14 de novembro de 2011

Para ler: A Inocência do Padre Brown




O que há de mais inacreditável nos milagres é que eles acontecem. Algumas nuvens no céu agrupam-se para formar um olho humano. Uma árvore destaca-se na paisagem de uma jornada duvidosa na forma exata e elaborada de um sinal de interrogação. Eu mesmo vi as duas coisas nos últimos dias. Nelson morre, de fato, no instante da vitória; e um homem chamado Williams mata de forma completamente acidental um homem chamado Williams Jr.; isso soa meio como um infanticídio. Resumindo, na vida existe um elemento mágico nas coincidências que as pessoas ao pensar no prosaico talvez nunca notem. Como bem expressa o paradoxo de Poe, a sabedoria tem de levar em conta o inesperado.
G. K. Chesterton – A Inocência do Padre Brown

Adoro histórias de detetives. Particularmente, meu favorito é Hercule Poirot – mas também gosto do Sherlock, do Dupin, do Maigret... Considerando esse gosto, é meio surpreendente que eu jamais tivesse ouvido falar no Padre Brown. Aliás, quero saber de quem devo reclamar por não ter sido apresentada antes a Chesterton.

Vou culpar a Régis, porque vi Chesterton na estante dela no Skoob e ela nunca me falou dele. Régis! Shame on You!

Cara, eu sou uma mala...

Ok, mala, diga aí agora como foi que você finalmente descobriu Chesterton, já que a Régis não fez as apresentações... Muito simples, jovem padawan: estava eu na livraria quando dei de cara com uma edição – em inglês – de Belas Maldições. Tinha prometido que daria esse livro de aniversário para o Dé, de forma que peguei o volume e o meti debaixo do braço.

Já estava na fila do caixa quando comecei a, saudosamente, folhear o livro, até dar de cara com a dedicatória feita por Gaiman e Pratchett a G. K. Chesterton. Eis que levanto a cabeça e ao meu lado está um daqueles estandes de livros de bolso – e exatamente na minha linha de visão... A Inocência do Padre Brown, de G. K. Chesterton!

Era um sinal. E você não discute com sinais. Nem mesmo para reclamar que as livrarias estão fazendo como as Lojas Americanas e colocando estantes de lindos e coloridos livrinhos junto da fila de modo a alimentar seu impulso consumista. Exceto que nas Americanas é chocolate... mas, bem, ao menos no que diz respeito a mim, o efeito é o mesmo.

Mas nada disso vem ao caso. O fato é que por inspiração divina – Pratchett e Gaiman não é menos que uma inspiração divina – coloquei Chesterton debaixo do braço também. E lá vou eu de vlta para casa com Padre Brown na bolsa... e na bolsa ele permanece comigo, para cima e para baixo, durante quase uma semana, para poder ler em todo e qualquer momento livre que apareça.

Sinal divino, já disse. Você ao discute com isso. Nem mesmo para dizer que tem quarenta e dois livros na frente dele esperando na estante. Com um sinal destes, você tem de dar prioridade.

A Inocência do Padre Brown é composto de vários contos bem diferentes, nos quais somos apresentados ao amável padre Brown – com seu rosto redondo, sua aparência humilde, sua intuição quase sobrenatural... ou não tão sobrenatural assim pois, como o próprio bom padre explica, ele é um confessor e, como tal, profundo conhecedor da alma humana – especialmente em seus piores vícios.

E essa vivência, somada a aparente ingenuidade de Bown, é seu maior trunfo. Ele é inteligente, claro, até bastante astucioso. Mas é pela forma que os que estão ao seu redor o subestimam que ele acaba por vencer – ao ponto de ‘converter’ o terrível Hercule Flambeau se não em cristão, em seu amigo e admirador.

E é tão diferente encontrar um detetive literário que não se acha a melhor coisa do mundo desde a invenção do papel higiênico! Padre Brown não apenas aparenta simplicidade e desprendimento – ele é assim, verdadeiramente bom e humano. Há, sim, qualquer coisa de mística aqui (Flambeau faz graça inúmeras vezes com o amigo sobre o assunto), mas não na forma como Brown desvenda os crimes e sim em sua própria personalidade.

No mais das vezes, padre Brown não apenas descobre quem é o criminoso, mas apela à própria consciência destes. Ele sabe exatamente o quê e quando dizer. É uma qualidade admirável. Brown é um personagem admirável. Entendo agora o sinal que recebi.

Devo acrescentar mais Chesterton à minha estante...



A Coruja


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