31 de julho de 2016

1 Ano, 365 Contos - Julho


Alguém postou no twitter por esses dias que você sabe que é adulto quando julho não é mais sinônimo de férias. Eu me identifiquei com essa frase - o trânsito anda mais tranquilo, chegar no pilates de manhã não é mais um exercício de paciência (eles ficam atrás de uma escola…) e enquanto todo mundo viaja, eu estou trabalhando.

Isso também significa que o trabalho de quem está de férias empilhou na minha mesa e um mês que eu achava que seria razoavelmente tranquilo se transformou de novo num pesadelo.

Felizmente, em setembro terei mais quinze dias de férias para respirar e colocar a cabeça no lugar de novo. Enquanto isso, torturo-me com prazos que não estou conseguindo cumprir sozinha…

Mas, hei, embora esteja terminando de escrever o projeto dos contos em cima da hora, o importante é que consegui me manter dentro do cronograma! Yay para mim! E agora, vamos ao nosso diário...

1 Ano, 365 Contos: Julho

Dia 01 – 15h54
Vanka de Anton Tchékhov. Lido na coletânea A Dama do Cachorrinho e outras histórias. 5 páginas, 4 min.

Essa história me fez pensar em A Pequena Vendedora de Fósforos - não tanto pelo final fatal, mas pela posição de desamparo do narrador e seu apego a uma ilusão.

No caso do pequeno Vanka, que escreve a carta para o avô implorando para que ele o resgate de sua posição como aprendiz de sapateiro em Moscou, é a ilusão de que apenas com o nome do homem, sua carta chegará ao devido destino e então tudo ficará bem.

O que me impressionou no conto não foi tanto a situação algo melodramática do narrador, mas as sensações que as palavras me passavam. Ler esse conto me deixou, por um breve instante, na pele de Vanka, sentindo o frio, pensando laboriosamente nas palavras que precisava escrever, apegando-se à esperança de um resgate. Não há uma abundância de adjetivos, mas a descrição é suficientemente vívida para que possamos nos enxergar naquele lugar.

Impressionou-me...

Dia 02 – 21h04
Vérotchka de Anton Tchékhov. Lido na coletânea A Dama do Cachorrinho e outras histórias. 15 páginas, 9 min.

Estou ficando meio perdida em meio aos nomes e sobrenomes russos. Seja como for… essa é uma história sobre despedidas, memórias e declarações de amor e sobre como reagimos quando temos um afeto inesperadamente revelado (eu me identifiquei com o narrador…).

De novo, como Tchékhov consegue nos colocar ali na estradinha, seguindo com o casal enquanto eles refletem cada um seus anseios e medos… É uma imagem tão perfeita que cria na mente da gente que parece até que realmente conhecemos aquele lugar...

Dia 03 – 07h55
Zínotchka de Anton Tchékhov. Lido na coletânea A Dama do Cachorrinho e outras histórias. 7 páginas, 6 min.

Do primeiro amor, a gente nunca esquece… e do primeiro ódio?

Vou dizer que dei risadas com essa história, com o garoto se metendo onde não era chamado, chantageando a governanta e o irmão até fazer a pobre moça odiá-lo… É uma perspectiva interessante, quebra a idéia de romance. Nunca tinha pensado para pensar em histórias de primeiro ódio… Vou refletir mais sobre isso cá com meus botões...

Dia 04 – 08h08
A Irrequietade Anton Tchékhov. Lido na coletânea A Dama do Cachorrinho e outras histórias. 29 páginas, 17 min.

Hoje é o aniversário de 76 anos de papai. Mais tarde vai ter bolo (e devo dizer que D. Mãe se superou no bolo dessa vez… ficou lindo!), mas não posso dizer que haja muita animação por aqui hoje, considerando que meu tio morreu há exatamente um mês…

Bem, a vida continua, e temos que celebrar o fato - sem esquecer daqueles que amamos. E enquanto não é hora de bolo, vamos ao conto do dia.

A Irrequieta é uma história sobre aparências, fama e adultério, especialmente triste pela incapacidade da esposa, Olga, de reconhecer o valor do marido, um médico e cientista, em contraste com a vida glamourosa dos artistas de que ela se rodeia. Em vez disso, ela se deixa levar pelo desejo de ser também uma celebridade - nos dias modernos, não acho que ela ficaria totalmente deslocada num reality show, ainda que sua preocupação primeira seja a arte (embora eu tenha minhas dúvidas se a verdade não seja a preocupação em parecer artística).

Dia 05 – 13h56
Anna no Pescoço de Anton Tchékhov. Lido na coletânea A Dama do Cachorrinho e outras histórias. 15 páginas, 12 min.

Uma jovem pobre, mas bela e encantadora, casa-se por dinheiro, na ilusão de assim poder auxiliar sua família. A princípio, Anna no Pescoço me fez pensar em um típico melodrama, mas então Anna nos surpreende, encontra seu chão e de bela ingênua logo descobre a real capacidade de sua beleza.

Ela não se desculpa e o conto não a julga, ainda que possa haver quem vá ver com maldade o fato de Anna terminar esnobando o pai bêbado, cujos vícios a levaram ao casamento por interesse. Sendo bastante sincera, eu não a culpo.

Dia 06 – 07h12
Iônytch de Anton Tchékhov. Lido na coletânea A Dama do Cachorrinho e outras histórias. 21 páginas, 12 min.

Essa história tem um médico de interior que primeiro se apaixona por uma moça extremamente prendada, é rechaçado e quando ela retorna querendo o amor (e o bolso) dele, ele percebe que na verdade escapou de uma boa e que as aparências de beleza e inteligência que ele via anates, escondiam na verdade pura mediocridade. Não que ele mesmo seja lá grande coisa, como se prova à medida que acompanhamos seu envelhecer.

Tchékhov não é um romântico, nem se preocupa em fazer julgamentos. Seus contos, especialmente esses últimos, são bem crus em seus retratos da sociedade. Não é um libelo naturalista, mas ele foge ao romantismo que eu achava que ia encontrar aqui.

Não sei porque eu esperava romantismo. Isso é o que dá começar a ler autores de forma aleatória sem saber nem quem eles são direito. Isso não é uma reclamação, apenas uma observação de como ainda podemos ser surpreendidos quando nos permitimos surpreender. Ou algo desse gênero.

Dia 07 – 14h40
A Dama do Cachorrinho de Anton Tchékhov. Lido na coletânea A Dama do Cachorrinho e outras histórias. 19 páginas, 13 min.

Esse livro está sendo um festival de adultérios sem pedidos de desculpa ou é só impressão minha?

A Dama do Cachorrinho começa quase romântico, e depois se revela bem triste em seu retrato amoroso. Amores que chegam ao fim e nada existe que se possa fazer além de estar preparado para tanto.

Dia 08 – 07h45
A Noiva de Anton Tchékhov. Lido na coletânea A Dama do Cachorrinho e outras histórias. 22 páginas, 13 min.

Terminando Tchékhov hoje. Não sei bem o que pensar sobre o autor - como comecei esse livro de maneira completamente aleatória (eu realmente não tinha nenhum motivo para começar a lê-lo, além do fato de ele estar entre os ebooks que eu tinha no tablet) e sem procurar saber muito sobre o autor - para além do fato de ele ser um dos mais famosos contistas russos, não tinha reais expectativas para ele.

Não acho que esse livro reúna o que ele escreveu de melhor - foi só da metade para o fim que realmente comecei a me envolver e me importar com os personagens - mas é um retrato interessante. Suas histórias usam o mecanismo do fluxo de consciência, que eu associava aos ingleses e em especial a Virginia Woolf (sério, essa ferramenta para mim sempre faz lembrar dela) e são bastante modernas.

Acho que meu estranhamento com Tchékhov é que minha ideia de literatura russa é o romantismo de Dostoiévsky e a imponente grandiosidade de Tolstói. E Tchékhov é moderno, e muito mais interessado em tratar das pequenas tragédias do cotidiano e escaramuçar o íntimo de suas criaturas.

É o que acontece nessa história, em que uma jovem é convencida pelo primo doente de que existe mais na vida que um bom casamento. Não sei se me sinto satisfeita ou não com a insensibilidade com que ela parece reagir no final, mas é sem dúvida algo diferente de tudo o que eu esperava.

Vou me reservar o direito de ler mais do Tchékhov antes de dar um parecer definitivo sobre o autor...

Dia 09 – 08h07
A Letter from the Clearys de Connie Willis. Lido na coletânea The Best of Connie Willis. 14 páginas, 16 min.

Por obra e graça do Enrique, que há anos me manda ler alguma coisa da Connie Willis, comecei essa antologia dos contos premiados da autora. E já de cara gostei do livro pelo fato de que após cada história há um adendo em que a autora explica um pouco da inspiração por trás de cada conto. É sempre bom dar uma olhada nos bastidores, conhecer o processo de criação e até ouvir sobre as rejeições - como no caso dessa específica narrativa.

A Letter from the Clearys começa com uma adolescente voltando para casa após uma visita ao Correio, com uma carta importante para seus pais; uma carta dos Clearys, família amiga da sua. É uma cena completamente normal, embora haja pequenas pistas de que nem tudo está tão bem quanto parece…

E então, quando a carta é lida… BINGO! Ela tira o tapete de debaixo dos seus pés.

Não conhecendo a Connie Willis, não sabia o que esperar dela - a única coisa que eu sabia é que o Enrique dizia que ela era muito engraçada e tinha alguma coisa a ver com viagens no tempo (o que não é o caso desse primeiro conto). Não tendo pesquisado nada previamente sobre a autora, embora saiba que ela é um dos gigantes do gênero fantasia e ficção científica, eu não tinha expectativas e isso me permitiu ser surpreendida.

A tragédia que está costurada escondida nesse conto imediatamente me lembrou de Bradbury e suas Crônicas Marcianas. Mas Connie Willis tem seu próprio estilo e voz - onde Bradbury é poético e intenso, ela consegue dar vida à jovem narradora que nos conta em primeira pessoa os seus passos, e nos enreda pouco a pouco com aparente ingenuidade, para então desfechar um golpe que nos deixa no chão.

Essa é só a primeira história do livro e já estou fascinada. O que mais virá por aí?

Dia 10 – 20h19
At the Rialto de Connie Willis. Lido na coletânea The Best of Connie Willis. 28 páginas, 24 min.

Estou dando risadas até agora com esse conto - na verdade, ri tanto que D. Mãe até veio aqui no quarto perguntar o que tinha acontecido de tão hilário.

A história segue as desventuras de uma cientista num simpósio sobre física quântica que está acontecendo num hotel em Los Angeles. O hotel Rialto, onde está hospedada, e onde está ocorrendo a conferência é um perfeito microcosmo do que seja a teoria do caos, o princípio da incerteza e, claro, a teoria do gato de Schrödinger.

É uma boa observação a ser fazer que embora a história trate muito de física quântica, não é necessário entender do assunto para que o conto funcione: os trocadilhos verbais e das situações em que vamos nos encontrando junto à narradora são mais que o suficiente para causar gargalhadas inconvenientes.

Dia 11 – 08h55
Death on the Nile de Connie Willis. Lido na coletânea The Best of Connie Willis. 12 páginas, 7 min.

Na hora em que olhei para o título dessa história, a primeira coisa que me perguntei foi “será que ele tem algo a ver com o romance da Agatha Christie?”. Macabramente, tinha. Digo macabro porque essa é uma história de terror e a narradora está lendo Morte no Nilo e há algumas referências a outras obras da autora.

Mas isso não é o mais interessante. O conto de Willis é um excelente terror psicológico - o medo aqui deriva da tensão, da incapacidade de diferenciar real e imaginário, da incerteza sobre o que realmente aconteceu. O fato de a história terminar em aberto só aumenta essa sensação.

Tenho a ligeira impressão de que Connie Willis se tornará uma das minhas autoras favoritas antes do fim do mês.

Dia 12 – 20h23
The Soul Selects Her Own Society de Connie Willis. Lido na coletânea The Best of Connie Willis. 11 páginas, 8 min.

O título desse conto é originalmente de um poema de Emily Dickinson - que é personagem dessa história. A idéia aqui é que dois novos poemas teriam sido descobertos, mas é quase impossível lê-los porque a caligrafia da autora é MUITO RUIM, então os estudiosos basicamente fazem tentativas de interpretar os quase hieróglifos, baseados no que sabem sobre a vida da autora.

A questão aqui é que os fatos narrados em A Guerra dos Mundos de H. G. Wells não são ficção, e sim absolutamente reais… E aí que a Emily - que a essa altura dos acontecimentos já tinha falecido - basicamente volta do túmulo e, sozinha, impede a invasão alienígena. Afinal, eles inventaram de pousar justo em cima do cemitério, e fizeram tanto barulho que era impossível descansar em paz.

Humor negro, ficção científica, personagens reais, ridículo e bizarro, tudo isso se junta de forma deliciosamente hilariante para compor o conto.

Dia 13 – 14h31
Fire Watch de Connie Willis. Lido na coletânea The Best of Connie Willis. 47 páginas, 49 min.

Pelo que entendi das explicações do Enrique, essa história faz parte do enredo maior pelo qual Connie Willis é mais conhecida, o universo de viajantes do tempo de Doomsday Book (que está previsto para ser lançado em português ainda esse ano e definitivamente vou ler) e To Say Nothing of the Dog.

Pelo que entendi, existe uma espécie de liga de historiadores viajantes do tempo e para se formar no grupo, é necessário passar por um teste em que o estudante é lançado em determinada época histórica para aprender algumas lições bem difíceis.

O narrador desse conto faz seu teste na Londres da época dos bombardeios alemães na Segunda Guerra Mundial, tornando-se parte do grupo que vigia e apaga os incêndios causados pelas bombas sobre a Catedral de St. Paul.

Achei fascinante a forma como a história é construída, como funcionam os Historiadores e tudo o que acontece com o narrador enquanto ele tenta compreender o que está acontecendo. Fantástica história.

Dia 14 – 15h40
Inside Job de Connie Willis. Lido na coletânea The Best of Connie Willis. 76 páginas, 1h 5 min.

Rob, proprietário da revista Jaundiced Eye, é um especialista em identificar charlatões entre os comerciantes do sobrenatural em Hollywood. Com a ajuda de Kildy, sua única e fantástica funcionária, vai investigar o caso da médium Ariaura que, aparentemente, anda tendo algumas interrupções em seu ato com Isis, sacerdote atlantiano - em vez disso, ela está sendo possuída por um espírito que, definitivamente, abomina todos esses truques para arrancar dinheiro dos crédulos.

Achei um conto ridiculamente divertido - na verdade, até o momento eu não li uma única história nesse livro que eu não tenha gostado muito. Connie Willis sabe construir muito bem suas claques, explorar clichês para então puxar o tapete de debaixo dos pés do leitor. Tenho que me controlar para já não começar a ler o próximo...

Dia 15 – 21h11
Even the Queen de Connie Willis. Lido na coletânea The Best of Connie Willis. 21 páginas, 21 min.

Eu quase rolei pra fora da cama de tanto rir dessa história. Temos aqui uma revolução feminista pelo fim da menstruação, graças a um remédio absolutamente milagroso - o que, aparentemente, resultou numa mudança de enormes proporções na sociedade (não é dito de forma explícita, mas considerando a predominância feminina e a forma como se fala nos homens no encontro do restaurante, essa foi a conclusão a que cheguei).

E aí temos a filha da narradora do conto, que se filiou a um grupo de feministas que se autointitula ciclistas e que prega o retorno ao estado natural: o retorno à menstruação, e às cólicas e a TPM, etc., etc, etc.

Esse talvez se torne meu conto favorito da antologia, porque é uma história com que posso me identificar inteiramente. Gostaria que o remédio referido na história existisse - essa era uma revolução da qual eu participaria com gosto.

Dia 16 – 20h38
The Winds of Marble Arch de Connie Willis. Lido na coletânea The Best of Connie Willis. 63 páginas, 44 min.

Voltei agorinha do passeio Catamarã Recife Assombrado e, ora vejam, não é que, de certa forma, o conto de hoje combinou com minha programação do dia? Tenho de dizer que me diverti muito com os fantasmas e as histórias narradas ao longo do passeio - um tour que combinou maravilhosamente com a noite de lua quase cheia e neblina.

Na história de Connie Willis, o narrador, passeando pelo sistema metroviário de Londres, sente os ventos do passado - o ar preso do período da Blitz, em que aquelas estações serviram de abrigo para as pessoas que fugiam dos bombardeios.

Fiquei com essa imagem na cabeça - a de sentir, por um momento, o cheiro das explosões, as sensações de pavor e desespero, como impressões que ficaram presas entre aquelas paredes e túneis.

Dia 17 – 20h47
All Seated on the Ground de Connie Willis. Lido na coletânea The Best of Connie Willis. 72 páginas, 1h 3 min.

Domingo de noite e eis mais uma história em que morri de rir… Aliens chegaram à terra, mas não se mostram capazes de se comunicar e apenas fazem uma expressão de profundo desagrado do tipo ‘desaprovo todas as suas escolhas de vida’. Um grupo de cientistas, incluindo Meg, a narradora, tenta encontrar formas de se comunicar com os aliens, mas nada parece fazer efeito até que, após uma visita ao shopping, com músicas de natal tocando ao fundo, os visitantes demonstram pela primeira vez alguma reação: todos eles sentam no chão ao mesmo tempo.

Uma história sobre aliens, natal e sobre coros musicais tem como não ser maravilhosa? Ah, você também acha que nada disso se encaixa? Então leia o conto da Connie Willis e prepare-se para ficar maravilhado.

Dia 18 – 22h51
The Last of the Winnebagos de Connie Willis. Lido na coletânea The Best of Connie Willis. 61 páginas, 56 min.

Último conto desse livro. Eu entraria em depressão, não fosse pelo fato de que tenho outro livro de contos da Willis já engatilhado para continuar com a autora a partir de amanhã.

De princípio, esse conto me deixou meio confusa… até eu entender qual era a necessidade da sociedade protetora e porque a morte de animais se tornou um crime tão grande. Não foi o meu favorito, mas mantém a qualidade geral do livro - que é, francamente, excelente. Excedeu todas as minhas expectativas.

Obrigada de novo, Enrique.

Dia 19 – 14h25
Blued Moon de Connie Willis. Lido na coletânea The Winds of Marble Arch and Other Stories. 35 páginas, 25 min.

Começando mais um livro da Connie Willis… Nem sei mais o que esperar dessa mulher - ela está constantemente brincando com as minhas expectativas e passeando por todos os gêneros possíveis, utilizando clichês da melhor forma possível.

Blued Moon é uma história sobre probabilidades e sobre coincidências. Sobre romance também e a capacidade de se fazer compreender através da fala. Sobre cretinos filhos da puta e sobre caras legais. E, claro, sobre a lua azul.

Gostei. Gostei de tudo no conto, dos personagens, às situações ridículas em que eles acabam se encontrando por causa do campo de coincidências, com direito a garotas caindo de árvores nos braços de seus heróis e a justa partida para os atos do ‘vilão’ da peça. Inteiramente e ridiculamente satisfatório.

Dia 20 - 07h15
Just Like the Ones We Used to Know de Connie Willis. Lido na coletânea The Winds of Marble Arch and Other Stories. 2 páginas, 2 min.

Uma tempestade de neve sem explicação avança pelo mundo - cobrindo de branco cidades que nunca antes experimentaram tal fenômeno. Aparentemente, todos teram um natal branco esse ano.

Just Like the Ones We Used to Know é uma história interessante porque, ao mesmo tempo em que ele é um conto ‘catástrofe climática’ - e é um ponto interessante ele ter entre seu elenco de personagens um cientista pressionando pela liberação de fundos para pesquisas sobre o aquecimento global - ele é uma narrativa sobre relacionamentos e os pequenos milagres que parecem acontecer na época do Natal.

É uma história de esperança, sobre cicatrizar as feridas causadas pela perda de pessoas queridas, sobre recomeços. São vários arcos com personagens bastante distintos, todos muito bem resolvidos ao final. Um dos melhores contos natalinos que já li.

Dia 21 - 06h19
Daisy, in the Sun de Connie Willis. Lido na coletânea The Winds of Marble Arch and Other Stories. 17 páginas, 9 min.

Cada conto da Connie Willis é como uma aula sobre narrativa, sobre como pegar um clichê e usá-lo de maneira inesperada, como jogar com as expectativas do leitor, que começa achando que já sabe exatamente qual vai ser o final e de repente não é nada do que ele estava esperando.

Nessa história, começamos com Daisy no trem, tentando entender o que aconteceu, como chegou ali, porque está sempre nevando do lado de fora e porque ela não consegue se lembrar de uma série de detalhes… e então, aos poucos, as lembranças vão surgindo, o dia em que o pai explicou que o sol iria explodir, se tornaria Nova e sobre como não havia nada que eles pudessem fazer…

Nada aqui é o que você espera que seja e é uma história bem mais sobre o amadurecimento e os medos de Daisy do que sobre a destruição do mundo. Talvez por isso mesmo seja tão interessante. Você não sabe como vai terminar, você só entende o que aconteceu à medida que a própria Daisy vai se lembrando.

Vamos ao próximo!

Dia 22 - 07h01
Newsletter de Connie Willis. Lido na coletânea The Winds of Marble Arch and Other Stories. 3 páginas, 1 min.

Mais uma história natalina com alienígenas. Fiquei pensando com meus botões o motivo para a Willis gostar tanto do tema e cheguei a seguinte conclusão: Natal é uma época em que vemos o melhor e o pior da humanidade e o fato de você inserir aliens no meio permite que enxerguemos novas facetas dessa realidade.

Claro que parasitas aliens debaixo de chapéus que se aproveitam do clima frio e nublado e transformam seus hospedeiros em pessoas mais gentis, pacientes e educadas é um conceito bastante curioso

Gostei muito desse conto - alguma surpresa? - e ele até me inspirou a pensar na possibilidade de enviar uma newsletter própria junto com os cartões de natal esse ano. Só preciso chegar a uma conclusão sobre que tipo de criatura vai interferir nas festividades esse ano...

Dia 23 - 11h10
Nonstop to Portales de Connie Willis. Lido na coletânea The Winds of Marble Arch and Other Stories. 15 páginas, 10 min.

Ficção científica, viagens no tempo, tour turístico através do tempo para visitar os locais marcantes da vida de um escritor de ficção científica.

Eu gostaria de fazer parte desse tour. Na verdade, eu gostaria de encontrar um tour igual a esse que fosse visitar Shakespeare ou mesmo Jane Austen. Ou Tolkien. E o Pratchett também.

Tem tantos autores que eu gostaria de colocar nessa lista...

Dia 24 - 08h11
Ado de Connie Willis. Lido na coletânea The Winds of Marble Arch and Other Stories. 16 páginas, 9 min.

Ontem citei Shakespeare como um dos autores que gostaria de visitar num tour turístico capaz de viajar no tempo e hoje, ora vejam, tem um conto sobre o bardo. Ou, mais especificamente, sobre como funciona a imbecilidade humana e a censura do politicamento correto, que termina por fazer de Hamlet uma peça com apenas meia dúzia de linhas - afinal, há um sem fim de associações de pais e protetores de todos os tipos para dizer que cada mínima cena daquelas pode influenciar negativamente o grande público.

Deu até uma dor no coração...

Dia 25 - 14h20
All my Darling Daughters de Connie Willis. Lido na coletânea The Winds of Marble Arch and Other Stories. 9 páginas, 7 min.

Acordei hoje com uma baita crise alérgica - não estou mais respirando, mas sim piando no peito tentando puxar ar para dentro…

Quanto ao conto do dia… Caramba, eu terminei essa história com o estômago revirado. Willis mete bem o dedo na ferida aqui. Fez-me pensar um pouco n’O Conto da Aia da Margaret Atwood.

Assédio, estupro, incesto - é uma história bem forte em suas implicações, especialmente pela forma como desumaniza as relações de parentesco com as ‘crianças de fundo trust’ - crianças geradas através de inseminação artificial, ‘encomendadas’ por um pai que deseja o legado, mas não o trabalho da criação, deixando assim seus filhos sob a administração de um time de advogados.

Um mundo bem complicado, sem dúvida alguma.

Dia 26 - 07h15
In the Late Cretaceous de Connie Willis. Lido na coletânea The Winds of Marble Arch and Other Stories. 14 páginas, 9 min.

Continuo respirando com certa dificuldade e acho que vou ter de entrar no antiinflamatório. Mas enquanto não vou ao médico, continuo por aqui, piando ao inspirar. Desconfio que o problema seja essas mudanças abruptas do tempo, em que uma hora faz sol, outra faz calor, e meu nariz e garganta é que sofrem…

Ah, sim, para completar, estou sem celular, sem internet em casa e sem telefone fixo. Viva a comunicação por sinal de fumaça! Vamos ver se hoje o técnico aparece em casa para resolver o imbróglio…

Esse foi um dos contos que achei menos graça até aqui. Não sei se porque tenho raiva de burocratas que inventam sua própria língua de doer nos ouvidos para parecerem mais inteligentes; se porque eu esperava que o departamento de palentologia declarasse uma revolução frente à necessidade de se justificar como relevante ou se me exaspero com o fato de que pelo menos os professores do departamento de palentologia dessa história são realmente fósseis sem muita relevância.

Provavelmente todas acima.

Dia 27 - 15h19
Service for the Burial of the Dead de Connie Willis. Lido na coletânea The Winds of Marble Arch and Other Stories. 18 páginas, 19 min.

Quando comecei a ler esse conto, pensei que seria algo parecido com um romance de regência - e os nomes Anne e Elliot, obviamente, fizeram-me pensar em Persuasão da Jane Austen. Mas, como de hábito, Willis puxa o nosso tapete e e usa nossas expectativas contra nós mesmos, para se revelar não num romance trágico, com direito a crimes e escândalos, mas numa história de fantasmas.

Dia 28 - 12h03
Inn de Connie Willis. Lido na coletânea The Winds of Marble Arch and Other Stories. 37 páginas, 25 min.

Mais uma história de natal, dessa vez com Maria e José errando uma perna do caminho para Belém e atravessando tempo e espaço para aparecer numa Igreja no nosso presente. E aí temos um twist muito interessante da parábola em que Jesus bate à sua porta como um mendigo, porque a religiosa responsável pela Igreja não quer sem-teto se abrigando por ali - mesmo que do lado de fora esteja com temperaturas abaixo de zero e não haja vagas nos abrigos por perto.

Irônico, não? Tristemente irônico para dizer a verdade...

Dia 29 - 14h19
Samaritan de Connie Willis. Lido na coletânea The Winds of Marble Arch and Other Stories. 18 páginas, 22 min.

Os orangotangos aprenderam a linguagem dos sinais e têm demonstrado uma marcante capacidade cognitiva e por isso, embora estejam extintos na natureza, o santuário que supostamente os protege também sai em busca de locais para empregá-los, como, por exemplo, a Igreja.

Eu pensei que ia ler alguma coisa do tipo Planeta dos Macacos quando comecei essa história, mas terminei por encontrar algo muito mais pungente sobre o que é ser humano, o que é ter fé e o que significa andar ereto sobre seus próprios pés. Forçar o batismo, aqui, é como querer forçar nossa civilização em quem tem sua própria cultura. Mas, ao mesmo tempo, esse batismo é um sinal de aceitação e a metáfora vai para bem além de humanos e macacos para os humanos e humanos de hoje em dia.

Terminei o conto me sentindo infinitamente triste pela forma como a história se relaciona com muito do que vejo no dia a dia… Inclusive pelo fanatismo religioso presente no background. O que é meio engraçado, considerando que tudo isso gira em torno do direito - ou mesmo da capacidade de consciência e escolha - de um animal. É uma forma interessante de explorar esse tipo de tema, algo que não me lembro de ter visto antes.

De todo mundo, continuo deprimida com esse final.

Dia 30 - 23h40
Cash Crop de Connie Willis. Lido na coletânea The Winds of Marble Arch and Other Stories. 20 páginas, 24 min.

Terminei hoje de assistir a segunda temporada de Gilmore Girls e me empanturrei de crepe e docinhos numa festa de aniversário da qual cheguei há pouco. A qualquer momento entrarei em coma causado pelo excesso de açúcar, mas não me arrependo de nada, exceto, talvez, por não ter trazido um pedaço da torta de palha italiana enfiada na bolsa.

Talvez pelo fato de estar tarde, eu estar com sono, e prestes a entrar em coma, não consegui entender muito bem o sentido dessa história. Ok, então temos uma família que aparentemente emigrou para um outro planeta em que há uma enorme incidências de vírus e bactérias para acabar com todo mundo que não tenha um específico código genético que o pai de nossa narradora parece estar pesquisando. As coisas ficam meio no ar, porque temos apenas o ponto de vista de Haze, a protagonista, e não muitos dados para compreender o que veio antes...

Dia 31 - 15h18
Jack de Connie Willis. Lido na coletânea The Winds of Marble Arch and Other Stories. 52 páginas, 51 min.

Não coloquei uma gota de álcool na boca e mesmo assim acordei hoje me sentindo como se estivesse de ressaca. Ressaca de açúcar? Bem, seja lá o que for, minha cabeça está me matando…

Jack retoma o tema dos bombardeios em Londres durante a Segunda Guerra… e, ao mesmo tempo, reconta o Drácula de Bram Stoker, mas num ponto de vista bem mais simpático ao vampiro. Gostei bastante do conto pela forma como ele consegue adaptar a história original, sendo, a um tempo, homenagem e algo novo em sua perspectiva, especialmente pelo papel que nosso vampiro tem ao longo da história.

Conclusões

Comecei esse mês terminando de ler o livro de contos do Tchékhov que iniciei mês passado. Não sei se meu problema com ele é o fato de não estar numa fase particularmente propícia para ler autores realistas ou se peguei uma seleção de contos que não o mostrava em sua melhor forma - o fato é que as histórias dele me deixaram com um sentimento de desesperança e melancolia.

Aí comecei a ler os dois volumes de contos da Connie Willis que um amigo me mandou e, caramba, foi como redescobrir o mundo. Ficção científica não costuma ser meu forte, embora haja alguns autores do gênero que são meus queridinhos. E, no entanto… no entanto, dentro desse projeto dos contos, estou descobrindo um monte de escritores que são uma verdadeira aula em como escrever uma boa história curta - e todos eles são de ficção científica.

O que li da Willis esse mês foi o suficiente para fazer eu me apaixonar e me dar a certeza de que lerei mais dela em breve (na verdade, ainda tem mais alguns contos do segundo livro para terminar em agosto). Eu tagarelei sobre ela em todo canto que podia e agora quero convencer todo mundo (como o Enrique me convenceu) a lê-la também.

Enquanto isso não acontece, vamos aos números desse mês.

Contos: 213/365
Páginas: 4.641 (915 lidas esse mês)
Tempo: 56 horas e 38 minutos (13h 43min de leitura esse mês)

Agosto termino a Willis e… não tenho bem certeza ainda com quem continuarei. Bem, há tempo ainda para decidir...


A Coruja


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