19 de maio de 2015

Wonderland – Parte III: A Casa do Espelho

“Quando eu uso uma palavra”, disse Humpty Dumpty num tom bastante desdenhoso, “ela significa exatamente o que quero que ela signifique: nem mais nem menos.”

“A questão é”, disse Alice, “se
pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes.”

“A questão”, disse Humpty Dumpty, “é saber quem vai mandar – só isto.”
Embora os dois volumes de Alice sejam normalmente classificados como literatura infantil, a verdade é que ambos – com especial ênfase em Através do Espelho – possuem um verniz filosófico e um requinte linguístico que os tornam leitura bem mais madura.

Não que com isso eles percam o apelo junto ao público original. A imagística de Alice, seus coloridos absurdos, suas peculiares criaturas, suas esdrúxulas situações, apelam para tudo aquilo que fascina os pequenos.

O que existe aqui são diferentes níveis de compreensão captadas – há uma miríade de interpretações possíveis conforme os interesses e inclinações do leitor, e, por isso, existem várias diferentes Alices andando por aí na cabeça das pessoas.

É possível enxergar referências à Guerra das Rosas, críticas à política e a presença dominadora da Rainha Vitória, existencialismo, darwinismo, questões de gênero, religião, drogas e teorias da conspiração de sua preferência. Considerando a bidimensionalidade da maioria dos personagens, é fácil enxergá-los como alegorias e encaixá-los em qualquer simbologia que se queira.

O leitor ideal dos livros, contudo, é aquele que conhece o contexto da cultura vitoriana (o verdadeiro leitor ideal seria um vitoriano, mas, por motivos óbvios, eles não estão mais disponíveis... ). Sei que disse antes que as aventuras de Alice transcendem limites de tempo e espaço, e é perfeitamente possível aproveitar a sua leitura sem conhecer esse tipo de detalhe. Mas, ao mesmo tempo, ao acrescentar essas pequenas nuances à nossa compreensão do texto, ele ganha em sabor e argúcia.

Saber que a expressão “sorrir como um gato Cheshire” tem como possível origem queijos da região de Cheshire, que eram moldados na forma de rostos de gatos sorridentes, nos rende o surreal e hilariante paradoxo de um gato de queijo comido por um rato que é comido pelo gato – o tipo de lógica e humor bem ao gosto de Carroll. Ou reconhecer na irada Rainha de Copas o “cortem as cabeças” do Ricardo III de Shakespeare.


A prosa dos livros aparenta ser bem simples, com frases curtas e sem arroubos de sintaxe, mas seu estilo não é, nem de longe, simplório. Boa parte do humor das histórias se baseia em problemas de comunicação entre os personagens, decorrentes de brincadeiras linguísticas, trocadilhos e palavras homófonas – algo que, por melhor que seja a tradução, acaba por se perder no processo.

Ísis: Já ia perguntar sobre isso, mas você respondeu... ^^’’

Carroll parodia cantigas de ninar, e cria novas palavras, e nos rodeia e dá nós em nossas cabeças com astutas observações e elegantes turnos de frase. Ele nos coloca dentro de jogos de xadrez onde cada movimento corresponde a uma aventura e nos força a enxergar reflexos e contrários no espelho. Ele nos propõe paradoxos, enigmas e quebra-cabeças. Você nunca sabe o que virá a seguir, e essa imprevisibilidade é, também, parte do que torna sua obra tão deliciosa.

Não é à toa que Carroll é um favorito entre cientistas e matemáticos, gente que trabalha com lógica, tendo sido leitura formativa de muitos deles – tanto que há mais de uma teoria sobre matemática e física quântica que se inspira em situações descritas em Alice.

Ísis: Peraí! HEIN?!?!?!

Lulu: Pois é... li sobre teorias do caos que são inspiradas em Alice... que tal pra ti?

Sendo muito sincera, não fosse o fascínio desses adultos, talvez Alice tivesse se perdido nos anais da história vez que sensibilidades modernas politicamente corretas costumam encarar o País das Maravilhas e o Outro Lado do Espelho não como espaços de sonho, mas sim de macabro pesadelo.

Sério, gente, quem cresceu assistindo Pernalonga acha perfeitamente aceitável o sadismo e o humor negro de Carroll. Crianças acham graça nisso e mais cedo ou mais tarde elas precisam ser confrontadas com a noção de que suas ações podem machucá-las, ou mesmo levá-las à morte. Por isso, é bastante razoável que Alice procure por um aviso de veneno nas garrafinhas que encontra mandando bebê-las (mas não tão razoável que ela decida fazê-lo sem saber qual a origem do misterioso líquido...).

Depois de tudo isso, o que podemos dizer que seja a real essência de Alice? O que devemos levar em consideração ao nos defrontar com as palavras escritas por um tímido matemático para sua jovem companheira mais de cem anos atrás?

Eu poderia extrair muitas lições da obra de Carroll e falar sobre suas interpretações metafísicas ou políticas, dizer que tudo é uma metáfora da reforma religiosa anglicana, comparar a queda pela toca do Coelho com a entrada de Dante no Inferno em A Divina Comédia (uma das interpretações mais interessantes que encontrei em minhas leituras, por sinal), ou falar do Jardim que Alice busca como uma alegoria do Jardim do Éden, ou, ainda, enumerar as instâncias em que Carroll parece querer dizer que a vida é um enorme quebra-cabeça sem sentido. Mas não acho que nada disso seja realmente a essência do que Carroll – ou melhor, Dodgson – queria. Tudo isso são interpretações que outras pessoas fizeram e elas chegaram a essas conclusões inspiradas em suas próprias experiências, e é por isso que não existe uma Alice igual a outra.

Alice's Shop em Oxford, que fica hoje no lugar onde era a casa de Alice Liddell

Então vou dizer o que Alice é, para mim, na minha experiência pessoal. Alice é o estranho, e o absurdo, e o sonho e a capacidade de aceitar o diferente. Mas, acima de tudo, Alice é o riso e a curiosidade de tentar descobrir o mundo, um erro de cada vez, sem nos deter, mesmo que haja momentos em que teremos de nos sentar no chão e chorar um pouco para recuperar a coragem.

É aceitar que somos todos loucos aqui... e nos regozijarmos com isso. Afinal, se o resto do mundo não faz sentido, porque então devemos fazer também?

(Continua em... Acredito em Seis Coisas Impossíveis Antes do Café)


A Coruja


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2 comentários:

  1. Adorei mais este post.
    Parabéns...
    Onde você conseguiu tantas informações?

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    Respostas
    1. A versão anotada do livro (do Martin Gardner, com extensos comentários sobre contexto social e histórico); o fantástico Lenny's Alice in Wonderland (http://www.alice-in-wonderland.net/), muitos artigos do Victorian Web (http://www.victorianweb.org/) e anotações feitas no debate do clube do livro sobre os livros que mediei.

      Não é à toa que os especiais que publico aqui no Coruja têm uma periodicidade anual - eu passo meses lendo, pesquisando e processando informação. São os artigos que mais gosto de escrever, mas consomem bastante tempo.

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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