21 de setembro de 2011

Desafio Literário 2011: Setembro - Autores regionais || Romance da Pedra do Reino



Para ser mais exato, preciso explicar ainda que meu "romance" é, mais, um Memorial que dirijo à Nação Brasileira, à guisa de defesa e apelo, no terrível processo em que me vejo envolvido. Para que ninguém julgue que sou um impostor vulgar, devo finalmente esclarecer que, infeliz e desgraçado como estou agora, preso aqui nesta velha Cadeia da nossa Vila, sou, nada mais, nada menos, do que descendente, em linha masculina e direta, de Dom João Ferreira-Quaderna, mais conhecido como El-Rei Dom João II, 0 Execrável, homem sertanejo que, há um século, foi Rei da Pedra Bonita, no Sertão do Pajeú, na fronteira da Paraíba com Pernambuco. Isto significa que sou descendente, não daqueles reis e imperadores estrangeiros e falsificados da Casa de Bragança, mencionados com descabida insistência na História Geral do Brasil, de Varnhagen; mas sim dos legítimos e verdadeiros Reis brasileiros, os Reis castanhos e cabras da Pedra do Reino do Sertão, que cingiram, de uma vez para sempre, a sagrada Coroa do Brasil, de 1835 a 1838, transmitindo-a assim a seus descendentes, por herança de sangue e decreto divino.

Por diversas vezes tive de interromper a leitura desse livro com a cabeça girando, demorando-me uma meia hora em esquemas mentais para conseguir interpretar todas as referências e simbolismos que se entrecruzavam nas mais de setecentas páginas do romance.

Não é um livro fácil, eu confesso. Por vezes, os tantos volteios que Dom Pedro Dinis Ferreira Quaderna, rei no sertão e narrador do livro - que se trata de sua defesa para os crimes atribuídos a si e sua família - se tornavam um pouco cansativos, especialmente pelo peso da linguagem, bastante regional. Mas ao chegar ao final dessa história de "enigma, ódio, calúnia, amor, batalhas, sensualidade e morte!", eu estava prestes a ricochetar nas paredes de tão entusiasmada que estava.

A história narrada por Quaderna, misto de vaqueiro nordestino e Dom Quixote (o cavaleiro da Mancha esteve em minha mente por toda a obra), é inspirada num episódio real ocorrido em 1838 no município de São José do Belmonte (eu conheço, é pertinho de Mirandiba, onde fica a casa da minha avó).

Tudo começou com uns profetas ao estilo Antônio Conselheiro pregando ali por Floresta o retorno de Dom Sebastião, rei português desaparecido na África, supostamente encantado, ecoando as lendas do Rei Arthur inglês. De acordo com as pregações o rei retornaria para estabelecer um novo governo de paz e justiça uma vez que toda a Pedra do Reino - uma formação rochosa que lembra duas torres juntas - fosse devidamente banhada em sangue.

*comentário sem noção da Lulu: só neste último parágrafo há dois títulos da trilogia do Senhor dos Anéis..*

Assim, para desencantar Dom Sebastião, o povo, liderado pelo profeta e auto-coroado rei João Ferreira (de quem o personagem Quaderna descende) forma uma sociedade com inspiração feudal (até a história da primeira noite da esposa com o rei antes de ela ser do esposo tinha...), fundamentada na idéia de sacrifício humano - e estima-se que mais de cinqüenta pessoas, na maioria crianças, foram degoladas sobre a Pedra do Reino para melhor pintá-la de vermelho.

No final das contas, eles acabaram se encontrando cum uma patrulha, que acabou de massacrar os devotos, os quais continuavam a esperar o retorno do rei, seguido dos degolados em toda a sua glória.

É engraçado que as três obras que li para o tema do Desafio Literário 2011 desse mês têm em comum a linguagem vívida, bem carcaterística da região, misturadas - especialmente em Freyre e Suassuna, com um eruditismo que impressiona, sem ser, contudo, pedante.

Estes dois autores, em especial, despertaram curiosidade e nostalgia, porque sua ação se passava em locais que conheço, alguns dos quais importantes para mim. Sei como são os sobrados assombrados de São José, sei o que é caminhar na caatinga cerrada com o sol cozinhando seus miolos enquanto a paisagem seca de repente dá lugar a um verde luxuriante e a forma como essas leituras se somaram às minhas experiências pessoais as tornou ainda mais interessantes para mim.

Não sei se era bem esse o objetivo do pessoal do DL ao estabelecer a leitura de autores regionais, mas eu gostaria de agradecer a eles pela oportunidade que acabaram me dando com ela.

Agora... rumo à próxima etapa! Estamos já quase no final do desafio!

Nota: 4
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta
Autor: Ariano Suassuna
Editora: José Olympio
Ano: 2004
Número de páginas: 745



A Coruja


____________________________________

 

Um comentário:

  1. Conheço essa sensação de vencer uma leitura difícil. É boa pra caramba! Bjs

    ResponderExcluir

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog