12 de janeiro de 2012

Projeto Pratchett: Small Gods




Fear is a strange soil. It grows obedience like corn, which grow in straight lines to make weeding easier. But sometimes it grows the potatoes of defiance, which flourish underground.
Terry Pratchett – Small Gods

Considerando que os livros de Discworld têm sido traduzidos aqui no Brasil mais ou menos na ordem de publicação, Small Gods deve ser o próximo a ser lançado (porque a esperança é a última que morre). Tendo lido todos os livros que vêm antes e mais uns tantos que vêm depois dele, creio que posso dizer que Small Gods marca uma mudança na abordagem de Pratchett.

Até então, embora houvesse um forte teor de crítica nas aventuras e desventuras dos habitantes do Disco, o riso fácil era uma constante – num mundo de clichês e piadas prontas, Pratchett sempre soube se aproveitar bem desse humor mais escrachado.

A partir de Small Gods, contudo, os temas vão ficando mais sérios, há menos risadas, substituídos por uma ironia mais elegante e reflexiva. Política e busca pelo poder se tornam a essência dessa ‘fase’. É o caso de The Truth, que trata da questão da livre imprensa e de intrigas pelo poder; The Fifth Elephant, mergulhando no barril de pólvora das diferenças entre povos e do fornecimento de combustível e energia e ainda Men at Arms, que trata de preconceitos étnicos e avança até a sublevação civil.

Small Gods trata de religião, intolerância e filosofia. Tudo começa com o grande Deus Om tentando se manifestar no mundo agora que é chegado o tempo de seu oitavo profeta – responsável por passar ao povo seus editos e leis divinas. Infelizmente, em vez de surgir como um temível e poderoso avatar, Om chega ao Disco na forma de uma... tartaruga.

A Igreja de Om é forte e poderosa. E o problema é exatamente esse: as pessoas acreditam na Igreja por hábito ou medo da Quisition (algo parecido com a Inquisição, mas pior) – ou seja, elas acreditam na instituição, não no Deus. E, como os deuses se alimentam da crença de seus devotos, Om está com problemas...

E problemas bem sérios: na enormidade do estado de Omnia, ele só encontra um único devoto, que é a única pessoa que pode escutá-lo: o noviço Brutha (alguém mais pensou em Buda?), humilde jardineiro considerado mentalmente incapaz pela totalidade de seus superiores e irmãos, exceto pela parte da memória absolutamente prodigiosa.

Brutha, a princípio, não consegue acreditar que o todo poderoso deus Om escolheria se manifestar no mundo como uma simples tartaruga – para ele, aquilo é alguma espécie de tentação sombria. Mas finalmente Om consegue convencê-lo de que ele é realmente o grande Deus.

Enquanto Brutha tenta fazer as pazes com sua fé e o fato de que seu deus agora está em versão de bolso, ele acaba por ser recrutado por Vorbis, líder da Quisition e que em nada deixa a desejar comparado a Torquemada. Vorbis quer fazer guerra a Ephebe, a terra dos filósofos e do livre pensamento, começando com um ataque de dentro. Para tanto, ele montou uma missão diplomática, que na verdade é a responsável por iniciar esse ataque.

Só que, sendo uma missão diplomática – e uma vez que os efebianos não são idiotas – eles são recebidos no Palácio do Tirano, governante de Ephebe; um palácio que é um labirinto sem minotauros, mas repleto de armadilhas. É para ser capaz de sair desse labirinto que Vorbis precisa de Brutha, ou mais especificamente, da memória prodigiosa de Brutha.

Om também quer ir a Ephebe para entender seu dilema e descobrir uma forma de retornar ao seu poderio antigo, de forma que embora deteste Vorbis, ele decide que é uma boa idéia partir nessa expedição.

O que Vorbis – e Om – não contavam é que, ao chegar em Ephebe e ter contato com seus filósofos, Brutha demonstrasse não apenas que é capaz de pensar por si mesmo, como também incorporasse ao seu sistema de crenças a idéia de tolerância religiosa, solidariedade e humanismo.

Small Gods se tornou meu livro favorito da série – e olhe que é difícil escolher um único entre os títulos de Discworld. Suas visões sobre história e religião, tolerância e capacidade de um único homem fazer a diferença no grande plano das coisas me fez parar muitas vezes para refletir e, por que não?, ter esperança. Small Gods talvez não seja um livro tão engraçado quanto outros do Pratchett... mas consegue ser inspirador e cheio de uma graça quase divina.
“É difícil de explicar,” disse Brutha. “Mas eu penso que tem algo a ver com como as pessoas se comportam. Eu penso... você deveria fazer as coisas porque elas estão certas. Não porque algum deus assim disse. Eles poderão dizer algo diferente da próxima vez.”



A Coruja


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Um comentário:

  1. Historinha: lá em 2005 eu levei um pé-na-bunda-da-vida e passei minhas férias de dezembro inteira trancado no quarto, lendo livros no computador. E nisso eu lembrei dos livros do Pratchett, dos quais eu só havia lido o primeiro e não tinha ido muito com a cara do Rincewind (prontofalei)....querendo dar uma chance pro Pratchett de novo, eu resolvi pegar um livro dele ao acaso. E o acaso me trouxe Small Gods, que até hoje é um dos meus favoritos! Eu adoro o jeito que o Pratchett escreve, alternando piadas e coisas seríssimas num piscar de olhos...desses livros mais sérios do Discworld, eu gosto muuuuito do Nightwatch, que é ainda mais "pesado" que o Small Gods e mostra algumas coisas bem interessantes sobre o passado de Ankh-Morpork. Enfiiiim, é isso! E lembre-se: De Chelonian Mobile!

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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