6 de junho de 2011

Desafio Literário 2011: Junho - Peças Teatrais || Henrique IV




REI HENRIQUE — Muito embora ainda pálido e abalado pelas preocupações, achamos tempo para deixar que a Paz aterrorada e arquejante nos fale em termos curtos de outras lutas em plagas bem remotas. As fauces ressecadas deste solo não mais os lábios tingirão com o sangue dos próprios filhos, nem a guerra os campos cortará com trincheiras ou as flores esmagará com os cascos inimigos. Os olhos incendiados, quais meteoros em turvo céu, só de uma natureza todos eles, de uma única substância, até há pouco travados em contendas internas e hecatombes fratricidas, marcharão ora em filas harmoniosas por um mesmo caminho, sem mais luta contra amigos, aliados e parentes. A guerra, como faca em bainha velha, não mais o dono há de ferir. Por isso. amigos, até ao túmulo de Cristo — de quem soldados somos, obrigados a lutar sob a cruz sempre bendita — levaremos guerreiros da Inglaterra, de braços conformados na mãe-pátria para os pagãos vencer dos campos sacros onde os pés abençoados assentaram, e onde, há quatorze séculos, na amarga cruz, para nosso bem, foram cravados.

William Shakespeare – Henrique IV - Parte I

É óbvio e ululante que no mês das peças de teatro no Desafio Literário 2011, eu não poderia me furtar a ler o bardo. Ao final das contas, não foi apenas sorte que elevou o nome de Shakespeare a um dos cânones da literatura ocidental – o primeiro na literatura inglesa.

Confesso, contudo, que foi um pouco complicado selecionar uma obra para o desafio. Primeiro porque já li a maior parte das peças mais conhecidas (e mais fáceis de achar traduzidas) – um dos meus projetos de vida é ler todas as peças dele antes de morrer. Segundo porque as obras menos famosas só foram traduzidas em edições de luxo tipo “Teatro Completo” e eu ainda não quero abrir processo de falência, especialmente quando já tenho mais da metade das peças do dito volume em edições de bolso com traduções primorosas. Terceiro porque a outra alternativa seria ler Shakespeare em inglês e por mais fluente que se possa ler, não sou uma grande fã de arqueologia literária.

Mas isso não seria um desafio se não encontrássemos um ou outro obstáculo pelo caminho, não é verdade?

De forma que acabei escolhendo o algo obscuro Henrique IV – Parte I, que é o primo pobre do maravilhoso, espetacular, salve, salve Henrique V. Dos dramas históricos de Shakespeare, como sempre me senti dividida entre o garboso Henrique V e o detestável e corcunda Ricardo III, parecia-me bastante justo escolher alguma coisa que viesse por entre esses.

O rei de Henrique V aparece como príncipe Hal nas duas partes de Henrique IV, sempre seguido por Falstaff, que é o personagem favorito do crítico Harold Bloom, que é, até onde eu saiba, o maior especialista vivo em Shakespeare.

No final das contas, uma leitura se transformou em quatro – li o Henrique IV – Parte I, depois o Henrique IV – Parte II, reli Henrique V complementando o tempo todo com Shakespeare: a Invenção do Humano, do Bloom. Destarte, não tenho muita certeza de para onde estou indo com essa resenha, exceto que vou acabar falando de tudo um pouco aqui...

Claro que tudo isso só foi possível graças a algumas edições muito antigas que quase me mataram de alergia, encontradas na biblioteca da UNICAP.

Bendita seja aquela biblioteca.

Nas duas partes do Henrique IV temos uma Inglaterra convulsionada, cercada de conflitos por todos os lados. Há a França, claro, porque por esses tempos, Inglaterra e França estavam sempre em guerra. Do outro estão os escoceses, que também passaram boa parte da Idade Média às turras com os vizinhos ingleses. E, para completar, uma guerra civil no coração da corte, onde os inimigos do Rei o acusam de ter usurpado o trono.

E assim, o Rei Henrique IV passa boa parte da ação tentando manter a coroa na cabeça – e a cabeça no pescoço – isolando-se de todos os seus aliados até que eles lhe levantem armas abertamente, ao mesmo tempo em que tenta controlar um Estado dividido por facções feudais e o príncipe Hal, herdeiro do trono sempre às voltas com confusões.

Os companheiros do príncipe são bêbados e arruaceiros e Hal não hesita em juntar-se a eles mesmo em seus planos mais torpes, como em assaltar os próprios homens do rei. No final das contas, Hal tem uma curiosa filosofia em que, exatamente por se portar de maneira tão vergonhosa naquele momento, quando ele assumisse suas responsabilidade e direitos, seria muito mais admirado – uma vez que o povo tinha todas aquelas faltas com que comparar seu agora exemplar comportamento.
PRÍNCIPE — Eu vos conheço, e quero, por um tempo, prestar-me ao vosso humor vadio e infrene. Com isso, imitarei o sol radioso que consente que nuvens desprezíveis, ante o mundo, a beleza lhe atenuem, porque, quando lhe apraz ser ele próprio, faça o anelo crescer a admiração, ao cortar ele as brumas e vapores que pareciam prestes a asfixiá-lo. Se o ano todo só fosse de feriados, como o trabalho, o esporte entediaria; mas, porque não freqüentes, são bem-vindos. Os acidentes raros sempre agradam. Assim, mal eu me dispa desta vida desregrada que levo, e me disponha a pagar até mesmo o que não devo, serei tanto melhor do que prometo, quanto mais enganar a expectativa do mundo inteiro. Como metal brilhante em fundo escuro, há de minha reforma sobre os erros resplandecer, mostrando-se mais bela de ver e mais atraente, que a virtude cujo brilho nenhum contraste exalta. Serei assim, pelo erro convertido, quando todos me derem por perdido.

E ele tinha razão. Henrique IV é ao mesmo tempo a história do declínio de um rei e da ascensão de outro rei. Enquanto Henrique IV definha, fustigado pela idade, por sua própria consciência, pelas guerras sem fim que tem de travar para assegurar seu poder, o príncipe Hal cresce aos poucos como um indivíduo não apenas valoroso: ele será mais que um rei, mas um verdadeiro líder. O discurso que ele faz antes da grande batalha de Azincourt em Henrique V é um dos grandes solilóquios de Shakespeare e uma de suas peças mais incrivelmente inspiradoras.
HENRIQUE V- Quem é este que deseja tal coisa? Meu primo Westmorland. Não, meu iluminado primo. Se estamos marcados para morrer, somos perda suficiente para o nosso país. Se marcados para viver, quanto menos homens, maior fração de glória competirá cada um. Pelo amor de Deus, eu lhe peço, não deseje nem um único homem a mais. Por Júpiter, não tenho ganância de ouro, nem me importa quantos comem às minhas custas. Não me entristece ver outro homem vestindo meus trajes. Essas coisas exteriores não habitam os meus desejos. Mas, se for pecado ter ganância de honra, sou a alma mais pecadora aqui neste mundo dos vivos. Não, meu primo, por minha fé, não peça por nem mais um homem da Inglaterra. Por Deus, não quero repartir com mais ninguém tão grande de honra, pois tenho grandes esperanças. Ah, primo, não queiras um único inglês a mais! Em vez disso, anuncie o seguinte: o homem que não tiver estômago para este combate está livre para partir. Seu salvo-conduto será confeccionado, e serão depositadas coroas francesas em sua bolsa para custear a passagem. Não queremos morrer na companhia desse homem que teme ter a sua pessoa morrendo conosco. Hoje é dia de São Crispino. Aquele que sobreviver ao dia de hoje e voltar para casa são e salvo ficará de ouvidos em pé sempre que este dia for mencionado e vai inflamar-se só de ouvir falar em São Crispino. Aquele que testemunhar o dia de hoje e viver até a velhice presenteará seus vizinhos todos os anos com um banquete, sempre na véspera, e dirá “Amanhã é dia de São Crispino”. Então ele vai arregaçar as mangas e mostrar os ferimentos e dizer: “Estas cicatrizes são herança do dia de São Crispino”. Os velhos se esquecem e, mesmo que ele tenha se esquecido de tudo, lembrará, contando vantagem, dos feitos que perpetrou naquele dia. Teremos então que os nossos nomes, na boca deste senhor idoso, tão comuns quanto as palavras que ele usa no dia-a-dia, serão pronunciados: o Rei Henrique, Bedford e Exeter, Warwick e Talboth, Salisbury e Gloucester, e serão todos lembrados uma vez mais, nos brindes de suas taças transbordantes. Esta história o bom homem há de ensinar ao filho, e não se passará um único dia de Crispino Crispiano, de hoje, até quando o mundo acabar, sem que sejamos lembrados. Nós, estes poucos; nós, um punhado de sortudos; nós, um bando de irmãos… pois quem derrama o seu sangue junto comigo passa a ser meu irmão. Pode ser homem de condição humilde; o dia de hoje fará dele um nobre. E os nobres que ficaram na Inglaterra, que estão agora em suas camas, irmão julgar-se amaldiçoados porque não estavam aqui e vão se considerar homens de menor virilidade sempre que ouvirem falar aquele que lutou conosco no dia de São Crispino.

Sou parcial ao príncipe Hal; sempre serei. Eu o seguiria para a guerra depois de um discurso desses. Bloom, contudo, tem como a maravilha das maravilhas o companheiro dissoluto do príncipe, Falstaff.

Ok, algumas coisas para se falar sobre Bloom, considerando inclusive outras obras que já li dele. Em primeiro lugar, para ele, é Deus no céu e Shakespeare na terra. Ou talvez seja Shakespeare no céu e na terra, porque a verdade é que o mundo de Bloom gira todo em torno do bardo.

A certa altura de Como e Porque Ler eu estava às gargalhadas, porque ele não conseguia passar uma única página do livro sem falar de Shakespeare e sem comparar todo mundo a Shakespeare. Homero, Dante, Virgílio, James Joyce, Jane Austen, Walt Whitman, Dostoievski e mais um sem número de grandes autores são analisados e de alguma forma comparados a Shakespeare, comparação esta da qual sempre saem perdendo.

Era rir ou chorar. Ele é realmente, realmente obsessivo. O caso é que depois de ler um livro em que ele falava de outros autores para compará-los àquele que ele chama de cânone máximo ocidental, fiquei curiosa para vê-lo falando num livro que se devotava única e exclusivamente a louvar o gênio do bardo.

A despeito da obsessão meio-quase-doentia do Bloom, Shakespeare: a Invenção do Humano é um grande livro (também no sentido literal da palavra). E, no final das contas, quem sou eu para falar de obsessões quando fico falando do Pratchett para cima e para baixo como tenho feito?

Há muitas coisas em que concordo com o Bloom – e que desenvolvi no especial Os Babacas de Shakespeare (em três atos), publicado mês passado – e outras tantas em que discordo.

Falstaff, por exemplo, é uma delas. Não gosto do Falstaff, não importa quão geniais sejam seus turnos de frase. Para mim, ao longo da leitura de Henrique IV, tudo o que vi foi um parasita, um interesseiro, alguém que se aproveita das vantagens de se estar ao lado do príncipe herdeiro e que já planeja a longo prazo para quando este for rei.

Mas, enfim... recomendo a leitura – recomendo especialmente que se leia as três peças em seqüência, pois assim você tem uma visão muito melhor de ações e conseqüências de cada um dos grandes personagens dessa história.

Só cuidado para não confundir tantos Henriques...

Nota: 4
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Henrique IV in Teatro Completo - Dramas Históricos
Autor: William Shakespeare
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Editora: Agir
Ano: 2009
Número de páginas: 720



A Coruja


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4 comentários:

  1. Acho que o bardo vai brilhar esse mês no desafio hehehehe... eu escolhi ele também, já adorei o que li e agora com teu texto fiquei com vontade de me enrolar com esses Henriques hehehehehe...
    estrelinhas coloridas...

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  2. Gostaria de um pequeno esclarecimento: de onde você tirou as citações do corpo de sua resenha?
    Ao que me consta, a tradução de Carlos Alberto Nunes é versificada, e os trechos que você mostra são em prosa. De quem é a tradução das citações?

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  3. Elaphar, li a tradução do Carlos Alberto Nunes na biblioteca; quando escrevi a resenha, não estava com ele à mão, de forma que acabei optando por pesquisar os trechos que tinham me chamado a atenção pelo Google. Fui atrás de "solilóquios de Shakespeare" para ver se encontrava o discurso de Azincourt e saí feito doida atrás de alguma tradução do início de Henrique IV para poder postar.

    Desculpe a confusão... Normalmente posto na ficha de leitura a edição que li, que nem sempre é a mesma de onde tiro a citação (especialmente quando leio em inglês e encontro uma citação em português para postar). Espero ter tirado sua dúvida.

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  4. Pôxa, agora me arrependi de não ter escolhido Shakespeare...Farei um percurso extra-DL.

    Beijocas

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