11 de fevereiro de 2013

Quem Conta um Conto (Fevereiro): O Conto da Lulu || Sob a Montanha


Sob a Montanha

A tempestade estava vindo.

Por um momento, ela se perguntou se perdera a noção do tempo; um olhar para a posição do sol, contudo, foi suficiente para que afastasse a idéia: não era ela que estava atrasada, mas os ventos que tinham chegado mais cedo.

A correia em sua mão escorregou ligeiramente quando Tidal tentou forçar perseguição aos rapis, que rapidamente se bandeavam, instinto de sobrevivência por uma vez sobrepujando a curiosidade suicida característica da espécie.

Redemoinhos de areia se formavam junto aos seus pés enquanto Lailah alternava sua atenção dos animais para as furiosas ondas de poeira que ameaçavam engolir todo o horizonte.

Lá embaixo, o vento fustigava as tendas armadas pela tribo no dia anterior, quando chegaram para a peregrinação anual junto à montanha. Por mais firmes que estivessem fincadas, não houvera tempo suficiente para se preparar e era improvável que elas sobrevivessem até o final daquele embate.

Àquela altura, Lailah jamais conseguiria chegar a salvo se tentasse voltar. A decida era perigosa mesmo em dias claros e ainda que escapasse de se espatifar nas rochas ou ser devorada por alguns dos demônios que viviam no coração da tempestade, não conseguiria chegar sozinha às ruínas que serviam de abrigo ao seu povo em ocasiões como aquela.

Sua única alternativa eram as cavernas escondidas sob as encostas da montanha – cavernas que, desde que começara a dar seus primeiros passos para fora da tenda de sua família, fora alertada para jamais entrar sozinha e apenas quando dos rituais de iniciação.

Não tinha escolha, porém. Ou se arriscava sob a montanha ou se perderia na tormenta.

- Vamos, Tidal.

Ela apertou com força a correia de seu companheiro, ajeitando o arco nas costas e inclinando-se para junto dos paredões de pedra, decidindo-se a seguir a retaguarda do bando de rapis que já sumiam de vista. Para além do fato de que eles não se assustariam com a presença dela e de Tidal – ainda que ela carregasse um deles morto em seu alforje, o resultado da caçada matinal – eles poderiam levá-la para uma fonte de água, o que era prioridade no momento, considerando que seu cantil estava já quase vazio.

A fenda na rocha era estreita, mas eles conseguiram passar a tempo, antes que o vento e a areia transformasse o deserto numa imagem do inferno. Lailah ouvira muitas histórias sobre homens que tinham sido levados à loucura tão logo a escuridão sufocante os alcançara e não gostaria de comprovar se havia algum fundo de verdade em tais relatos.

Dentro da caverna estava quase que completamente escuro, exceto pelos olhos vermelhos dos rapis que brilhavam dardejando ao seu redor, acomodando-se aos poucos em nichos que ela apenas adivinhava estarem ali. Podia ouvir o resfolegar e ganidos baixos de Tidal e sua própria respiração abafada pela máscara que usava.

Lailah puxou o lenço para descobrir a boca e respirou fundo enquanto buscava por entre as dobras da roupa a velha pedra que luz que a acompanhava sempre, desde que a ganhara do irmão, na primeira caçada que tinham feito juntos.

Tidal comprimiu-se contra sua perna, tremendo e quase a fazendo perder o equilíbrio. Desta feita ela largou a correia, preferindo afundar os dedos no pelo macio do pescoço de seu parceiro.

- Calma, garoto. Vai ficar tudo bem.

Finalmente encontrando o que procurava, ela ergueu a pedra rente ao rosto, soprando-a gentilmente.Não demorou para que uma claridade tímida se fizesse presente, tornando os contornos ao seu redor um pouco mais reais: os rapis se tinham organizado em círculos nas paredes da caverna, quase como uma grande assembléia de sábios, espalhando-se por toda o raio exceto junto à entrada e dois corredores do lado oposto, que pareciam descer para o interior da montanha, trilhas que logo afundavam-se nas sombras.

- Certo. – ela assentiu para si mesma, abaixando os olhos para Tidal que, com a luz, parara de tremer, acalmando-se – É provável que tenhamos de ficar aqui por algum tempo, então vamos nos fazer confortáveis.

Lailah caminhou até uma das paredes, deixando o arco, a alijava e o alforje pendurados em uma saliência, limpando a princípio com os pés e depois com as mãos o chão sujo de terra e dejetos, tentando separar aquilo que poderia colocar para queimar. Talvez precisasse acender uma fogueira e era melhor deixar tudo preparado se este fosse o caso.

Tomadas essas providências, podia se sentar e descansar por alguns momentos, antes de começar a procurar água.

Por hora, só restava esperar.

Tidal encostando a cabeça em seu ombro era a última coisa de que se lembrava quando despertou horas ou minutos depois, abruptamente. Não se lembrava de ter tomado a decisão sequer de fechar os olhos e agora não tinha mais noção de quanto tempo já se passara desde que se refugiara na caverna.

O vento ainda soprava furioso lá fora, sons como gemidos e lamentos fundindo-se com o assobio que ele provocava esgueirando-se pelas frestas da montanha. Lailah esfregou o rosto, ainda surpresa por ter caído no sono e balançou a cabeça de um lado para o outro para reconhecer onde estava.

Olhos vermelhos piscavam em torno dela à meia luz que sua pedra produzia. A sede já começava a se fazer notar e Lailah alcançou o cantil enquanto buscava com os olhos seu companheiro.

- Tidal? Tidal, onde está você, garoto? Venha beber alguma coisa.

Nem um ganido em resposta, apenas o som do ocasional bater de pequenas asas e o resfolegar da respiração de uma inteira colméia de rapis.

Lailah se levantou, franzindo a testa, dando mais uns passos para um lado e depois para o outro, tentando enxergar se Tidal não estaria adormecido e escondido em alguma das reentrâncias da caverna. Lá fora ele não poderia estar – tão logo se pôs diante da entrada, pode sentir a violência do vento, os grãos de areia que arranhavam seu rosto – básico instinto de sobrevivência o impediria de tentar sair pelo menos até que a tempestade amainasse um pouco mais.

Só restavam, portanto, os túneis.

A hipótese mais provável é que, com a sede, ele farejara alguma fonte de água e decidira segui-la. Ou talvez algum rapi curioso o provocara e ele o saíra perseguindo. Qualquer que tivesse sido o motivo, o certo é que Tidal se fora e não havia nada que pudesse assegurá-la de que ele encontraria seu caminho de volta.

Tudo porque ela caíra no sono.

Não podia perder Tidal. Ele era um dos únicos vínculos que lhe restavam no mundo – os pais perdidos quando ainda era um bebê, o irmão desaparecido no deserto: sem Tidal, estava sozinha.

Tempo era precioso, mas não podia simplesmente sair às cegas pelas cavernas. Tinha pouca água e não sabia mais há quanto tempo comera. Se queria encontrar Tidal, tinha de fazer as coisas da maneira certa.

A caça daquela manhã ainda estava em seu bornal. Com movimentos seguros ela esfolou o animal, enrolando a pele de volta dentro do bornal, cortando a carne em tiras, algumas das quais mastigava durante o processo, separando com cuidado o fígado venenoso.

Com a mesma prestreza, nascida do hábito, capturou outro rapi, sangrando-o no cantil que esvaziara mais cedo, antes mesmo da tempestade. Em último caso, se não encontrasse água, o sangue serviria para que se mantivesse hidratada por mais algum tempo.

Assim preparada, ela retomou seus pertences e deixou a caverna, escolhendo um dos túneis à sorte – Tidal era leve e sorrateiro o suficiente para não deixar pegadas, e não havia qualquer outro indício que mostrasse o caminho que ele tomara.

Na penumbra de sua pouca luz, Lailah não podia enxergar muito mais que alguns passos de cada vez – mas também não se arriscaria a acender fogo e chamar a atenção de outras criaturas além dos rapis que pudessem viver ali dentro. A cada trinta passos, marcava as paredes de ambos os lados com sua adaga, sinalizando a trilha de volta.

Podia sentir o caminho descendo, primeiro de maneira suave, depois cada vez mais abruptamente, a ponto de quase escorregar algumas vezes. A temperatura também caíra drasticamente e a certa altura ela se viu puxando a capa para mais perto do corpo.

Mais de uma vez teve de parar em encruzilhadas de novos túneis, tentando discernir se estava no caminho certo, se havia algum sinal de que seu companheiro passara por ali. O silêncio era quebrado pelas pedras que rolavam sob seus pés, sua própria respiração e os ecos dispersos que vinham de todos os lugares ao mesmo tempo – confusos demais para que pudesse reconhecer ou não uma ameaça, para seguir ou mesmo escapar.

Foi na quarta mudança de túnel que encontrou água, gotas grossas que escorriam por magníficas formações na rocha que quase pareciam ter sido conscientemente erguidas. Não era o suficiente para matar a sede ou encher o cantil, mas pelo menos podia molhar os lábios e a língua seca.

O frio agora era suficiente para que ela tivesse de trincar os dentes, tentando controlar os tremores. Era quase como se tivesse deixado seu mundo para trás e penetrado em outro, completamente oposto à luz e calor do deserto.

Mastigou mais algumas tiras de carne, tentando esquecer o fato de que ela estava crua. Não poderia se descuidar se queria sair viva daquela aventura.

Aconteceu tão de repente que ela não se deu conta até que fosse tarde demais: o chão inclinara-se ainda mais, as pedras lisas rolaram sob seus pés e com um passo em falso, Lailah estava escorregando a uma velocidade perturbadora por algo que já não era mais uma ladeira, mas um verdadeiro fosso, o grito de terror ao se ver subitamente sem chão ecoando e aumentando ao seu redor, a pedra de luz escapando de seus dedos quase imediatamente jogando tudo na completa escuridão enquanto ela tentava desesperadamente agarrar-se em algo, cortando as mãos no processo.

Então, da mesma forma abrupta, as curvas das paredes tornaram-se um pouco menos verticais e ela conseguiu, a algum custo, diminuir o suficiente sua velocidade para que os metros finais de queda não resultassem num despedaçar doloroso contra as pedras do chão.

Lailah ficou deitada de barriga para cima, tentando recuperar o fôlego, sentindo cada articulação gritando de dor. Devagar, ela mexeu primeiro os dedos, depois pés, mãos, braços e pernas, até ter certeza de que, a despeito de inúmeras escoriações, ao menos não quebrara nada.

Não tão satisfatório foi perceber que perdera praticamente tudo que tinha de essencial para aquela peripécia: sua fonte de luz se fora, bem como suas flechas e a adaga curta com que vinha marcando o caminho; o arco se partira sob seu peso e por muito pouco o bornal com mantimentos – se assim podia chamar alguns poucos goles de água e tiras de carne crua – também não se fora. A única arma que lhe restara em um ambiente potencialmente hostil era a adaga gêmea que ficara na bainha presa à sua cintura.

Não que fizesse grande diferença tal inventário, Lailah pensou, sentando-se devagar com as pernas estendidas, passando a língua pelos lábios cortados. Ainda que conseguisse uma maneira de fazer fogo e com isso luz, não teria como usá-la para subir o fosso e seria impossível subir sem enxergar o que estava fazendo – não que machucada como estava, tivesse alguma condição de tentar a escalada.

Ela não encontraria Tidal. Sua comida e sua água logo terminariam. Não tinha praticamente nada com que se defender se encontrasse alguma fera ou monstro. Definharia na escuridão, completamente só.

Sentiu a garganta se fechar num soluço reprimido. Não adiantaria entrar em pânico – isso só a exauriria mais rápido e acabaria de vez com suas chances. Precisava pensar, mas estava cansada e dolorida demais para fazê-lo.

Inspirar fundo. Expirar devagar. Olhos fechados tentando se desligar da dor. Inspirar. Expirar. Podia fazer aquilo. Ela era da tribo dos nômades do deserto. Eles já tinham sobrevivido à montanha antes. Todos os anos, quando dos rituais de iniciação, os jovens entravam nas cavernas. E também saíam delas. Havia outro caminho, um caminho...

“...um caminho a ser encontrado por instinto.”

Lailah piscou os olhos ao ouvir a voz do irmão, a lembrança de um dia, não tão assim distante, subitamente clara em sua mente. Fora a noite seguinte à iniciação de Arioch, duas luas antes de ele desaparecer no meio da noite sem qualquer explicação.

Ela não tinha idade ainda para ser iniciada; sua vez não chegaria até a peregrinação seguinte. Por isso, o irmão não podia lhe contar nada sobre a preparação na tenda dos feiticeiros, antes de penetrar a montanha, nem sobre aquilo que vira dentro das cavernas. Tentara insistir, é claro, descobrir qualquer coisa que ele pudesse deixar escapar e ao final, Arioch dissera aquelas palavras: ‘há um caminho a ser encontrado por instinto e você terá de encontrá-lo sozinha’.

Havia um caminho. Afinal, as pessoas sempre retornavam daquela peregrinação. Havia um caminho e talvez ela não estivesse preparada para encontrá-lo, uma vez que não ouvira as histórias contadas na tenda dos feiticeiros que precediam a entrada na montanha... mas havia um caminho e saber daquilo teria de bastar.

Esforçou-se para comer mais uma tira de carne, em seguida apenas molhando os lábios com a pouca água que lhe restara. Alguns passos trôpegos a levaram até a parede e ela e encostou a ela, tentando aproveitar a pouca proteção que ela lhe oferecia. Não achava que conseguiria dormir, mas precisava de um descanso para se recuperar.

Foi quando se deitou, encolhendo-se o máximo que podia para preservar-se do frio que ela percebeu a ligeira claridade mais adiante de onde estava.

Lailah sentiu a respiração falhar por um momento com aquela visão, tentando não deixar a expectativa dominá-la. Devagar, voltou a se sentar, erguendo-se apoiada à parede. Podia não ter quebrado nada, mas ainda estava bastante machucada e foi com passos trôpegos que avançou.

Talvez fosse sua pedra da luz, que lhe escapara logo no início da queda. Talvez uma réstia de sol que vinha de alguma abertura para o mundo. Não sabia quanto tempo já se passara desde que entrara na montanha, fugindo da tempestade – podia ter passado a noite, amanhecido um novo dia, quem sabe até mais tempo (semanas, meses, anos como nos velhos contos de fadas que ouvia em criança? Ou estaria fantasiando demais, deixando-se levar por superstições?).

O que a recebeu foi algo bem diferente do que imaginara, que qualquer delírio que sua imaginação pudesse conjurar.

Antes de cair no fosso, admirara as estalagmites que pareciam quase conscientemente construídas, formações marmóreas delicadas. O que tinha agora diante de si era uma imagem daquelas torres de pedra, mas numa escala muito maior, soberbas, majestosas algo para além de sua compreensão.

Era óbvio dessa feita que aquilo não se formara por simples capricho da natureza. Havia torres de diferentes tamanhos, prédios com janelas e pórticos elegantes que harmonizavam de uma maneira que nunca vira antes. Estivera em cidades antes, quando a tribo parava para comerciar algo em suas peregrinações, mas nenhuma daquelas que conhecera tinha aquela organização, aquela sensação de amplitude, de alamedas largas e limpas, de beleza e serenidade.

Mas o que uma cidade como aquela estava fazendo enterrada no coração da montanha – e aparentemente abandonada como se jamais tivesse sido habitada?

Lailah deu uns poucos passos, sem nunca deixar de se apoiar ao paredão as suas costas, tentando racionalizar aquilo que via. A luz, como desconfiara antes, vinha de aberturas no domo da caverna – altas demais para que ela as pudesse alcançar, mas em número suficiente para lhe dar alguma esperança. Afinal, se havia uma cidade, haveria uma estrada e se havia uma estrada, ela tinha chance de encontrá-la.

As linhas elegantes dos prédios se estendiam amplamente – alguns construídos num material cristalino, que distorcia seus interiores, outras que talvez fossem um mármore com veios cor de rosa e tudo parecia fulgir com os focos de luz que se refletiam do teto e... aquilo era um lago?

Água! Claro que uma cidade teria água! Podia não estar salva ainda, mas ao menos a questão da sede – que ela estivera tentando ignorar por um longo tempo – se resolvera.

O mais rápido que podia, ela caminhou na direção da massa cristalina que via por entre os prédios, refletindo a claridade ao seu redor. E foi dessa maneira, a meio caminho daquilo que imaginava ser um lago natural ou um reservatório construído, que Lailah descobriu o que acontecera aos habitantes daquele lugar.

Espalhadas pelas ruas amplas de uma cidade de cristal saída de sonhos, estátuas de homens, mulheres e crianças em várias atitudes de prostração e desespero se revelavam. Não havia muito que cogitar, por mais absurda que lhe parecesse a noção de que aquelas não eram simples estátuas. Algo hediondo acontecera ali, algo verdadeiramente alarmante.

Mais uma vez, Lailah se viu tentando controlar a respiração, conscientemente expirando e inspirando enquanto forçava os joelhos a manterem-na em pé. Recusava-se a ceder ao terror, a perder o controle que com tanto esforço mantivera até ali, por mais justificado que uma crise histérica pudesse parecer diante da situação. Estava sozinha; de nada serviria ter algum tipo de surto porque ninguém viria em seu auxílio e nem ajudaria em sua situação.

Prestando mais atenção ao seu redor, ignorando a admiração inicial que aquela visão lhe causara, ela notou pela primeira vez como o fundo da grande caverna que abrigava a cidade era nada mais que um amontoado de pedras e detritos. Um desabamento então. Mas um desabamento não explicava as pessoas transformadas em rocha, faces contorcidas em terror.

- Foi uma punição. Um castigo em resposta ao orgulho da Cidade dos Magos, que ousou tentar usurpar de Deus a Criação.

Lailah se virou tão rapidamente que sentiu o pescoço estalar com o movimento e por muito pouco não perdeu o equilíbrio. Ela se viu abrindo e fechando os lábios, a língua seca colando no alto da boca diante da figura translúcida que lhe acabara de surgir a frente.

“O quê” ou “Quem é você” eram perguntas óbvias e quase clichês, mas para sua própria surpresa, Lailah se viu perguntando “que deus?” com uma voz rouca e baixa demais para ela mesma ouvir.

A recém-chegada, contudo, foi capaz de compreendê-la, soltando um ligeiro riso abafado, como se vindo de dentro d’água.

- Tempo suficiente se passou desde então para que outros deuses tenham surgido e deixado de existir... Às vezes me esqueço disso. Talvez tivesse sido mais benéfico a Ele não ter obliterado seu povo e assim não teria sido esquecido. Um pouco mais de tolerância com os humanos e ele ainda teria um altar.

- Perdoe-me, mas... quem é você? – Lailah finalmente conseguiu dizer.

- Você pode pensar em mim como... o espírito da cidade. – ela respondeu, aproximando-se alguns passos da jovem – É melhor beber um pouco de água, sua garganta não parece bem.

Havia algo de curiosamente gentil na voz dela, que parecia flutuar ao seu redor vinda um momento de um lado, outro momento de outro, desprendida do corpo transparente.

Não havia muito mais a fazer além de ser pragmática – como o espírito dissera, ela precisava de água e se a outra lhe quisesse fazer alguma coisa, ela estava fraca e machucada demais para tentar se defender – não que ela soubesse se defender daquilo. Lailah deu as costas a ela, seguindo novamente para o lago.

- Você não parece ter medo de mim. – a voz soou à sua direita, ainda que o brilho viesse de por cima de seu ombro esquerdo.

- Mas eu estou com medo de você. – Lailah retorquiu – Apenas pareço estar cansada demais para ser capaz de demonstrá-lo.

- Não precisa. Ter medo de mim, digo. Eu não vou machucá-la. Estou seguindo você desde que entrou na montanha e não lhe fiz nenhum la.

A morena parou por um instante.

- Você sabe o que aconteceu com Tidal, então?

- Você fala de seu companheiro? Eu não podia segui-lo sem deixar você. Se serve de consolo, ele entrou no mesmo túnel que você escolheu.

- Por que eu não a percebi?

Um sorriso triste.

- Não sou visível para todos. E mesmo assim, só posso existir no plano físico próximo à cidade. É como uma âncora... ou uma prisão.

- Há outros como você?

Dessa vez houve silêncio enquanto Lailah se ajoelhava, mergulhando as mãos na água fria, para logo então sorvê-la com sofreguidão. Não tivera consciência do quão sedenta estava até começar beber. Estava grata por pelo menos não ter tido de recorrer ao sangue que recolhera na entrada da montanha, antes de partir atrás de Tidal.

Ao fim, com um suspiro aliviado, voltou-se uma vez mais para sua companhia.

- Há outros aqui com você?

Ela meneou a cabeça.

- Há quanto tempo você está aqui?

- Alguns séculos. Talvez até um pouco mais. Você perde um pouco a noção de tempo quando não tem muito pelo que esperar. Às vezes há pessoas aqui, mas elas nunca parecem estar sóbrias o suficiente para me enxergar ou reconhecer que não sou uma alucinação.

Lailah assentiu.

- Minha tribo... existe um ritual de iniciação, quando nos tornamos adultos... Os feiticeiros contam histórias e passam alguma espécie de poção... meu irmão esteve aqui antes, ele passou dois dias para voltar completamente a si. Mas não sei exatamente como acontece, minha iniciação só seria na próxima peregrinação.

- Nem sempre estivemos sob a montanha, você sabia? – o espírito respondeu, desviando o olhar para algum ponto no domo da caverna – Éramos uma grande cidade, num planalto no alto da montanha, tão próximo aos céus que havia dias que eu pensava, seria capaz de tocá-lo. Éramos poderosos e belos e sábios e claro que nos tornamos também orgulhosos... Nosso Deus nos fizera assim, não é estranho que depois ele nos tenha condenado exatamente pelas qualidades que nos deu?

O olhar dela estava agora perdido em algum lugar do passado, numa época em que o sol brilhava por cima daquelas torres de mármore e cristal e refletiam ao longe como um farol. Em que eles eram um prodígio, quando todos os povos os procuravam atrás de conhecimento e informação.

Mas Lailah, obviamente, não tinha como saber de nada disso. Ela não sabia quais eram as histórias que eram contadas aos sussurros nas tendas dos feiticeiros, não sabia que sua ignorância fazia parte de um tributo àquilo que um dia a cidade sob a montanha representara. Não tinha como saber que da mesma forma que a morte da cidade acarretara o esquecimento e fim de seu Deus, a crença de sua tribo alimentava aquele espectro.

Ela tinha outras preocupações, outras prioridades.

- Você disse que viu quando Tidal escolheu o túnel pelo qual desci. Você conseguiria encontrá-lo?

Mais uma vez, o espírito balançou a cabeça.

- Sinto muito. Não sei como encontrá-lo. Mas posso ajudá-la a sair. Posso mostrar o caminho.

Um sentimento de euforia fez com que seu coração acelerasse, mas mais uma vez Lailah forçou-se a manter a calma e concentrar-se. As palavras do seu irmãos lhe voltaram à mente. Encontrar um caminho sozinha, por instinto... confiar em um espectro seria o caminho?

- Por que você faria isso?

- Porque você quer sair. – a outra respondeu simplesmente – Não é razão o suficiente?

- Eu não sei. Não sei se é razão suficiente para você me deixar ir, especialmente se está sozinha há tanto tempo. Como posso confiar em você?

As duas se encararam longamente, Lailah tentando julgar aquilo que era capaz de enxergar nas faces diáfanas do espectro.

- Você definharia aqui. – ela murmurou – E não se tornaria um espírito como eu. Não demoraria muito e eu estaria sozinha novamente. E então, de que adiantaria sacrificá-la?

Talvez não fosse o suficiente, mas era tudo o que tinha. Era sua única chance; Tidal tinha um nariz que talvez pudesse guiá-lo para fora, mas sem ajuda, Lailah talvez não conseguisse encontrar o caminho a tempo.

- Eu agradeço a ajuda então.

Foi assim que ela se viu sendo guiada para fora da montanha por um espectro de tempos imemoriais, passando por ruínas de uma cidade cujo nome e existência tinham sido obliteradas da História por um Deus ciumento que com isso causara sua própria ruína.

Era noite quando chegaram diante da saída, um rasgo de céu escuro e estrelas contra as sombras da caverna. Ela nunca se sentira tão exausta ou tão em paz quanto naquele preciso momento em que as curvas do deserto se revelaram do lado de fora da montanha.

Ainda haveria uma longa caminhada até o acampamento - e lá chegando lágrimas aliviadas e muitas explicações. Talvez Tidal a estivesse esperando ou talvez estivesse para sempre perdido – quando então estaria tão sozinha quanto o espírito da cidade.

De uma forma ou de outra, estava viva. E talvez não o tivesse conseguido sem a ajuda dela. Lailah sorriu, fazendo uma pequena reverência.

- Obrigada. Obrigada por ter me ajudado. Há alguma coisa que eu possa fazer por você?

A resposta foi um olhar melancólico.

- Apenas... apenas não esqueça de mim. É tudo o que peço. Não esqueça de mim.

A jovem assentiu uma última vez.

- Eu não esquecerei.


A Coruja


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2 comentários:

  1. Não é comum eu comentar muito aqui, mas desta vez tenho mesmo que ressaltar: há muito tempo que não lia um conto com este brilho e esta intensidade.
    O tema está próximo das histórias de Atlântida e Lemúria (continentes perdidos, destruídos pela ira dos deuses), com uma personalidade muito própria.

    Sei que é chato ouvir isto quando se conhecem limites(eu própria às vezes ouço), mas digo que pelo menos um livro de diversos contos destes deveria escrever. Porque eu acho que isto é um pedaço excelente de literatura que devia ser imortalizado.

    Ou continuado :)

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    1. Eu não respondi esse comentários antes porque estava esperando que os comentários dos contos fossem ao ar.

      Você tem razão, Stradivaria, minha inspiração também partiu de Atlântida (bem mais de Sodoma e Gomorra, porque foi pensando nas estátuas de sal que eu cheguei no conto...) mas também de Atlântida.

      Fiquei muito, muito feliz com seu comentário (e ligeiramente vermelha também, com o elogio). Estou tentando tomara coragem necessária para dar a cara a tapa e começar a me arriscar. Comentários como o seu me dão a coragem necessária para tanto.

      Obrigada!

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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