16 de novembro de 2017

O Homem do Castelo Alto: arte, espionagem e realidades alternativas

O homem não devorou Deus; Deus devorou o homem.

O que não compreendem é a impotência do homem. Eu sou fraco, pequeno, sem a menor importância diante do universo. Não sou notado dentro dele; vivo sem ser visto. Mas por que isso é ruim? Não é melhor assim? Os deuses destroem quem atrai a atenção deles. Seja pequeno… e escape à inveja dos grandes.
Considerado por muitos a obra-prima de Philip K. Dick, O Homem do Castelo Alto estava na minha lista há mais tempo do que consigo me lembrar e finalmente tive a oportunidade de lê-lo esse ano, após ele ter sido indicado para debate no Clube do Livro. Comecei a leitura repleta de expectativas, crente que sabia exatamente o que iria acontecer - uma realidade alternativa em que as forças do Eixo tinham ganho a Segunda Guerra, com a narrativa acontecendo num Estados Unidos dividido entre Japão e Alemanha, parecia-me óbvio que eu estaria em breve no meio de uma resistência de bravos americanos, prestes a encabeçar uma revolução e assim salvar o mundo dos nazistas (olá, Indiana Jones! Opa, não, filme errado...).

Não demorou muito para perceber que eu poderia esperar tudo de O Homem do Castelo Alto... exceto pelo óbvio.

Há três enredos paralelos, cujos personagens por vezes se cruzam, mas que são, em si, histórias totalmente independentes. O primeiro, que era o mais próximo do que eu esperava do livro, envolve espionagem, mas não com um grupo de resistência americano: o führer morreu, a Alemanha precisa de um novo líder e os nazistas se dividiram em facções, uma das quais tenta estabelecer diálogo com os japoneses. É através de Tagomi, um gerente comercial de uma grande empresa em São Francisco que acaba se envolvendo nessas intrigas que acompanhamos essa parte. O segundo envolve um americano judeu, Frank Frink que esconde sua identidade e começa trabalhando com falsificações para então se revelar um artista criando semi-jóias. O terceiro tem a ver com a ex-mulher do artista, Juliana, um italiano num bar de beira de estrada e o autor de um livro contando a história do que teria acontecido se os Aliados tivessem vencido a Segunda Guerra. Tudo isso interligado por várias perguntas ao I Ching, o oráculo chinês, e com vários personagens que podem ser o homem do castelo alto ao qual o título faz referência - de Tagomi, no topo do prédio de sua empresa, aos líderes nazistas cuja hierarquia se divide em ‘castelos’, ao autor do livro dentro do livro.

É difícil resumir esse enredo sem comprometer o prazer de ir descobrindo aos poucos como todos esses pontos convergem. Parte da graça do livro vem justamente do fato de você ser incapaz de adivinhar o que vem a seguir, de sentir o impacto de cada uma das revelações que vão acontecendo. Outro ponto que me chamou a atenção foi com a derrota e a ocupação foi normalizada pelos americanos. De forma geral, não há preocupação em julgar moralmente o que está acontecendo no mundo - a perseguição e extermínio de judeus; a escravidão de negros e, nas entrelinhas, a obliteração do próprio continente africano; uma sociedade de exceção, rigidamente estratificada pela raça. As coisas simplesmente são.

Talvez haja rincões de rebeldes em meio ao território livre que sobrou dos Estados Unidos, mas os personagens que nos são apresentados estão, de uma forma geral, acomodados com o novo status quo, internalizando sua raiva e até admirando as engrenagens que fazem a sociedade nazista girar com tanta eficiência. Ironicamente, são os japoneses e facções do partido nazista (e como revira o estômago perceber que o grupo mais intolerante e extremista é o que dá mais segurança ao resto do mundo...) que se rebelam contra a situação que se desenrola ao longo da história.

PKD te faz caminhar por uma miríade de reflexões, sobre poder, corrupção e política, do papel da arte e do artista na sociedade, a questões de identidade e o que seja a própria realidade. Ele te dá nó na cabeça e vai muito mais fundo do que você espera e é isso que o torna tão interessante. As constantes mudanças de pontos de vista é feita de forma magistral, embora nem todo mundo vá se sentir confortável com o estilo fragmentário que decorre delas - se não prestar atenção no que está lendo, vai acabar ficando bastante confuso. Na minha opinião, contudo, é um esforço que vale à pena. O Homem do Castelo Alto é um desafio de interpretação, repleto de surpresas, com um final aberto que quase te faz perder o sono - mas quando você começa a digerir e compreender como tudo aquilo se encaixa, é algo fascinante, sui generis.

Eu ainda estou digerindo. Talvez, numa segunda leitura, as coisas comecem a fazer mais sentido... Enquanto isso, nos percamos em elucubrações filosóficas...

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: O Homem do Castelo Alto
Autor: Philip K. Dick
Tradução: Fábio Fernandes
Editora: Aleph
Ano: 2009

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A Coruja


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