23 de março de 2017

As voltas e reviravoltas do Labirinto

"Afinal (…), a vida é uma espécie de labirinto, com todas as suas voltas e reviravoltas, seus caminhos retos e seus becos sem saída."
Para além de reprises ad infinitum de A Lagoa Azul, a Sessão da Tarde apresentou-me a alguns dos meus filmes favoritos - histórias que ainda hoje me são caras e próximas do coração, não importa quanto tempo se tenha passado. Já adulta, descobri que alguns deles eram inspirados em livros - A História sem Fim, e A Princesa Prometida, por exemplo. Outros fizeram o caminho contrário das telas para os livros, como a novelização de O Feitiço de Áquila e Labirinto, de que falaremos hoje.

A estrutura de Labirinto é bem próxima de um conto de fadas clássico. Sarah, nossa protagonista, começa a história como uma adolescente cuja mãe largou a família para se dedicar ao teatro e tem de lidar com as regras impostas por uma ‘madrasta má’. A ela é dada uma ‘instrução’, que nesse tipo de conto costuma ser uma proibição, mas aqui é uma responsabilidade: cuidar de seu irmão caçula, Toby. Toby, por sua vez, representa para Sarah um grilhão e também um usurpador; ele está ali para obrigá-la a aceitar as obrigações do mundo adulto e também para roubar sua infância - às vezes de forma literal, como no caso do brinquedo favorito dela. Considerando que nossa heroína está ela mesma no limiar entre infância e idade adulta - e que ela anseia pelo glamour que vislumbra do outro lado ao mesmo tempo em que se apega desesperadamente aos objetos que representam o conforto de sua velha vida -, não é uma surpresa que Sarah enxergue Toby como um inimigo.

Assim é que Sarah viola as regras: em vez de cuidar do irmão caçula, ela deseja que o rei dos duendes venha e carregue Toby para longe. Jareth então aparece e de fato leva Toby e Sarah, ao se confrontar com a realidade de perder o irmão, imediatamente se dispõe a resgatá-lo, ainda que para isso tenha de enfrentar o labirinto e suas armadilhas. Pelo caminho, ela vai fazendo aliados e amigos, superando todos os obstáculos que Jareth joga em seu caminho, incluindo a tentação de realizar todos os seus desejos, até o momento do confronto final.

Como todo bom conto de fadas, Labirinto é rico em simbologias e se presta a muitas interpretações. Do ponto de vista psicológico, o labirinto - que é todo construído de referências que encontramos no quarto de Sarah - é seu subconsciente e a jornada até o castelo é também uma jornada interior de Sarah para conseguir se desprender das amarras da infância, da imaturidade e egoísmo que até então a caracterizam, para a vida adulta. E não o mundo adulto de máscaras representado no baile com Jareth, mas o mundo real, no qual ela aceita das responsabilidades e lida com a verdade do abandono da mãe. Responsabilidade aqui não significa abrir mão de seus sonhos, mas aceitar essas mudanças, aceitar que a madrasta e Toby não têm culpa e que a resposta para a perda da mãe talvez não seja emular o mesmo comportamento. Aceitar suas culpas e fazer seu melhor para se redimir.


Parte desse amadurecimento é também sexual. O filme é repleto de símbolos fálicos e é fato conhecido que as calças justíssimas de David Bowie estavam lá propositalmente para chamar a atenção para sua virilha. A escolha do ator para viver Jareth tinha como condição desde o início que fosse ele uma estrela do rock, alguém que se encaixasse no papel de fantasia, que servisse como instrumento de despertar sexual - Terry Jones disse numa entrevista sobre os bastidores do filme que quando Jim Henson o contatou para trabalhar no roteiro, o diretor pensava em procurar David Bowie ou Michael Jackson para o papel de rei dos duendes (alguém consegue imaginar Michael Jackson como Jareth? Porque eu não consigo...). Jareth é obcecado por Sarah, seguindo-a como uma coruja antes e depois de ela enfrentar o labirinto. Esse enfrentamento é também um jogo - um jogo que Jareth já jogou antes, vez que é dito que Toby se transformará num dos duendes se Sarah perder e é razoável imaginar que os outros duendes do castelo foram adquiridos da mesma maneira. Ele é um vilão, mas é também o príncipe encantado. Cavaleiro galante e Heathcliff. É, a diferentes tempos, autoritário, arrogante, ingênuo, sedutor e infantil: a imagem das expectativas de Sarah.
"Sarah - cuidado. Tenho sido generoso até agora, mas posso ser cruel."

"Generoso!" A garota deu mais um passo adiante. "O que é que você fez que foi tão generoso?"

"Tudo. Fiz tudo o que você quis." Ele recuou de um passo, voltando à sombra do arco. "Você pediu que a criança fosse levada. Eu a levei. Você se acovardou diante de mim. Eu fui assustador. [...] Reorganizei o tempo. Virei o mundo de cabeça para baixo. [...] E fiz tudo isso por
você. Estou cansado de satisfazer suas expectativas. Isso não é ser generoso?"
Essa questão é particularmente importante no grande baile, no momento após Jareth tentar forçar um beijo, quando Sarah não consegue aceitar o próprio desejo, sentindo-se culpada pelo que acaba de acontecer. Por mais que o debate sobre culpa, desejo, inocência e moralidade possa encher de brios sensibilidades modernas, o fato é que a contrição de Sarah é decorrente de sua desorientação e é algo compreensível. Ela está confusa, mais que qualquer outra coisa e o exemplo da mãe não ajuda. Sabemos que a mãe de Sarah abandonou a família para seguir carreira no teatro e, aparentemente, viver uma grande paixão ao lado do ator com quem contracena. Se, por um lado, possa ser admirável a coragem da mulher em tomar as rédeas da própria vida, por outro, não sabemos como a coisa aconteceu. Minha impressão, inclusive pela forma como a própria Sarah se comporta, é que a mãe é uma pessoa impulsiva, que se deixou arrebatar pela paixão e largou tudo sem pensar nas consequências; egoísta e mimada como uma adolescente. Se tudo no labirinto é uma representação do subconsciente de Sarah, então o glamour, o brilho e a lascívia da cena do baile (o que são aquelas máscaras…) são um reflexo do que ela enxerga na vida da mãe e que ela deseja, mas também teme, ainda não completamente pronta para lidar com a própria sexualidade.


Aliás, é interessante que o baile derive da mordida no pêssego, que, em inglês, é ‘passion fruit’ - literalmente, fruta da paixão (embora, originalmente, os jesuítas tenham nominado o maracujá dessa maneira por sua flor ser parecida com uma cruz, o que os fazia pensar na paixão de Cristo). Não é uma maçã, mas o paralelo bíblico é bastante óbvio até na reação: Adão e Eva comem do fruto da árvore do conhecimento, tomam consciência pela primeira vez da própria nudez (e, por tabela, do sexo) e se envergonham. Sarah, antes do baile, é inocente, algo representado inclusive pelas suas vestes brancas, mas a inocência aqui não é identificada como pureza, mas sim ignorância - ignorância, sobretudo de si mesma. Ao dançar com Jareth, Sarah percebe sua sexualidade pela primeira vez e isso significa confusão, incerteza, curiosidade e, claro, desejo.


O labirinto, como símbolo, está ligado a muitas dessas questões: ele é renascimento, iniciação e amadurecimento, um exercício de auto-conhecimento. É mais fácil compreender essa simbologia quando pensamos que em inglês existe uma diferenciação entre labyrinth - que costuma assumir um formato em espiral e não possui becos sem saída, mas linhas que vão nos forçando a seguir um caminho - e maze, que também pode ser traduzido como embaraço e confusão e tem por propósito ser um desafio intelectual e estratégico.

Ao baile segue a cena do lixão, que é também emblemática dessa jornada: Sarah, quase esmagada pelos objetos que fazem parte da sua meninice, e dos quais ela se recusa a se desprender. Como já falei antes, Sarah está no limiar entre infância e maturidade, curiosa e amedrontada pelo que enxerga como mundo adulto (o baile), apegando-se àquilo que conhece para tentar fugir da responsabilidade de suas escolhas. Ela reclama que nada é justo, que tudo aquilo é impossível, mas não desiste, não se submete e segue escolhendo e isso, isso é muito importante.

Tudo o que acontece na história acontece pelas escolhas de Sarah. Ela decide que quer se livrar de Toby, ela decide que quer resgatar o irmão, ela decide atravessar o labirinto e ela decide não se submeter a Jareth ainda que Jareth lhe ofereça um simulacro de tudo aquilo que ela crê desejar. Sarah escolhe e, aos poucos, aceita também a responsabilidade de suas escolhas. Esse é o ponto em que Sarah quebra a regra dos contos de fadas e subverte o gênero: as princesas daquelas histórias são passivas e nunca têm realmente poder de decisão sobre o que lhes acontece, muitas vezes adormecidas no momento em que todo o seu futuro é decidido, ao passo que Sarah triunfa quando encara Jareth e lhe diz Minha vontade é tão forte quanto a sua e meu reino é tão grande quanto o seu. Você não tem poder sobre mim.


Considerando o fato de que Sarah está entrando na adolescência, um momento tão confuso da vida que parece até que a jogaram num labirinto (!!), um período em que as meninas em particular ficam bem fragilizadas - e podem se tornar presa fácil de pressões externas - Sarah não abaixa a cabeça. Ela não se intimida, mesmo que na maior parte das vezes em que se encontra com Jareth, ele esteja numa posição de poder. E isso a torna uma personagem icônica, uma protagonista feminina a se respeitar e emular, ainda que ela comece a história sendo bastante irritante.

Sarah cresce. Vence o labirinto e derrota o rei dos duendes. Resgata Toby. Volta para casa e começa a guardar seus brinquedos, e então olha para o espelho e encontra os amigos que fez naquele outro mundo. E descobre que tudo bem ela se apegar às lembranças de sua infância, que está tudo bem se alguns dias ela precisar do conforto de seus brinquedos e de suas fantasias, porque crescer não significa abrir mão por completo dos seus sonhos.

A novelização é extremamente fiel ao roteiro original, adicionando um pouco mais do pensamento dos personagens - introspecção que nem sempre funciona bem na tela, mas é feita sob medida para o papel. A edição da Darkside é belíssima, repleta de extras, como a galeria de imagens de Brian Froud, com artes conceituais para o filme e o diário de criação do Jim Henson, diretor do filme - um livro que dá gosto de ter na estante.

Labirinto, enfim, é o tipo de história que quanto mais vezes você retorna a ela, mais ela tem a te dizer e revelar. Não me lembro exatamente de quando assisti o filme pela primeira vez, mas fato é que todas as vezes em que ele passava na Sessão da Tarde, eu o revia - e ele nunca deixou de ser menos encantador pela repetição. E se à época eu não tinha as ferramentas necessárias para destrinchá-lo e entender por completo porque ele funcionava tão bem, voltando a ele adulta e dissecando-o da forma como fiz aqui, ele assim não perde o fascínio. É uma história que faz parte do meu próprio crescimento e memória afetiva e isso, mais que qualquer estudo de símbolos, é o que importa no final.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Labirinto
Autor: Jim Henson, A.C.H. Smith
Tradução: Giovana Louise
Ilustrações: Brian Froud
Editora: Darkside
Ano: 2016


A Coruja


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