18 de setembro de 2017

A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil

“Você já viu o quarto de Sissix?”

“Não.”

“Então, na parede dela tem uma moldura chique bem grande com um monte de penas aandriskanas penduradas. Todo aandriskano tem um desses, até onde eu sei. É que se você é um aandriskano e alguém toca a sua vida de alguma maneira, você dá uma das suas penas àquela pessoa. E você guarda as penas que recebeu dos outros como um símbolo de quantos caminhos já cruzou. Ter um monte de penas na sua parede mostra que você teve um impacto em bastante gente. Essa é uma prioridade na vida de muitos aandriskanos. Mas eles não dão essas penas por nada, tipo, só porque alguém ajudou você a carregar compras ou lhe pagou uma bebida. Tem que ser uma experiência inesquecível, mas pode ser entre estranhos.”
Logo que começo um livro novo, tenho uma mania inconsciente de começar a listar todos os clichês que podem vir a acontecer, tentando prever como a história vai se desdobrar, além de referências possíveis a outras obras. Quando comecei A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, pensei com meus botões que Rosemary ia ter um romance com o capitão Ashby (que, por razões inexplicáveis, me lembrou em Diego Luna como Cassian Andor em Star Wars: Rogue One); que Ohan provavelmente era uma homenagem a Lilo & Stitch (“Ohana quer dizer família. Família quer dizer nunca abandonar ou esquecer”) e que o enredo me fazia pensar em Wall-E (em especial no que dizia respeito aos humanos deixando a Terra após exaurir os recursos naturais); O Guia do Mochileiro das Galáxias (no primeiro capítulo de Rosemary, ela me fez lembrar muito de Arthur Dent) e Guardiões da Galáxia.

Não demorou, contudo, para compreender que Becky Chambers escrevera sua própria história e que ela era diferente de tudo o que eu esperava. Chambers me surpreendeu - muito - e sempre positivamente. Sua narrativa é um deleite: cativante, inteligente, extremamente diversa e otimista. Tenho de dizer que esse foi o melhor presente de aniversário que ganhei esse ano.

O livro começa nos apresentando Rosemary Harper, a caminho da Andarilha, uma nave de perfuração de buracos de minhoca, que servem como túneis de ligação entre diferentes lugares da Comunidade Galáctica. Rosemary, humana, está fugindo de seu passado, de alguma acusação por um crime que não cometeu, e gastou até suas últimas economias comprando uma nova identidade. Seu recomeço significa trabalhar como guarda-livros de uma nave longe de tudo o que conheceu no passado. Ao chegar à Andarilha, ela encontra uma tripulação composta de humanos e várias raças alienígenas, convivendo como uma família. Ela é imediatamente aceita nesse meio, exceto por Corbin, o algaísta responsável pelo cultivo das plantas que servem como combustível para a nave (mas Corbin não gosta de ninguém, então isso não é exatamente um problema).

A Andarilha também está para começar um trabalho novo: acabaram de serem contratados pela Comunidade Galáctica para abrir um furo às cegas - ou seja, a partir de um espaço não mapeado - entre o sistema dos Toremis, uma raça alienígena que acaba de entrar para a CG - e o Espaço Central. É um serviço complicado, que os leva à longa viagem do título, mas que paga bem e pode ser o gatilho que faltava para conseguir trabalhos maiores, melhores e que paguem mais.

E aí temos basicamente um livro road trip no espaço, que é na verdade uma grande desculpa para que Chambers explore a identidade, as diferenças culturais, e os relacionamentos entre os nove integrantes da tripulação: cinco humanos, uma aandriskana, um grum, um Sianat Par e uma Inteligência Artificial. Tudo isso sem etnocentrismo, cada um tendo seu momento de protagonista. O livro é repleto de temas polêmicos, tratados sempre com muita naturalidade: poligamia, fluidez de gêneros, homossexualismo, diferenças raciais e culturais, conceitos de família, os dilemas envolvidos na evolução de Inteligências Artificiais, política e por aí afora.

Gostaria de ter outra palavra com que me expressar que não fosse “humana”, mas, no sentido em que usamos o vocábulo, é exatamente esse o melhor adjetivo para descrever A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil. A sensibilidade com que todos esses personagens são tratados - de Lovelace (e que nome inspirado para uma AI tão legal quanto Lovey!) a Corbin (que poderia facilmente ter se tornado um vilão clichê) - é impressionante. Eu estava esperando, não sei ao certo, creio que explosões e fugas desesperadas e atitudes heroicas (o que até existe no livro) e o que descobri é que o melhor dele são os momentos em que os personagens estão apenas vivendo suas vidas, seus pequenos dramas.

Não tenho dúvidas de que esse vai ser um dos melhores livros que terei lido quando chegar o fim do ano. É para ter na estante, para reler, refletir e se encantar de novo e de novo. Embora seja o primeiro de uma série, pela sinopse dos dois outros volumes lançados, nenhuma é continuação direta desse aqui - e a história se sustenta perfeitamente bem como um volume único (o que não significa que eu não vá ler os dois outros títulos).

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil
Autor: Becky Chambers
Tradução: Flora Pinheiro
Editora: Darkside
Ano: 2017

Onde Comprar

Amazon || Cultura || Saraiva


A Coruja


____________________________________

 

4 comentários:

  1. Definitivamente é um dos melhores livros que já li na vida! Uma space opera encantadora, um livro que recomendo para qualquer um de olhos fechados. ♡

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. De fato, Caio. Se eu tivesse penas como os aandriskanos, daria uma à autora; ela certamente sabe tocar seu leitor. Quero fazer todo mundo ler agora!

      Excluir
  2. Acho que sou suspeita pra falar desse livro.

    Li o original em inglês e me encantei de tal maneira, que saí recomendando pra todo mundo e implorando pra uma editora nacional trazer esse livro para o Brasil. Felizmente a DarkSide ouviu meus apelos!

    Não só é um livro bem escrito e gostoso de ler, mas a autora nos trouxe uma incrível jornada de companheirismo, amizade, irreverência, representatividade e ciência com extrema originalidade. Reli a edição esse final de semana e só posso dizer que é um dos melhores livros que li na vida.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Então tenho que agradecer a você por ter pedido para ele sair por aqui. Só descobri que ele existia depois que ele foi publicado em português, do contrário teria ido atrás mais cedo. Estou agora ansiosa para ver mais gente lendo e debatendo.

      Excluir

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog