21 de fevereiro de 2011

Para ler: Sangue de Tinta



Sangue de Tinta dá seguimento à aventura de Meggie e seu pai, Mo, um encadernador de livros que tem o estranho dom de dar vida às palavras dos livros que lê em voz alta, fazendo seres das histórias surgirem à sua frente como que por mágica. No primeiro volume da trilogia Mundo de Tinta, a língua encantada de Mo traz à vida alguns personagens de um livro chamado Coração de tinta, e acaba mandando para dentro da trama a mãe da menina.

Agora, neste segundo episódio, Meggie dá um jeito de entrar ela mesma no mundo fictício de Coração de tinta, onde tem o prazer de encontrar fadas, príncipes e saltimbancos que dançam com o fogo; e o sofrimento de acompanhar as artimanhas de vilões cruéis e sem misericórdia. Uma jornada sombria, repleta de fantasia e aventura.


Para ser bastante sincera, o segundo volume da saga criada por Cornelia Funke não me convenceu. O motivo é a mudança de foco - Sangue de Tinta não é mais a ode aos livros que era seu antecedente, mas sim ao próprio mundo fantástico que se encontra dentro de Coração de Tinta, o livro de onde foram trazidos Dedo Empoeirado, Capricórnio e Basta, e que tragou a mãe de Meggie, nossa protagonista, para suas páginas.

Não consigo entender a fascinação e fixação de Meggie e da mãe pelo mundo de tinta – um lugar que lhes trouxe, sobretudo, mágoa, tristeza e medo. Por mais belo que seja esse mundo, com suas fadas, e homens de vidro, gnomos e malabaristas de fogo – ele continua a ser um mundo de papel e tinta.

Acho que não me explico direito... especialmente para alguém que diz que ama Fantasia e mundos imaginários.

Há uma frase no final da trilogia Fronteiras do Universo de Philip Pullman, que explica esse sentimento: temos de criar a República do Céu em nossos próprios mundos. Interpreto essa frase da seguinte forma: é muito bom ter aventuras, ver coisas novas, sentir coisas novas. Mas, ao final da jornada, precisamos voltar para aquele que consideramos nosso lar e lá, aprender a usar aquilo que adquirimos ao longo dessas aventuras para criar nossos próprios Paraísos, por assim dizer.

Ao final de sua jornada, é necessário que o herói assuma suas responsabilidades - com o amadurecimento que teve ao longo de suas aventuras, que o preparam exatamente para esse momento.

Como leitora, eu também faço a "jornada do herói" lado a lado aos meus personagens favoritos, e então trago para o meu mundo - esse mundo real, extraordinário, magnífico, se formos capazes de enxergá-lo - a experiência dessas aventuras...

E é então que a verdadeira aventura começa.

Amo de paixão o mundo da Terra-Média criado por Tolkien em O Senhor dos Anéis, mas nunca me passou pela cabeça trocar a minha vida atual por outra dentro do livro. Se isso fosse possível, é improvável que eu entrasse na história como uma protagonista; o mais certo é que eu fosse parar na história como uma mulher simples, do povo, longe de qualquer glamour. Dificilmente eu teria a mesma liberdade que tenho na minha vida atual, especialmente num mundo claramente medieval e patriarcal.

Querendo ou não, julgamos as atitudes de um personagem por nossos próprios valores. O fato de que Meggie é, sobretudo, uma leitora, apenas aumenta a identificação - e é por isso que me decepcionei tanto com ela - e com sua mãe também. Para mim, ela não aprendeu NADA com as experiências pelas quais passou em Coraão de Tinta. Pelo contrário, de um livro para o outro ela se mostrou egoísta, arrogante e deliberadamente cruel.

Não consigo engolir que, mesmo depois de tudo o que aconteceu, de todo o sofrimento que ela viu o livro causar ao seu pai, ela se tenha lido para dentro dele.

Nenhuma das belezas ou dos momentos verdadeiramente épicos que acontecem ao longo da história pagam por essa traição. E é por isso que me recuso a ler Morte de Tinta e prefiro esquecer a história de Sangue de Tinta.

Igual a Emília, que se recusou a ouvir o final de Dom Quixote para que ele pudesse permanecer vivo e eterno em sua lembrança, para mim, essa história terminará com o ponto final da página 456 de Coração de Tinta. Então, a partir dali, Meggie passou a construir sua própria República do Céu... em seu próprio mundo.



A Coruja


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