14 de fevereiro de 2011

Desafio Literário 2011: Fevereiro - Biografia e/ou Memórias|| Confissões de um Comedor de Ópio



As águas agora mudavam seu aspecto; de lagos translúcidos, brilhantes como espelhos, se transformaram em mares e oceanos. E então, aconteceu uma grande mudança, que, ao se desenvolver lentamente como um caracol, durante vários meses, proporcionou-me um tormento infinito e não me deixou antes de ter se desenvolvido até o fim. Até então, o rosto humano já havia entrado em meus sonhos, mas não despoticamente, nem com um poder especial para atormentar-me. Mas agora, o que chamo de tirania do rosto humano começou a acontecer. Talvez parte da minha vida em Londres possa explicar isso. Seja como for, sobre as águas encrespadas do oceano começaram a aparecer rostos; o mar parecia repleto de rostos, virados para os céus, rostos implorando, furiosos, desesperados, surgidos das profundezas aos milhares, por gerações, por séculos. Minha agitação era infinita, minha mente vomitava e movia-se como o oceano.

Esse livro foi indicação de um grande amigo, o Flávio, quando ele estava fazendo o primeiro ano de psicologia. "Cara, é muito, bom, bem viajado, tem umas questões de sonho e blá, blá, blá..." Não lembro das palavras exatas que ele usou, mas, em resumo, o sentido era esse. Assim foi que Confissões de um Comedor de Ópio foi o primeiro livro de que me lembrei para colocar na lista de fevereiro do Desafio Literário 2011.

Não sou difícil de agradar. Leio de tudo um pouco e, de uma forma geral, sempre me divirto com o que estou lendo. Vou de ensaios filosófico-literários a romances de banca num mesmo dia e, de uma forma geral, sempre encontro alguma coisa, por mais viajada que seja, que me agrade.

O livro de De Quincey, contudo, é um daqueles raros volumes com o qual não fui com a cara.

Thomas foi um autor inglês... e parece que só. Nesse livro, ele conta como foi um menino prodígio, tanto que decidiu sair da escola mais cedo e ir para a faculdade - porque, sabe como é, ele sabia muito mais grego que qualquer um de seus mestres. Problema é que, menino ingênuo que era, muito dado aos livros, calculou errado seus gastos, seu orgulho e suas direções, e foi parar em Londres, onde quase morreu de fome, vivendo de favor e, de uma forma geral, não fazendo nada de útil.

Nesses anos de privações, ele arranjou uma doença estomacal terrível, que mais tarde lhe causava tantos momentos de tortura que ele começou a tomar ópio de forma medicinal - e, depois de algum tempo, de forma recreativa mesmo, em doses que, segundo os médicos de hoje, matariam um cavalo.

O que significa que ou nosso Thomas tinha uma resistência prodigiosa ou simplesmente andava tão mal das pernas com tanta droga em seu sistema que em algum ponto desaprendeu a contar.

Minha crítica nem é tanto às incongruências da história do rapaz. Posso até engolir que ele era ingênuo e inocente o suficiente para chegando em Londres e se escondendo da família com medo de ser mandado de volta à escola, tenha se enfiado por uma vida de quase mendicância, quando podia, com sua fluência em grego, ter sido tutor em alguma casa de família, arranjado algum trabalho, enfim, que o sustentasse ao menos modicamente.

Meu grande problema, foi sim a forma desapaixonada com que De Quincey escreve. Considerando as agruras pelas quais o homem passou - e eu totalmente me comisero com ele relativamente às gastrites da vida - era esperado que ele demonstrasse um pouco mais de sentimento ao falar sobre isso.

Pior: na segunda parte do livro, quando ele se predispõe a falar sobre os sonhos que o atormentaram sob efeito da droga - sonhos que deveriam ser terríveis, majestosos, coloridos ou sombrios... - céus, não é nem que ele coloca os fatos de uma forma crua, ele só... joga aquilo para cima de você de uma forma tão monótona que você é capaz de imaginá-lo lendo, com a voz sem qualquer emoção ou inflexão, mesmo ao se deparar com seus medos e pesadelos mais terríveis.

A história do rapaz tinha um potencial incrível - até pelo contexto histórico, pela situação político-internacional em torno do tráfico de ópio, que levaria a Inglaterra à Guerra dos Boxers com a China em 1899. Existia à época toda uma cultura em torno da droga, com casas para que os viciados pudessem tomá-la e passar o tempo de seus delírios em paz (ou tanto quanto é possível quando se está sob o efeito de uma droga como essa), com a aquiescência do governo e até uma certa aura de sofisticação e intelectualidade - ao menos no princípio.

Nada disso foi aproveitado por De Quincey. Vá lá que ele quisesse dar ao seu relato um tom de parecer científico - mas além de ser chato (e não posso encontrar outra palavra para classificá-lo), ele é inexato e não apresenta quaisquer conclusões. Embora durante boa parte da história faça uma apologia do vício - tanto que se diz da "Igreja do Ópio" - volta e meia ele faz um comentário sobre os efeitos mais danosos da droga, contrariando todas as benesses proclamadas anteriormente (ainda que, sendo justa, nunca adentre muito o assunto dos efeitos colaterais).

É um livro, portanto, que está no meio do caminho e não sabe bem o que deve ser - o que talvez, no final das contas, deva ser perdoado, já que De Quincey parece escrever sob efeito do ópio (que, de acordo com seu relato, lhe dá uns 'trancos intelectuais').

Ok, amigo, eu te perdôo. Mas, certamente, você não será um livro que farei questão de tirar da estante e reler.

E mês que vem é o mês dos épicos, minha, digamos assim, especialidade. Vamos dar três vivas a isso: Viva! Viva! Viva!

Nota: 2
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Confissões de um Comedor de Ópio
Autor: Thomas De Quincey
Tradução: Ibañez Filho
Editora: LP&M
Ano: 2001
Número de páginas: 146



A Coruja


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7 comentários:

  1. Adoro essa sua sinceridade... Beijoss

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  2. Lulu,
    sua sinceridade faz com que eu não queira conhecer o Sr. Thomas De Quincey.
    abs
    Jussara

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  3. Realmente, das vezes que vim aqui, é raro vê-la desgotar de um livro. Bem, até a próxima leitura! Torço para que seja boa. =D

    Beijocas

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  4. Eu ri.
    Parece ser chaaaaaaaato demais da conta.

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  5. Ah quando li o título achei interessante, mas ai chego na parte em que tu dizes que ele escreve de forma desapaixonada, e bem não tem como incluí-lo nas minhas futuras leituras. Adoro tuas resenhas, sempre te falo isso, mas hoje encontrei um ponto para ressaltar que todo blogueiro metido a resenhista, eu inclusa nessa categoria devíamos aprender, tu consegues falar de um livro que não te agradou com educação, classe, coerência, elencando as características do livro que não te agradaram, tu vais além de meros achismos na tua escrita e por isso é sempre bom ler a tua opinião.
    estrelinhas coloridas...

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  6. Que pena que você não gostou. Terei que ler esse livro (ou pelo menos trechos dele) para a faculdade, espero não achá-lo tão chato assim :P

    Beijos

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