29 de julho de 2010

Clube do Livro (Julho) - O Dia do Curinga



Vivemos nossas vidas num incrível mundo de aventuras, pensei. Apesar disso, a grande maioria das pessoas considera tudo isso "normal". Em compensação, vivem em busca de algo fora do normal: anjos ou então marcianos, E isso se explica pelo simples fato de que elas não consideram um enigma o mundo em que vivem. Para mim a coisa era completamente diferente. Para mim, o mundo era um sonho muito estranho, e eu vivia em busca de uma explicação racional qualquer para esse sonho.

Jostein Gaarder - O dia do Curinga


A história começou mais ou menos assim: a Dynha, a Belle e outra amiga delas foram à Bienal do Livro em Belo Horizonte e em algum momento da história, chegaram à conclusão de que seria legal criar um clube de leitura.

Por motivos vários que não me cabe aqui explicar, elas chegaram à conclusão de que para fazer o tal clube, precisavam falar comigo. E foi assim que no espaço de duas semanas, montamos o bendito.

Fizemos um fórum fechado (somos um clube muito privativo...), organizamos a lista de pessoa que gostaríamos que participassem, mandamos os convites e começamos, em junho - aproveitando que eu estava no mês Jane Austen - com um debate sobre Persuasão, que resultou em um bocado de pesquisa histórica, discussões sobre a sociedade da época, o estilo de escrita da autora e pelo menos duas resenhas publicadas, uma da Gabi e outra da Dynha, além da minha própria análise aqui no Coruja.

Terminado junho, era hora de discutir que tipo de livro iríamos ler em julho. A idéia do clube é a seguinte: a cada mês, estabelecemos um tema, quem quiser indica um título naquele tema e depois a gente faz uma votação para escolher oficialmente o livro do mês.

O tema de julho, considerando ser este tempo de férias, foi viagens. Entre os muitos indicados, acabou-se por escolher O dia do Curinga, de Jostein Gaarder... e eis que chegamos aqui.

Tão logo comecei a ler O dia do curinga, percebi que teria de adotar o mesmo sistema de quando li O Mundo de Sofia: peguei um bloco de post-it, saí cortando pedacinhos das partes com cola e à medida que ia lendo, saía pregando nas páginas em que sublinhei alguma coisa (de lápis) para depois poder voltar a elas. Para completar, anotava todas as pistas num bloquinho de papel.

Sim, porque Gaarder sempre te dá um monte de pistas, te embaralha toda a cabeça e só responde as duas centenas de perguntas que vai jogando para ti no final do livro - isso se ele responde; afinal, isso é filosofia e você tem de ter também suas próprias respostas.

Eu gosto um bocado do Jostein Gaarder. Embora ele nem sempre seja de todo claro, ele nos estimula a pensar, a sentar e digerir por alguns instantes o que ele escreve. Não é - ao menos para mim - o tipo de livro que dá para ler numa única sentada (embora nem seja tão grande) e falo isso como um elogio.

Eu parei para fazer reflexões e tomar algumas decisões muito importantes à medida que ia lendo. Há várias passagens especialmente marcantes no livro e ele me deixou realmente balançada. É engraçado como, às vezes, um livro é capaz de fazer isso com você...

Há uma série de questões importantes que o autor nos coloca através do protagonista. Eu chamo a atenção para a "maldição da família", como o pai de Hans-Thomas fala, ou a herança do pecado original. Esse me parece ser um tema recorrente também na história - é algo que Hans-Thomas tem em comum com a história do livrinho; como seu pai pagou por um delito que não era o seu, da mesma forma que Albert.
Nem minha avó nem meu pai quiseram perdoar o que tinha acontecido em Froland. Não os julgo por isso. A única coisa que podemos criticar é a medida e a extensão do castigo pelo que aconteceu. Uma questão interessante, por exemplo, é saber por quantas gerações se estende a pena por um delito. É claro que minha avó teve sua parcela de culpa na gravidez, coisa que, aliás, nunca contestou. Um pouco mais difícil, a meu ver, é saber se também é correto punir o filho.

Outro ponto também é a fascinação do pai com a idéia da existência... o pai de Hans-Thomas tem um olhar muito bonito, uma coisa assim... eu não sei exatamente como explicar... acho que é a consciência de ser humano e do mundo, do milagre que é ser um bípede relativamente inteligente caminhando por um mundo cheio de maravilhas - é um olhar sobre o mundo que o cinismo do cotidiano às vezes nos faz perder. Um olhar ingênuo, inocente - não no sentido de inexperiência, mas num sentido otimista e quase espiritual.

Ele parece dizer "Que maravilha sermos humanos, estarmos vivos nessa época, nesse mundo, capazes de desfrutar de tantas coisas, de tudo o que nos é oferecido por essa pequena esfrea navegando por um universo de estrelas e galáxias". Agora me vem a cabeça uma citação de Hamlet que, acho, é perfeita para definir o que estou tentando dizer aqui:
Que obra de arte é o homem: tão nobre no raciocínio; tão vário na capacidade; em forma e movimento, tão preciso e admirável, na ação é como um anjo; no entendimento é como um Deus; a beleza do mundo, o exemplo dos animais.

Essa é uma visão bastante renascentista - na verdade, desde O Mundo de Sofia eu sempre penso em Gaarder como um típico homem do Renascimento, um humanista enfim.

Mas, ao mesmo tempo em que exalta essa visão de ser humano, constantemente em assombro de si mesmo, os personagens de O dia do Curinga parecem estar completamente perdidos. Não é só a mãe de Hans-Thomas, mas todo mundo. Acho que o único personagem que tem mais ou menos segurança de si mesmo é o Hans-Thomas, que, à época da história é apenas uma criança.

A leitura desse livro ergueu uma série de debates interessantes entre os membros do clube, como a questão da religião, da forma como enxergamos o mundo e do nosso lugar nele. Foi um saldo bastante positivo, especialmente porque eu ainda não tinha lido esse título.

Acabou que ele entrou na minha lista de favoritos - aliás, pelo que percebi dos comentários do pessoal, entrou nos favoritos de quase todo mundo... E sei quando for relê-lo, vou sentir a mesma ânsia, a mesma admiração, o mesmo frêmito de expectativa a cada página virada...

Livro mais que indicado, pessoal! Leiam ele com cuidado e carinho; vocês não irão se arrepender. E d~eem uma passada no Broken Hearts and Torn Up Letters se quiserem ver a opinião da Dynha também sobre o assunto XD

O clube está ampliando sua margem de ação...


A Coruja


____________________________________

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog