9 de março de 2011

Pelo Olimpo... e avante!



Grover murmurou:

— Bem Percy, o que aprendemos hoje?

— Que cães de 3 cabeças preferem bolas de borracha a pedaços de pau?

— Não — disse Grover — Aprendemos que seus planos são muito, muito ruins!

Rick Riordan – Percy Jackson e o Ladrão de Raios
Sou ré confessa: relutei muito por pré-julgamento – puro preconceito – em ler a série Percy Jackson e os Olimpianos. Aí quando o fiz, foram sete livros em cinco dias (contando aí Os Arquivos do Semideus e The Lost Hero, porque, sabe como é, não gosto de fazer nada pela metade...). Comecei por puro acaso – estava na livraria, o primeiro volume estava próximo ao meu braço, meu braço decidiu-se a pegá-lo, daí a pouco eu estava folheando e... é, deu para entender, né?


Se vocês se lembram, os primeiros volumes da série começaram a sair aqui no Brasil pela mesma época em que foi lançado o último volume de Harry Potter - e foi exatamente isso que me deixou com o pé atrás.

A coisa toda me cheirava a oportunismo. Vejam, o resumo da ópera jacksoniana é muito parecido com o resumo da ópera potteriana: garoto problemático (Harry/Percy) descobre que não é exatamente uma pessoa normal, e que possui poderes (bruxo/semideus), o que explica seu passado problemático e parentes apenas um degrau abaixo do Conde Olaf (os Dursley/Gabe Cheiroso). Introduzido num mundo novo paralelo que pessoas comuns não podem ver e onde aprende a dominar seus poderes (Hogwarts/Acampamento Meio-Sangue), ele ganha um amigo que serve de alívio cômico e se tornará um herói relutante – ou relutantemente herói (Ron/Groover), uma amiga que é o cérebro de todas as operações (Hermione/Anabeth), um mestre jedi (Dumbledore/Quíron), um professor sombrio de passado questionável cuja alegria é atormentar estudantes (Snape/Sr. D) e um arqui-rival cujo pai é um bullying (Draco-Lucius/Clarisse-Ares).

Claro, não podemos esquecer de uma profecia e vilões incompreendidos: tanto Voldemort quanto Cronos tiveram certos problemas familiares, tornando-se adultos carentes e explicando sua vontade de dominar e/ou destruir o mundo.

Já estabelecemos que sou uma cretina. Alguma novidade nesse front? Não? Então, continuemos...

Olhando à primeira vista, parece realmente que Riordan copiou descaradamente a tia Rowling. Mas, quando você começa efetivamente a ler, percebe que a coisa não é bem assim.

São muitas as semelhanças, mas a forma de desenvolvimento, os estilos, são totalmente diferentes. Não duvido, claro, que o sucesso potteriano tenha influenciado – nem que seja subconscientemente – a escolha dos protagonistas e a formação de um trio.

Riodan é bastante direto. Não é preciso ir muito além dos seus prólogos para perceber isso – em todos os cinco livros da coleção, não se perde tempo com preliminares ou se espera até que o leitor se ambiente: começamos logo com as explosões e riscos mortais – algo semelhante a ser jogado de um avião no meio de uma tourada... sem pára-quedas.

E ele consegue fazer isso sem te perder no processo. Pelo contrário, não sei se é o choque ou outra coisa, mas você acaba que imediatamente fisgado. Sem perceber – mas sem perceber mesmo - você vai correndo olhos por páginas e mais páginas, chega no final e diz ‘mas já acabou?’. Pode até não se descabelar para ler o volume seguinte – mas quando você se voltar para abri-lo, ele vai te fisgar da mesma forma.

Aconteceu comigo cinco vezes. Não, desculpe, sete. Não devemos esquecer dos extras...



Parte do mérito da série, obviamente, é do estilo do Riordan. Ele não te enrola ou cozinha em banho-maria no fogo baixo por páginas e páginas sem fio. De uma forma geral, tudo o que ele escreve é necessário à história, nada é supérfluo, nada está ali por acaso, porque se achou bonitinho ou coisa do tipo.

Outra parte, contudo – e uma boa parte – foi a escolha que ele fez de usar como base para seu mundo a mitologia grega, que é um dos conjuntos mitológicos mais ricos da História.

Leio sobre mitologia grega, muito literalmente, desde que me entendo por gente. Como sempre, cortesia do amigo Lobato, patrono de todo leitor infantil brasileiro. E, se não é, devia ser.

O caso é... conheço minha mitologia. E reconheci toda ela em Percy Jackson. Toda.

Riordan não pegou simplesmente a idéia do Olimpo e saiu correndo com ela debaixo do braço, moldando-a conforme sua comodidade à história que criou; ele moldou sua história em torno da mitologia.

E, vamos convir que respeito às ‘fontes primevas’ não tem sido muito o forte dos escritores de nossa geração, não é mesmo? Não que isso seja de todo ruim, mas há certas releituras que... *calafrios*

Mas, enfim... a forma como Riordan construiu seu mundo em torno da cultura grega é admirável. Ele usou muito bem toda essa riqueza ao adaptá-la para o mundo moderno. Aliás, a identificação do Olimpo com a Civilização Ocidental, como uma personificação daquilo que entendemos como Civilização Ocidental foi, verdadeiramente, um golpe de gênio.

A série tem suas fraquezas, é claro – a principal sendo a maldição do comparativo potteriano. Harry Potter estará sempre fazendo nuvens de tempestade no horizonte de Percy Jackson. Em termos de criação, desenvolvimento e complexidade temática, a saga de Rowling é muito mais ambiciosa.

Não esqueçamos, porém, que quanto maior a altura, maior a queda. Tenho minhas ressalvas ao final de Relíquias da Morte. Riordan, por outro lado, se não me deu comichões, pesadelos e ataques de ansiedade, em nenhum momento me desapontou.

Num mundo em que continuações são planejadas única e exclusivamente para produzir mais dividendos, sem preocupação com lógica ou coerência, essa é uma grande qualidade.

Antes que digam, aviso logo que o fato de ter superado meu preconceito com o Percy não significa que vou abrir minha mente e começar a ler auto-ajuda... ou Paulo Coelho. O primeiro que sugerir isso terá a cabeça cortada.

E o senhor, tio Riordan... o senhor me deixou curiosa. Quero vê-lo em ação numa história original. E voltada para um público mais maduro também. Em outras palavras... Tres Navarres, aí vou eu!



A Coruja


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2 comentários:

  1. E aqui começa minha campanha junto a todos os santos padroeiros dos blogueiros mequetrefes aka eu mesma para um dia quem sabe eu consiga escrever assim... Fala sério Lu! Pra que isso? Pra quê? Tu disse tudo que eu penso sobre a série e foi além, fez um texto delicioso, divertido e ainda deixa bem claro para os incautos que isso não significa que PC e autoajuda terão passagem livre. Te elevei ao posto de minha "ÍDALA" KKKKKKKKKKKKK
    estrelinhas coloridas...

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  2. Acho que a semelhança com HP é realmente um dos poucos problemas com a série de Riordan. Adorei sua resenha, você escreve muito bem :D
    Mas, se eu entendi direito, você leu The lost hero em menos de um dia? Como assim, aquele livro É MUITO GROSSO!!
    beijos

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