26 de dezembro de 2011

Clube do Livro (Dezembro) - Uma Idéia Toda Azul



Estremece a água do lago. A princesa arma o arco, retesa a corda, crava a seta de ouro no peito do cisne. Mas é do peito dela que o sangue espirra. E filete, e jorro, banhando a roupa, desfazendo a seda por onde passa, transforma seu corpo em penas, negras penas de veludo.

O dia adormece. No lago dois cisnes negros deslizam lado a lado. Brilha esquecido o arco de ouro.

A prosa quase poema da Colasanti nos faz mergulhar num mundo de contos de fadas - um mundo que nos cala fundo no coração, repleto de recordações de coisas eternas, de uma beleza inefável, difícil de traduzir nessa tentativa de resenha... Mas que uma idéia, esse livro nos deixa repletos de... repletos de sentimentos, acho que essa é a maneira mais simples de explicar. É um livro tão pequeno, mas contém tanta alma, tanta docura... e uma doçura que às vezes é agridoce, que não termina simplesmente num 'felizes para sempre', mas num sono eterno de sonhos ternos...

Este é um grande ponto em favor da autora: ela conseguiu me fazer gostar de sua versão da Bela Adormecida em Sete Anos e Mais Sete em que o rei é o responsável por amar a filha para um sono eterno, tentanto impedi-la de crescer... O título, a princípio, me fez lembrar de Jacó e Rachel, a história bíblica em que o rapaz trabalha sete anos para se casar com a filha caçula do tio Labão, mas ele empurra a mais velha e aí ele trabalha mais sete anos para conseguir a segunda...

Na verdade, acho que todos os contos de alguma forma fazem referências a mitos e contos de fadas conhecidos do grande público - e alguns livros nem tão conhecidos. O último rei que é o conto que começa a antologia lembra muito As Cidades Invisíveis do Calvino - só que no lugar de Marco Polo contando ao grande Khan sobre as cidades de seu enorme império, temos os próprios elementos: o vento, a lua, o sol, o mar...

O segundo conto, Além do Bastidor não me faz pensar de imediato em nenhuma história correlata, mas o sentimento da moça que borda e se perde em seu bordado me é bastante familiar: é o mesmo sentimento que tenho quando começo a criar uma história.

Por duas asas de veludo também é bastante óbvio: é a história do lago dos cisnes... que, por sua vez, me faz lembrar do mito celta de Angus e Caér - a humana enfeitiçada em forma de cisne, presa num lago até que o deus que sonhou com ela venha e consiga reconhecê-la por entre os outros pássaros... É uma história linda e aqui, a Colasanti mais uma vez revirou o conto original, como em sua versão da adormecida, uma vez que a princesa se trasnforma por sua própria fixação sanguinária de colecionar borboletas...

E aí tem Um Espinho de Marfim que quase me trouxe lágrimas aos olhos... e onde mais uma vez a figura paterna é a vilã - o que me faz lembrar das interpretações arrepiantes que o Bettelheim faz em A Psicanálise dos Contos de Fadas. Tem de ver aí esse complexo de pai fixado na filha... Isso rende um bom debate, porque, de acordo com essas teorias psicanalíticas que acabam todas voltando para Freud e Édipo, a menina é focada no pai e a mãe é a vilã, até que ela aprende a se desprender da figura paterna e encontrar seu príncipe. Nesse caso, todas as madrastas de contos de fadas são na verdade a própria mãe, vista como um obstáculo no caminho para a possessão egoísta do pai.

O conto que dá nome ao livro, Uma Idéia Toda Azul também não faz me lembrar de nenhuma outra história em especial... mas, em sua simplicidade, tem uma das mensagens subliminares mais importantes que já encontrei nesses contos de fadas: não sejam egoístas com suas idéias. Não a deixem ciumentamente de lado até que você tenha envelhecido demais para apreciá-la. Divida-a com os outros.

Entre as folhas do verde O, por sua feita, e A Pequena Sereia ao contrário... embora eu possa ir mais longe e fazer referência à Huldra da nórdica, uma criatura da floresta que se apresenta como uma mulher de beleza estontante, mas que tem uma cauda de cavalo, ou de uma vaca ou de uma raposa... Elas se apaixonam por humanos e se casam com eles, mas se algum dles descobrir sua cauda, elas precisam voltar para a floresta (ou alguma coisa nessas linhas...).

Fio Após Fio foi um dos meus contos favoritos... Nemésia é Aracna, a bela tecelã que por desafiar Atena com seu dom acabou trasnformada numa aranha XD

Só faltam mais dois contos para terminar de falar do livro e os dois falam de pessoas solitárias que encontraram de formas diferentes uma companhia, um amigo querido... A Primeira Só remonta Narciso, mas com a diferença de que ela se joga no lago acreditando que vai encontrar uma companhia e não por admirar a própria figura... e As notícias e o mel acaba com o rei abdicando em favor de ouvir apenas as boas notícias que o duende que morava em seu ouvido lhe dava, numa espécie de simbiose muito simpática - embora à primeira vista estranha, porque é um tanto difícil entender que o rei simplesmente prefira se ver livre de suas obrigações daquela forma...

Já conhecia a Marina Colasanti de outro livro que a Ana me deu de presente uns anos atrás e tinha me apaixonado com a prosa tão doce, tão poética dela... Por isso eu a indiquei para o Clube do Livro desse mês, que tinha por tema "autores brasileiros"... e meio que cometi uma gafe.

No final do livro, deparei-me com uma pequena nota biográfica da autora que quase me fez cair para trás pensando que tinha dado uma bola-fora. Porque, assim... a Marina nasceu na Etiópia...

Aí fui pesquisar direitinho para entender a patacoada que tinha feito, pensando com meus botões nas regrinhas de jus sanguinis e jus soli, torcendo para que ela fosse um caso deles e descobri que ela é ítalo-brasileira. Menos mal para minha pessoa...

Mas, bem, o que posso fazer? Me apresentaram a mulher como sendo mineira, oras!

Seja como for, independente de nacionalidade ou de noves fora zero, Uma Idéia Toda Azul foi um livro perfeito para terminar 2011. Ele é minha última resenha do ano e posso dizer que fechou com chave de ouro a lista!

E que venha 2012! Primeiro tema do ano no Clube será um livro que te faz rir. O que será que vai dar?



A Coruja


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