11 de julho de 2010

Lobos em pele de Cordeiro – Parte I


Estava sentada na praça de alimentação no shopping, fazendo hora antes de as lojas abrirem, quando sentou-se à mesa defronte a minha um lobisomem.

Bem, se fosse nos velhos e bons tempos da Inquisição (...), ele certamente seria considerado um lobisomem e julgado como tal. A parte superior direita do rosto dele parecia uma continuação do couro cabeludo, formando uma estranha moldura para seu olho.

A princípio, eu pensei que era uma queimadura e tentei desesperadamente olhar para qualquer outro lugar que não fosse o homem. Tenho absoluta certeza de que ele não deve gostar de ser encarado – eu, pelo menos, não gostaria – mas aquilo estava ali, pedindo para que eu olhasse, estudasse, analisasse.

Eu imagino que ele sofra de hipertricose, uma condição genética ligada ao cromossomo X, que provoca justamente o crescimento de pêlos espessos em partes do corpo que não deveriam ter esse tipo de cobertura. Aliás, eu também imagino que muitos dos sentenciados que terminaram nas fogueiras da caça aos lobisomens (contemporânea da caça às bruxas) sofressem da mesma condição.

Em todo caso, eu encarei tal fato como um sinal da “Mão do Destino” de que a Raven tanto fala para começar a escrever essa série de artigos. Afinal, eu estou devendo os danados dos lobisomens ao André desde... não lembro agora, mas já deve fazer um bocado de tempo.

E como eu tento sempre cumprir o que prometo – e por conseqüência acabo me metendo em enrascadas como as que me vi envolvida mês passado – tal sinal me fez decidir subir esse item da minha lista no nível de prioridades.

Ou talvez esse seja apenas uma desculpa para alimentar meus instintos masoquistas que me fazem arrancar os cabelos e choramingar “tudo eu, tudo eu, tudo eu” enquanto arranjo uma nova pilha de coisas a fazer no minuto seguinte.

Tentar encontrar a origem do mito do homem lobo é mais ou menos como procurar o elo perdido – e como não sou arqueóloga, posso apenas tecer conjecturas.

Talvez eu deva começar hoje observando que como nossos amigos vampiros, os lobisomens também são arquétipos, podendo ser encontrados por todo o mundo onde existam lobos – e onde eles não existem, outros animais carnívoros aparecem para que humanos possam se transformar.

Em várias culturas – especialmente naquelas cujo sustento depende da caça – o lobo é uma figura totêmica, sagrada. Ele é um espírito protetor e até mesmo condutor das almas após a morte.

Os lobos não são animais propriamente sanguinários. São carnívoros, verdade, e têm umas presas de meter medo; mas não esqueçam que o chihuahua de hoje foi o lobo de ontem e que, se você encontrar um lobo solitário por aí, é muito mais provável que ele fuja de você em vez de atacá-lo... a não ser, claro, que você decida provocá-lo.

Afinal, aquelas presas não são só para enfeite, né?

Eles são animais admiráveis, os lobos. Vivem em sociedade, são apegados à família e monógamos – o que é mais do que se pode dizer de muito humano por aí. Talvez vocês se lembrem aqui do clássico sessão da tarde O Feitiço de Áquila, onde o casal principal é transformado por uma maldição – ele em lobo, ela em falcão e se explica que ambos os animais só têm um companheiro durante a vida toda.

Então, é, os lobos são legais e são também espíritos protetores da floresta. O que fazem essas sociedades caçadoras? Elas têm um xamã, capaz de ingressar no mundo dos espíritos, onde atrai o espírito do lobo a fim de favorecer a tribo nas caçadas, assumindo seus poderes e incorporando-o.

Não vamos esquecer, claro, que esses xamãs estariam vestidos a caráter para tal missão, cobertos por pele de lobo. Eis aí uma boa explicação lógica para a origem do mito lupino.

Com o advento da agricultura e da criação de animais, bem como o avanço do processo civilizatório, aos poucos, o lobo deixa de ser visto como essa figura protetora, que empresta sua força aos guias espirituais, para se tornar uma ameaça aos rebanhos e, por tabela, aos homens. Eles são rivais na busca pelo alimento.

Ainda assim, a figura do lobo – e, por conseqüência, do homem lobo – não é vista como maligna. Basta observar a mitologia da antigüidade para percebê-lo.

Por volta de 2000 a. C., na epopéia de Gilgamesh, herói sumeriano e uma das inspirações do Noé bíblico, a deusa Ishtar (que preside as relações bélicas e amorosas) transforma um de seus amantes, que fora um pastor de ovelhas, em lobo – um dos motivos pelos quais ele declina a oferta.
Listen to me while I tell the tale of your lovers. There was Tammuz, the lover of your youth, for him you decreed wailing, year after year. You loved the many-coloured roller, but still you struck and broke his wing [...] You have loved the lion tremendous in strength: seven pits you dug for him, and seven. You have loved the stallion magnificent in battle, and for him you decreed the whip and spur and a thong [...] You have loved the shepherd of the flock; he made meal-cake for you day after day, he killed kids for your sake. You struck and turned him into a wolf; now his own herd-boys chase him away, his own hounds worry his flanks.
Não contando pinturas rupestres em cavernas por todo o mundo, essa é considerada a referência mais antiga a lobos-homens ou homens-lobos.

A mitologia grega está repleta de exemplos de deuses e homens tomando formas de animais – especialmente nas histórias que envolvem as puladas de cerca de Zeus. Uma dessas histórias envolve o rei Licãao, da Arcádia.

A história começa com o estupro de Calisto, filha de Licãao, por Zeus. Calisto fazia parte do cortejo da deusa Ártemis, que exigia castidade de suas companheiras e, quando a deusa caçadora descobriu o que acontecera, transformou Calisto em ursa e açulou sua matilha para matá-la. Outra versão diz que Hera descobriu que Calisto estava grávida de seu marido e, para proteger à princesa, Zeus a teria transformado em ursa. Independente da versão, Calisto acaba por se transformar na constelação da Ursa Maior.

O filho de Calisto com Zeus chamava-se Arcas. Numa das muitas outras versões do mito, Zeus teria visitado, incógnito, Licãao na Arcádia e este, suspeitando que seu convidado era um imortal, decidiu servir-lhe um prato especial: o próprio neto (que então se transformaria na constelação de Urso Menor).

Bem, não importa muito qual seja a versão da história que você prefira, o caso é que Licãao – segundo a versão mais conhecida, n’As Metarmofoses de Ovídio – serviu carne humana a Zeus que o castigou transformando-o num lobo. Para sorte de Licãao, contudo, desde que ele se abstivesse de comer carne humana, no nono ano após sua transformação, ele voltaria a ser homem.

É dessa lenda que se cunhou o termo licantropia.

A transformação em lobo não se revela apenas como castigo divino nessas mitologias. Dois exemplos me vêm de imediato em contrapartida a Licãao. Primeiro, Leto, ou Latona, outra das amantes de Zeus (pois é...) que para fugir da perseguição de Hera, teria fugido para o país dos Hiperbórios, onde deu a luz a gêmeos: Ártemis, a deusa da lua e das caçadas; Apolo, deus do sol e das artes.

Aliás, é a essa versão do mito que Apolo recebeu o epíteto “Licógenes”, que significa nascido da loba.

Depois, temos a deusa romana Luperca ou Lupa, a esposa de Lupercus, que transformou-se em loba para poder cuidar dos gêmeos que mais tarde fundariam a grande cidade de Roma – Rômulo e Remo, claro.

Mas aí veio a Igreja Católica e a Idade Média e a figura do homem lobo tornou-se mais que um pobre coitado atrás de redenção ou um bom espírito protetor. Então começa a trilha sonora ao fundo: burn, baby, burn.

(Continua...)


A Coruja


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3 comentários:

  1. Nome: Guilherme Hector Stradivarius
    Ano: 6º Ano
    Forma Animaga: Lobo
    Blog: Penetras em Hogwarts

    Meu personagem é um Licantropo ou só os lobisomens tem lincantropia?

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  2. LOBISOMENS!!!! =DDDDDDD
    Valeu, Lu!
    Vou acelerar a lista de filmes e o conto, pra te mandar antes do final das matérias dos lobisomens!

    ^^

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  3. Bem, Diego, pelo folclore clássico, seria um licantropo, porque, basicamente, todo aquele capaz de tomar uma forma animal acaba por caber dentro da essência de licantropia (como você verá pelos próximos artigos...). Só que seu personagem não faz parte do folclore tradicional, mas sim da mitologia de Harry Potter e, como tal, é um animago, não um lobisomem.

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