4 de janeiro de 2010

Zumbis: fazendo a autópsia - Parte I


Os zumbis estão contidos no mesmo arquétipo dos vampiros e dos ghouls - mortos que voltam do túmulo, alimentando-se dos vivos, trazendo morte e terror onde quer que apareçam. A idéia que temos deles, contudo, não é milenar e tampouco forma um padrão mundial.

Na verdade, embora vários autores conhecidos tenham trabalhado com personagens ou monstros que possuem as características com que definimos hoje os zumbis, o mito é não apenas relativamente recente como bastante localizado - ele nasce na cultura afro-caribenha; especificamente, no Haiti.

Talvez o fundo do mito venha de mais longe - se formos pelas semânticas, e pesquisarmos primeira a origem da palavra, acabamos por nos reportar até a Índia e ao Congo - na primeira, temos a expressão jumbi, que significa 'fantasma' e, no país africano, temos nzambi, que significa o 'espírito de uma pessoa morta'.

O certo, contudo, é que a origem folclórica dessas criaturas tem suas raízes no Haiti - há inúmeros relatos de pesquisadores remetendo-se a contos de mortos trazidos de volta ao mundo dos vivos por feiticeiros vudus - bokor e mantidos sob o controle deles - eram, pois, criados, guardiães e escravos perfeitos, não necessitando de água ou comida, não questionando ordens, incapazes de sentir dor ou medo, além de serem facilmente substituíveis.

Aliás, uma curiosidade... havia, no Código Penal Haitiano, por volta do século XIX, um artigo que classificava a administração de substância que criasse um prolongado período de letargia sem causar morte como tentativa de homicídio. E se a substância causasse aparência de morte, resultando no enterro da vítima, então, o crime era de homicídio.

Há qualquer coisa aí a ecoar zumbis, não?

Existiram, inclusive, alguns estudos sérios acerca da possibilidade de que esses "feitiços" feitos pelos sacerdotes vudus fossem uma mistura de venenos que não traria mortos de volta à vida, mas sim, colocaria os vivos sob o controle daqueles.

O 'Projeto Zumbi' - um estudo conduzido no Haiti entre 1982 e 1984, teria se fundamentado em um caso real de zumbificação. Em 1980, um homem numa das vilas rurais haitianas alegou ser Clairvius Narcisse, que teria morrido em Maio de 1962. De acordo com o... zumbi Narcisse, ele estaria consciente durante sua "morte", embora paralisado - ele se lembrava inclusive do médico cobrindo sua face com um cobertor ao ser declarado morto. Após ter morrido, um bokor o teria ressucitado e o transformado em zumbi.

Uma vez que o hospital tinha os documentos referentes à doença e morte do indivíduo, cientistas o encararam como uma prova real da existência dos zumbis haitianos, até porque a própria família do homem o reconheceu.

Eu poderia dizer aqui que existia uma grande possibilidade de Narcisse sofrer de narcolepsia ou coisa do tipo... mas como ele voltou quase 20 anos após sua morte, fica difícil aplicar essa específica teoria...

Considerando que Narcisse não foi imediatamente desmembrado ou algo do tipo por seus pares, acredito que possamos afirmar com razoável certeza que ele não reapareceu com o corpo decrépito e putrefato, em já bastante acelerado processo de decomposição (será que teria sobrado alguma coisa depois de 20 anos?), o que significa que a imagem física do zumbi haitiano não seria exatamente a mesma que temos hoje na cultura pop. Mas voltaremos a isso depois...

O caso é que, após os relatos dele, o antropologista e etnobotanista Dr. Wade Davis conduziu uma série de estudos e pesquisas no país, tentando descobrir o quê, exatamente, estaria por trás dos zumbis haitianos.

A idéia era que haveria uma substância, uma droga, responsável pela experiência de Narcisse como zumbi. No campo médico, uma droga desse tipo certamente revolucionaria a medicina, em especial para a área de anestesia.

O que Davis descobriu no folclore local é que o bokor capturaria parte da alma do indivíduo para transformá-lo num zumbi e, embora as pessoas não relatassem a existência de qualquer poção ou substância administrada pelo feiticeiro para tanto, o bom doutor descubriu que havia, sim, complexas misturas, feitas de plantas e animais, nos rituais dos bokor.

Ele coletou essas misturas em dferentes regiões do Haiti e, embora essas amostras não fossem totalmente iguais, pelo menos quatro ingredientes se repetiram na maior parte delas.

Então, anote aí o que você precisará para fazer seu próprio zumbi:

1. restos humanos
2. uma ou mais espécies de baiacu (peixe que produz uma neurotoxina mortal, chamado tetradotoxina - TTX)
3. sapo cururu (Bufo marinus), o qual produz inúmeras substâncias tóxicas
4. um sapo de hyla (Osteopilus dominicensis), o qual também produz substâncias tóxicas... mas não necessariamente mortais

Embora a tetradotoxina explique uma série de "sintomas" da zumbificação tal como descrita por Narcissus - essa substância provoca a paralisia da vítima, mas a mantém consciente enquanto ela morre ou lhe dá uma aparência de morte (talvez a substância que o padre dá a Julieta em Romeu e Julieta tenha TTX na fórmula...) - a teoria de Davis de que ela seria a responsável pela criação de zumbis não foi aceita pela comunidade científica - afinal, ela não explicava o controle exercido sobre a vontade do zumbi por parte do bokor.

Além disso, pesquisando mais a fundo dos muitos casos relatos de verdadeiros zumbis, o que se descobriu foram casos de identidades trocadas e de problemas de saúde mental.

Davis não conseguiu explicar os furos em sua teoria e assim, os zumbis haitianos foram deixados para a seara dos folcloristas em vez dos cientistas...

Não demoraria muito, porém, para que os zumbis passassem de lendas rurais à cultura pop e até a movimentos sociais...

(Continua...)



A Coruja


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2 comentários:

  1. Credo.

    Tem um filme do bela Lugosi chamado White Zombie em que fazendeiros inescrupulosos usam zombies como "trabalhadores" justamente por serem altamente econômicos.

    Boa vertente para o Direito do Trabalho. Já imaginou, uma CLT post mortem? XD

    Beijocas, aguardando a segunda parte!

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  2. Sim, sim, eu conheço White Zombie... citei no artigo seguinte o Bela Lugosi por sinal...

    Sabe que você teve uma idéia interessante, Régis? CLT para os de cujus... hehehe...

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