotina, para segurar a manga de seu interlocutor, era preciso deixar‑se segurar, sabendo ser inútil qualquer resistência. Só na hora da despedida eu percebia que ele me fizera perder a tarde inteira.

Manguel, como ensaísta já era um dos meus amores literários, apenas um pouco abaixo de Umberto Eco. Suas opiniões, sua óbvia paixão pelos livros, seus insights inteligentes – tudo isso me encanta desde a primeira página de Uma História da Leitura, que foi a primeira de suas obras que tive o prazer de ler.

Inclusive, no ano passado, ele esteve na FLIPORTO, aqui no Recife e é claro que dei uma de tiete e fui lá pegar autógrafo do homem. Muito simpático, o Manguel. Tivemos cinco minutos de prosa, embaralhando inglês, espanhol e português e ele, muito gentil, ainda tirou uma foto comigo.

Ok, mas não estamos aqui para que eu fique soltando suspiros. O caso é que eu conhecia a faceta de ensaísta e pesquisador do Manguel, mas não seus trabalhos de ficção. Todos os homens são mentirosos foi lançado naquele dia, mas só vim a colocar minhas mãos nele esse ano e, mesmo assim, ele demorou, diante de outras prioridades, a sair da estante.

Agora finalmente consegui lê-lo.

É um livrinho curioso. A cada capítulo que eu terminava, tinha de parar para recapitular e tentar conciliar as informações dadas anteriormente num quebra-cabeça em que praticamente nenhuma peça se encaixa.

Sob cinco pontos de vista diferentes, nos é contada a mesma história: o destino de Alejandro Bevilacqua, exilado da ditadura militar argentina, recém-chegado a Madri, autor da obra-prima “Elogio da Mentira”, morto na noite de seu triunfo, na noite em que seu livro foi lançado.

Ou será mesmo? Será que Bevilacqua se suicidou ou foi assassinado? Será que ele era um agitador político ou fora pego por engano? Será que era ele o autor do manuscrito?

Em cada capítulos, uma das pessoas que o conheceram dá um relato de sua vida, mas cada testemunho lança mais sombras sobre a figura do exilado. Então, no quê acreditar? Em quem acreditar? Quem, entre o amigo distraído, a ex-amante, o companheiro de cela, o louco e o jornalista tem o retrato mais acurado do homem? Ou todos estão relatando apenas facetas que conheceram, facetas não necessariamente contraditórias de uma mesma e única pessoa?

Ao final do livro, eu não tinha certeza se sabia muito mais do que quando começara. A única coisa que tinha certeza é que Manguel acabara de me conquistar. De novo.

Parte delírio, parte biografia, parte suspense policial, Todos os homens são mentirosos nos faz pensar em como assumimos tantos e tão diversos papéis, ao ponto em que, reunidos, não temos mais como saber o que somos em essência.

Faz você se perguntar como as outras pessoas te vêem. O que vai ficar de você na memória delas. Em que você irá se transformar quando já não estiver mais aqui para contar sua própria história. Onde começa a mentira, o interesse e a identidade?

Boa reflexão.

Nota: 5
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Todos os homens são mentirosos
Autor: Alberto Manguel
Tradutor: Josely Vianna Baptista
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2010
Número de páginas: 184



A Coruja


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