5 de janeiro de 2010

Zumbis: fazendo a autópsia - Parte III


Se você alguma vez já jogou House of the Dead, Resident Evil ou qualquer um desses jogos populares em que você tem uma arma, carga de munição infinita e muitos alvos mortos-vivos se arrastando pela tela, você deve saber que zumbis são, basicamente, qualquer tipo de criatura (incluindo aí vermes mutantes) que têm apenas um objetivo em mente (se é que eles possuem algo como uma 'mente'), qual seja, devorar o ser movente e, de preferência, gritante, mais próximo.

Eles se movem de forma lenta (ainda bem para você), geralmente andam em grupo (não porque sejam solidários, mas provavelmente porque um número maior pressupõe uma possibilidade maior da caçada ser um sucesso), são absurdamente fortes, não sentem dor (na verdade, você pode atirar duzentas vezes no bicho; se não acertar um ponto crítico...) não são muito inteligentes (mas a essa conclusão já tínhamos chegado) e gostam de carne... de preferência, crua, tenra e humana.

Normalmente, eles são reanimados através de radiação (cuidado aqueles que morem perto da Angra 1, 2, 3 e todas as demais variantes possíveis...), substâncias químicas, vírus (essas são as alternativas mais prováveis nos casos apocalípticos), feitiços ou mesmo por castigo divino (acho que Pride and Prejudice and Zombies talvez caiba nessa hipótese...). A grande maioria é humana, mas, como eu já disse antes, podem variar, a depender do humor da equipe de direção/efeitos especiais.

O que você talvez não saiba é que todos esses elementos conjugados são resultado da Guerra do Vietnã e da mente de George Romero, o diretor do clássico de todos os filmes apocalípticos de zumbi: Night of the Living Dead.

Ou, pelo menos, é o que diz a lenda...

Agora, eu não sei se isso é totalmente verdade. Cada pessoa interpreta um filme, um livro, uma música à sua maneira - à época em que Night of the Living Dead foi lançado, muita gente torceu o nariz, classificando o filme como terror tipo B.

Mais tarde porém, analisando o filme à conjuntura social da época, há, realmente, como se traçar muitos paralelos, como a lucidez de Duane Jones à liderança de Martin Luther King, o descrédito do Estado, tão inútil para dar jeito nos zumbis quanto para resolver as coisas no Vietnã e o próprio marasmo e estagnação que os zumbis representam - porque, ao final das contas, os zumbis somos nós. Eles foram humanos.

Talvez por isso, nenhum outro dos "monstros" que povoam nosso imaginário seja tão identificado com o apocalipse (exceto, é claro, pelos quatro cavaleiros) - os zumbis falam de uma humanidade perdida e do fim de uma civilização.

Não vou fazer uma longa digressão sobre essa crítica existente (proposital ou não) nos filmes de Romero, mesmo porque, há muita gente que já escreveu (e bem) sobre o assunto. Em vez disso, remeto-os ao Meia Palavra, para que leiam o ensaio precisamente sobre o assunto, incluindo não apenas o primeiro filme, como todo o resto da franquia.

O caso é que, independente do que Romero tinha na cabeça, foi a partir de seus filmes que a idéia de "zumbis" cresceu no imaginário e na cultura pop como um todo, inclusive com essa idéia de denúncia, de crítica... o que desembocou, ao final das contas, nas chamadas "Zombie Walks".

Agora, se vocês conhecem a turma que costuma participar dessas Zombie Walks, vocês certamente ficarão surpresos em saber que, algumas dessas passeatas de zumbis tem em seu âmago a idéia de criticar alguma coisa: a sociedade consumista, os carnívoros em geral (ótima a charge do PETA no artigo passado, não?), o liberalismo, neo-colonialismo e o que mais estiver na moda combater. No mais das vezes, contudo, o povo está lá para ver e aparecer.

Seja ou não uma metáfora para a nossa sociedade atual, o caso é que os zumbis ganharam mundo pela força dessa mitologia pop, que teve seus primeiros passos dados por Shelley e Lovecraft, alcançando a dimensão que tem hoje por obra de Romero (houve, sim, filmes de zumbis antes dele - um, inclusive, com Bela Lugosi, mas nenhum tão importante historicamente para a construção do mito).

Toda essa conversa me fez lembrar Deuses Americanos, do Gaiman. São os deuses dos tempos modernos - o dinheiro, o cartão de crédito, a televisão... Um mito não é um mito apenas por sua antigüidade, mas pela importância que assume em nossa imaginação, em nossa cultura, independente de quantos significados e interpretações possa ter.

Talvez tenhamos essa discussão de novo mais para frente. É algo que merece uma série só para esse debate.

A próxima é a última parte, pessoal. Hora de tirar as pistolas e escopetas da gaveta - por último, teremos as formas de sobreviver ao cenário apocalíptico de hordas e hordas de zumbis (além de todas as coisas que você NÃO deve fazer).

Espero que dessa vez eu não fique com tendinite (resultado de ficar abaixando a pistola o tempo todo para recarregar e gastar um pente em menos de cinco segundos e ainda assim não acertar nada... acho que eu não serei uma das sobreviventes...).

(Continua...)


A Coruja


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2 comentários:

  1. Não tenho medo dos zumbis enquanto lentos.
    Agora, no caso de começarem a correr como no filme Magrugada dos Mortos, aí são outros quinhentos.

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  2. Concordo contigo 100%, Diego. Enquanto você tem fôlego para correr deles, é tudo uma beleza... Depois...

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