28 de novembro de 2011

Clube do Livro (Novembro) - Sr. Segunda-Feira



Sete dias. Sete chaves. Sete virtudes. Sete pecados. Ninguém espera que Artur Penhaligon seja um herói. Órfão, com a saúde debilitada e sem coragem, ele sofre com o medo de que a praga que invadiu seu País leve embora sua família adotiva. Mas, quando uma estranha chave em forma de ponteiro de relógio é entregue a ele, Artur descobre que é o Herdeiro das Chaves para o Reino. Tudo o que acha que sabe – sobre seus pais, sua cidade e sua vida – está prestes a mudar. Agora que ele herdou a Chave de uma Casa estranha e perigosa, não há como voltar atrás. Ele deve reunir toda sua coragem e arriscar aquilo que ama para desvendar os segredos do mundo que descobriu e salvar o mundo que ele conhece.

Nunca tinha lido nada do Garth Nix e estava até bastante curiosa para ver o que me esperava nesse livro - afinal, já tinha ouvido falar muito bem do autor. Confesso, contudo, que o começo me deixou meio tonta e perdida... Ele não te dá nenhum subsídio, nenhuma pista do que esperar: já te joga direto no meio de uma confusão dos diabos, com um 'testamento' preso numa estrela, cercado por umas criaturas de metal esquisitas e ai meu deus, onde foi que fui parar? E, de repente, não mais que de repente, você está no mundo 'normal', sem que tenha acontecido grandes transições, despejada no meio de uma aula de educação física.

Para ser sincera, eu não gostei disso no livro. Os acontecimentos se sucedem com rapidez tremenda e você é literalmente jogado no meio de uma situação sem pé nem cabeça, sem qualquer informação que te faça entender o que está acontecendo. Isso acontece também na série do Rick Riordan, Percy Jackson, só que existe um grande diferencial ali: o Riodan trabalha com uma mitologia que nos é conhecida, enquanto que o Nix, ao menos de princípio, nos confunde com um número sem-fim de referências que parecem familiares, mas você não consegue encaixar no quebra-cabeça.

A determinada altura, porém, já quando o Arthur entra na Casa, o ritmo frenético diminui um pouco e você começa a fazer as associações necessárias para começar a compreender a história... só que aquela impressão do começo não se afasta e acho que isso contaminou um pouco meu aproveitamento do livro.

Seja como for, no momento em que pude começar a fazer palavras cruzadas na história, fiquei feliz. Começando pelo protagonista, cujo nome "Arthur Penhaligon" é uma óbvia referência ao de Arthur Pendragon, o grande Rei Arthur da Távola Redonda.

Se a história se liga por seu protagonista ao ciclo de mitos arturianos, também faz uma série de referências diretas à mitologia judaico-cristã. Achei genial todo o uso do gênesis - os sete dias da criação (Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo descansou) como Curadores da Arquiteta (e é bom lembrar que Deus é visto como o Grande Arquiteto - o compasso nos símbolos maçônicos é uma mostra dessa ligação), cada um representando um dos sete pecados capitais (que não é bíblico, mas de Santo Agostinho...). E no meio disso, o Will, o nome do sapinho que faz as vezes de "Merlin" de conselheiro do Arthur - que pode ser literalmente traduzido como Vontade.

Isso tudo num mundo que em tudo lembra um grande centro burocrático, em que a palavra escrita é moeda de troca, símbolo de status, poder e magia, tudo ao mesmo tempo.

Aí você tem o Velho, preso no macabro relógio - e confesso que aquilo me deu calafrios - condenado a ter os olhos arrancados pelo lenhador e a camponesa que saem dele às 12 horas... e que antes eram abutres que comiam o fígado dele (oi, Prometeu). E também Suzy, que é uma das crianças seqüestradas pelo flautista (de Hamelin, para quem não se lembra do conto).

E, fechando tudo, como reflexo do desarranjo na Casa, a epidemia do sono - e o medo terrível que Arthur sente e que o propele a agir dessa epidemia; uma doença que o faz pensar em como ele mesmo perdeu os pais.

Acho que o grande problema de Sr. Segunda-Feira é a quantidade de sub-enredos e referências que se cruzam. Parece algo como o samba do crioulo doido, e você não sabe qual pista seguir, qual posição adotar. Não sei se é porque esse é o primeiro livro de uma série de sete, e o autor jogou nele um mundo de coisas que vai ir resolvendo nos outros volumes, mas acho que a história teria se beneficiado se ele tivesse escolhido usar essa primeira trama de uma forma mais enxuta e ir expandindo as coisas nos outros livros.

Não digo que o livro é ruim porque ele tem algumas muito boas sacadas. Mas podia ser melhor. A história, em si, tinha um enorme potencial apenas misturando a reflexão do mundo fantástico - A Casa - no mundo secundário - nosso mundo - através da epidemia do sono, que é um perigo e um medo bastante real. Focando só nessa linha narrativa, acho que a coisa teria saído bem melhor.

Seja como for, vou ler depois os livros seguintes para poder formar uma opinião mais fundamentada da série e do autor.



A Coruja


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