13 de outubro de 2018

A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada


Jane se agarrou à parede, respirando com dificuldade. Estava tonta, mas não tinha nada a ver com o lançamento, nem com a gravidade falsa nem nada disso. Aquilo tudo era demais, simples assim. O planeta era lindo. O planeta era horrível. O planeta estava cheio de gente, e essas pessoas também eram lindas e horríveis. Tinham estragado tudo, e ela estava indo embora e jamais voltaria.

Li A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil no ano passado, e foi um dos melhores títulos de 2017. Eu me apaixonei pela prosa de Becky Chambers, pelo elenco tão diverso e vibrante, pela construção de relacionamentos, e pela road trip espacial pela qual somos levados. Uma amiga comentou que terminamos a história querendo abraçar o livro, porque ele nos abraça o tempo todo da leitura e eu concordo muito com essa imagem.

Assim é que eu tinha altas expectativas para esse segundo volume da série - que não é uma continuação direta (o que seria francamente desnecessário), mas um enredo diferente que se passa no mesmo universo. E Chambers não me decepcionou, nem me deu espaço para me tornar complacente. A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada conseguiu me surpreender tanto quanto seu anterior, com um ritmo e narrativa completamente diferentes, mantendo, contudo, muitos dos mesmos temas. Isso porque, no primeiro volume, temos uma narrativa razoavelmente linear e estamos o tempo todo em movimento, navegando pelo espaço. Já aqui, os personagens estão ‘estacionados’, morando num planeta, e os capítulos alternam presente e passado para contar a história das duas protagonistas.

Começamos com Lovelace, a Inteligência Artificial que fazia parte da tripulação da nave Andarilha e que, após um acidente e uma reinicialização completa, acorda dentro de um kit - um corpo humano sintético. Lovelace não tem mais memória do tempo que passou com a nave (uma história que nos é contada no primeiro volume, mas como ela basicamente está recomeçando do zero, o leitor também não precisa ter lido aquela história. Embora eu recomende pegar o livro ao terminar esse aqui. Você não vai se arrepender) e, por questões de segurança, precisa deixar a Andarilha.

Nesse ponto entra Sálvia, uma engenheira brilhante que esteve envolvida com a transferência da IA da nave para seu novo corpo. Sálvia leva Lovelace consigo para casa, em Porto Coriol e faz de tudo um pouco para acomodá-la e começar a transição para sua nova existência, começando por um nome. Assim é que Lovelace passa a ser conhecida como Sidra. A essa altura, é importante observar que, embora a sociedade nesse universo de Becky Chambers tenha evoluído bastante em termos de tolerância com as diferenças, IA’s não são reconhecidas como seres sapientes e a transferência de Lovelace/Sidra para um corpo próprio, com autonomia, é considerado um crime na Comunidade Galáctica.

A decisão de Sálvia de ajudar Sidra, nesse contexto, é uma surpresa… até começarmos a ver a história do passado de Sálvia e o papel que uma Inteligência Artificial - algo que, segundo o entendimento geral, é um objeto, não uma pessoa - teve em sua criação.

Chambers traça constantes paralelos entre o crescimento de Sálvia - quando esta ainda era chamada de Jane 23 - e a adaptação de Sidra: seu estranhamento com a súbita mudança do ambiente com que estavam acostumadas; a forma como o mundo que elas conheciam cresce ao ponto de aterrorizá-las; a incapacidade de lidar com a falta de uma rotina estabelecida ao se verem livres; o encontro com indivíduos que se dispõem não apenas a auxiliá-las e ensiná-las, mas que também se tornam família para elas. E é nessa construção de relacionamentos que o livro nos conquista tão completamente.

Ao mesmo tempo, esse também é um livro sobre dilemas éticos. Há várias questões importantes que são colocadas no enredo, como sustentabilidade, engenharia genética, a própria ética da construção de inteligências artificiais e seu espaço social. Tudo isso de forma muito natural e sensível, fluindo sem tentativas de pontificar. Chambers consegue nos deleitar e, no mesmo fôlego, convidar à reflexão.

A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada é, mais que qualquer coisa, uma história sobre amizade. Sobre encontrar seu lugar no mundo, sobre o desafio de criar sua própria identidade. É uma história sobre compreensão e sobre construir pontes. Sobre encarar o futuro, mas também cuidar do passado. É um daqueles livros que se torna um conforto e um santuário. Algo mais que necessário em tempos como o que estamos vivendo.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada
Autor: Becky Chambers
Tradução: Flora Pinheiro
Editora: Darkside
Ano: 2018

Onde Comprar

Amazon


A Coruja


____________________________________

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog