quinta-feira, 15 de março de 2012

'Em sua morada em R'lyeh, o extinto Cthulhu aguarda sonhando'

Eles adoravam, segundo disseram, os Magníficos Ancestrais que viveram muitas eras antes de existir qualquer homem, e que chegaram ao jovem mundo provindo do espaço. Esses Ancestrais agora estavam extintos, nas entranhas da terra e sob o mar; mas seus corpos mortos haviam contado em sonhos segredos aos primeiros homens, que formaram um culto que nunca se havia desvanecido. Aquele era o culto, e os prisioneiros disseram que ele sempre existira e sempre existiria, oculto em ermos distantes e locais sombrios espalhados por todo o mundo, até o momento em que o grande sacerdote Cthulhu se ergueria de sua tenebrosa moradia na portentosa cidade de R’lyeh sob as águas, submetendo mais uma vez a Terra ao seu domínio. Algum dia ele faria seu chamado, quando os astros estivessem alinhados, e o culto secreto estaria sempre aguardando para liberá-lo.

H. P. Lovecraft – O Chamado de Cthulhu
Você pára. Respira pesado, tentando se localizar em meio ao breu. Seu coração bate tão forte que você pode ouvir as pulsações como um latejar contínuo nos ouvidos. O terror o sufoca. A escuridão é uma benção. Ela o impede de ver aquilo que está logo atrás de você, mantendo sua sanidade. Ainda assim, você adivinha as formas monstruosas, gigantescas que o perseguem. Você sente o cheiro de mar mesclado com algo mais pungente – cheiro de antigo, cheiro do tempo.

Em sua morada em R’lyeh, o extinto Cthulhu aguarda sonhando.

Hoje faz 75 anos da morte do grande mestre do horror, Howard Phillips Lovecraft. E não há melhor forma de caracterizar a literatura de Lovecraft como matéria-prima dos pesadelos. Ler os contos que formam a base de sua mitologia é tão angustiante quanto estar preso dentro de um sonho, lutando desesperadamente por acordar.

Seus horrores não são descritos. Há apenas... o pressentimento de contornos que desafiam a lógica. Tentáculos, asas membranosas, poderes mais antigos, talvez, que nosso próprio universo. A genialidade de Lovecraft é nos levar apenas até a beira do abismo e deixar que completemos com os olhos de nossa mente aquilo que nos encara de volta – nossos medos mais primitivos, o estranho, o desconhecido.

Embora já conhecesse Lovecraft de alguns ensaios do próprio (acerca da natureza do medo e da fantasia) e saiba a sinopse de muitas de suas obras – além de conhecer o ‘métier’ daquilo que é considerado ‘lovecraftiniano’ – essa antologia de contos foi meu primeiro contato direto com o autor.

Apesar disso, senti-me familiarizada com seu estilo. Especialmente em Sussurros na Escuridão, há semelhança com a obra de Hodgson – as criaturas de aparência suína que assombram A Casa sobre o Abismo inspiram o mesmo terror e a mesma sensação de estar acuado, isolado e totalmente à mercê de seres que, definitivamente, não pertencem a nosso mundo.

Não é uma coincidência, claro. Lovecraft era um fã confesso de Hodgson e também de Lord Dunsany, cuja voz parece às vezes também ecoar nos sonhos do jovem artista delirante de O Chamado de Cthulhu.

Lovecraft ultrapassa seus mestres, contudo. Sua mitologia se sustenta além daquilo que escreveu, sua voz foi duplicada, triplicada em dezenas de outras histórias e outros autores, expandindo ainda mais a já densa neblina que cerca seus monstros. Ela foi apropriada por centenas de outros artistas – outros homens e mulheres que escutam os sussurros à noite e que tentam se convencer a acordar, tentam se convencer de que aquilo é apenas um sonho; à luz do dia, exorcizam-se em páginas escritas e desenhadas e suspiram aliviados que aquilo são apenas histórias, mas à noite lembram e acreditam - e multiplicam os seguidores do culto maldito.

Pois em sua morada em R’lyeh, o extinto Cthulhu aguarda sonhando... e nós, pelas páginas de Lovecraft, sonhamos o sonho de Cthulhu, aguardando o momento do retorno. Segurando o fôlego, paralisados de medo, aguardamos o sacerdote dos deuses daquele outro mundo além das estrelas.

E ele, extinto, dorme e aguarda. E sonha conosco.


A Coruja

4 comentários:

  1. Que post bom! Eu ainda não tive a oportunidade de ler nenhum livro de H.P Lovecraft mas tenho muito vontade, por que é exatamente de um genero que eu gosto, terror.

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  2. Algum tempo atrás, eu li um artigo sobre Lovecraft e o mito de Cthulhu, possivelmente inspirado pelo ano 75 de aniversário de morte, mas devo admitir que ainda não tive a chance de ler nenhum título do mestre do horror... O que eu já encontrei em grandes doses, porém, foram criações inspiradas na mitologia lovecraftiana, particularmente no mito impressionantemente assustador de Cthulhu.

    Lovecraft está em todo lugar, é impressionante. Cthulhu já virou ícone da cultura pop (como o próprio Coruja mostrou no dia em que você apresentou o origami adorável do futuro Devorador do Mundo :p), mas o que eu acho mais impressionante sem nem ao menos ter lido a obra de Lovecraft é o próprio conceito do medo e terror na mitologia dele...

    Eu peguei emprestadas algumas ideias sem nem ter lido os livros, pra ser sincera... Tenho medo do que acontecerá quando conseguir pôr as mãos em alguns volumes xDDD

    Você chegou a ler os contos que o Gaiman fez sobre Lovecraft? Um é uma paródia de Sherlock Holmes (a mais incrível que eu já li, pra ser sincera), uma espécie de crossover estranho chamado A Study in Emerauld. O outro, não me lembro bem o título, mas é sobre um turista americano que vai parar na adorável cidade de Innsmouth, onde ele conhece um par de cultistas que tem muito a falar sobre 'H-fucking-P-fucking-Lovecraft'.

    Foi umas das coisas mais hilárias que eu já li, mas eu tenho um senso de humor estranho 'xD

    Provavelmente você já leu esses, estão no Smoke and Mirrors ou no Fragile Things (ou nos dois). Enfim, são só uma prova de que Lovecraft está em todo lugar (encontrei uma vez uma menção a Chutlhu num manga de comédia, pra você ter noção), quando não numa referência clara, através dos conceitos que ele iniciou (exemplos deste último caso: http://cronicasdomardeprata.wordpress.com/2011/11/18/al-gober/ e http://inkhammermelody.blogspot.com/2011/12/murmurios-e-cancoes.html). Sua resenha, portanto, ficou ótima e digna dos 75 anos de morte do mestre Lovecraft... Em breve procurarei por este título, talvez, para finalmente entrar no mundo de Cthulhu e outros horrores. Até lá, parabéns pelo bom trabalho! ;)

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    1. Rafa, eu conheço sim os contos do Gaiman sobre Lovecraft; aliás, salvo engano, o Gaiman participou de uma recente antologia de contos só sobre o Lovecraft - mas não sei se é material inédito ou se é algo que já foi publicado antes... Cá entre nós, adoro "Estudo em Esmeralda".

      Cthulhu está em todo lugar porque, sabe como é, ele está preparando sua volta...

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