9 de outubro de 2015

Heróis de Papel - Capítulo 22


Capítulo 22

Meados de Março (Ano 4)

Kal,

Como de hábito, começo esta carta com meus agradecimentos. De fato, as meias não estão ganhando muito uso no momento – o clima não é exatamente propício para lã. Mas gosto das cores, e como estou cansado do ambiente monocromático que parece predominar em qualquer acampamento militar, decidi pendurá-las em minha cabeceira. São a primeira coisa que vejo quando acordo, e creio que elas ajudam a tornar os dias mais toleráveis. Seus desenhos também estão espalhados pelas paredes do meu lado da barraca – cercar-me de minha coleção de arte faz com que eu me sinta mais confortável agora que estou de volta a campo.

De fato, recebi os volumes que mandou com as cartas anteriores, enquanto eu estava fora¹. Os doces, infelizmente, não resistiram, mas os livros chegaram intactos. Estou agora com um pelotão maior e melhor organizado – temos uma base sólida aqui e até um alojamento para oficiais na cidade – mas a biblioteca ainda deixa um tanto a desejar. Portanto, adições são sempre bem-vindas.

Mudando de assunto, receio que se algo me tivesse acontecido durante minha última missão, ou no bombardeio à nossa base original, você só teria descoberto se houvesse alguma notícia nos jornais, ou tivesse procurado o comando. Uma das primeiras coisas que fiz tão logo pude me colocar em pé, contudo, foi atualizar o endereço que eu gostaria que fosse avisado no caso de me perder em combate, bem como tentar descobrir o motivo do erro da carta para Alice. Espero que não se importe por eu ter dado seu nome – a essas alturas, não tenho outra pessoa no mundo que sentiria necessidade em saber o que foi feito de mim.

Não desejo que Alice volte a passar pelo luto por minha causa, e creio que seja melhor para nós dois que nos afastemos um pouco. Por mais que eu compreenda a situação e as escolhas dela, ainda machuca, e não posso fingir o contrário. E não quero que em algum momento ela ou eu tenhamos ressentimentos um do outro.

De toda forma... O que descobri é que houve uma confusão de papéis por conta de um outro oficial com exatamente o mesmo nome que eu. Os arquivos foram misturados em alguma gaveta da burocracia militar, e ninguém percebeu o erro por quase dois anos. Foi apenas quando a família do outro Alex procurou informações – uma vez que ele não escrevia pra casa – que descobriram a troca e, a essa altura, Alice já tinha se mudado, mas eles não tinham o novo endereço dela. Você já estava registrado como morando no apartamento, e eles não tinham qualquer noção de que você tivesse algum contato comigo.

Um erro de arquivamento e tantas vidas transformadas irreparavelmente. Parece até mentira, não é verdade? Difícil de acreditar se eu não tivesse vivido as consequências desse erro.

Mas, em suma, fique certo que, se algo me acontecer, você não ficará no escuro novamente, esperando por uma próxima carta que nunca chega. Acredite-me quando lhe digo, mais uma vez, que eu só deixaria de lhe escrever se estivesse incapacitado ou morto. Então, se você se acha egoísta pela manutenção de nossa correspondência, sejamos todos egoístas: você não tem idéia de com quanta avidez espero cada nova mensagem sua.

Como já disse antes, não posso entrar em detalhes sobre tudo o que aconteceu nos últimos meses, mas isso não significa que tenho motivos para escondê-lo. Pelo contrário, contar provavelmente me ajudará a exorcizar meus demônios. Por menos social que eu seja, nunca me senti particularmente relutante em desabafar com alguém em quem confio – e existe algo ainda mais liberador em fazê-lo para alguém que teve experiências parecidas com as que tenho vivido aqui. Terei prazer em vê-lo pessoalmente para essa conversa, mesmo que ela termine por ser dolorosa.

A única coisa com que continuo a não concordar é seu apelido para o ‘clube’, vez que não enxergo nada nas histórias que me contou até aqui que demonstre qualquer tipo de desonra. Pelo contrário, se nada mais, sua narrativa sobre como ganhou seu apelido certamente demonstra o quão corajoso e humano você é.

Seja como for, do que posso dizer sobre o que aconteceu... tivemos sorte quando do bombardeio. Houve apenas três vítimas fatais, uma das quais o nosso cirurgião. Esse foi um dos motivos que resultaram em minha indicação para o grupo de inteligência – sem ele, não havia ninguém apto para afiançar minha experiência como assistente médico. O segundo motivo foi minha facilidade para línguas, incluindo a fluência em línguas e dialetos germânicos. O que é curioso dessa história é que, enquanto meus companheiros aprenderam com tutores particulares e afins, eu aprendi trabalhando com o açougueiro do nosso antigo bairro – de tal forma que minha pronúncia é muito mais natural para o tipo de infiltração que estávamos fazendo.

Enfim, nosso problema com comunicação começou com o fato de que tínhamos um informante que seria responsável por entregar nossas ordens completas – a princípio, só tínhamos os parâmetros gerais da missão. O informante não apareceu. Perdemos a chance de ir para o ponto de encontro do qual voltaríamos ao acampamento. Tínhamos um rádio que deveria ser utilizado apenas num caso de emergência – como o que realmente nos encontrávamos – mas ele não funcionou. Uma coisa atrás da outra, tudo o que podia dar errado, deu.

Buscamos refúgio numa cidade para tentar conseguir peças para nosso rádio ou transporte para tentarmos reencontrar o caminho por nós mesmos. E aí a cidade foi cercada e bombardeada por nossas próprias tropas. Mais uma vez, foi por pura sorte que nos salvamos. Ao final, fomos resgatados e levados para o hospital e, pouco depois, suas cartas voltaram a me encontrar.

É engraçado, mas quando elas me foram entregues, tive uma sensação muito parecida com a sua; como se tempo e realidade estivessem suspensos até então e subitamente voltassem ao normal.

As novidades sobre suas relações com sua vizinhança me renderam boas risadas. Tem mesmo certeza que Marianne está flertando com você, e não obedecendo a algum instinto maternal ou coisa parecida? Tentei me lembrar da impressão que tive quando a conheci, e essa foi a primeira coisa que pensei sobre ela – o tipo que gostar de adotar as pessoas ao seu redor, alimentá-las e forçá-las a se sociabilizarem, e depois alimentá-las de novo.

Claro que minha experiência com ela foi bastante breve, estando mais baseada naquilo que Alice me contava que em interações reais. E ninguém tentou me convencer a sair para dançar também.

Sei que deveria estar me solidarizando com sua situação, mas não consigo, de fato, deixar de rir, especialmente ao pensar no último desenho que fez dela. Talvez Marianne se sinta mais propensa a abrir os braços em boas-vindas para a orquestra que vocês agora têm no prédio se você improvisar algum baile e tirá-la para uma valsa.

Aliás, devo dizer que quase sinto inveja por seus novos vizinhos músicos. Por motivos óbvios, não tenho muitas (ou nenhuma) oportunidade de ir a apresentações de orquestra por aqui. Mas achei uma forma de compensar tal falta, e creio que você gostará dessa notícia.

Estou dividindo minha barraca com outro oficial com quem estive em minha missão. Nosso tempo no hospital nos levou a procurar atividades para lutar contra o tédio – dividi com ele os livros e minhas palavras cruzadas, e isso acabou por nos tornar algo próximos.

Entre as diversas atividades com que procurávamos nos distrair estava a música. Nosso hospital foi montado numa mansão que foi expropriada no início da guerra por adversários. Um dos objetos deixados para trás pela família que aqui vivia e, depois, por nossos oponentes, foi um velho e magnífico piano de cauda.

Gabriel – esse é o nome de meu colega oficial – é um bom pianista, tendo aulas desde quando era criança. De forma que começamos com alguns duetos do piano com a gaita e ele me ensinou alguma coisa também. Não estou, claro, no nível de seus vizinhos, mas tenho tocado toda vez que visito a base e passo pelo hospital.

A gaita é algo mais prático, claro, sendo possível levá-la comigo para qualquer lugar. Mas descobri que gosto das notas de um piano bem afinado e de suas teclas de marfim sob meus dedos. É uma experiência profundamente relaxante esquecer, ao menos por algum tempo, a sinfonia de bombas, tanques e tiros, e concentrar-me em música de verdade.

Mas voltemos à sua estimada vizinhança. Sobre Stephenson, eu gostaria de acreditar no melhor possível, uma vez que dificilmente viremos a descobrir o que lhe aconteceu. Talvez ele tenha de fato encontrado seus duendes, e eles o tenham convidado a visitar seu reino. Ou revelado o segredo do pote de ouro no fim do arco-íris.

(São os duendes que têm potes de ouro no fim do arco-íris, não? Ou estou confundindo os contos?).

Quanto a Eric, boas-vindas para ele e espero sinceramente que suas previsões se concretizem. Não é de hoje que se fala num desembarque total de tropas, especialmente após a guerra ter se estendido para leste. Mas estou mais propenso a acreditar que isso venha a se realizar esse ano, uma vez que temos avançado bastante, tendo reconquistado soberania tanto no mar quanto no ar. Seria um bom momento para prensar nossos oponentes entre dois exércitos, pelo leste e pelo oeste, estrangulando suas rotas de abastecimento.

Ao menos isso significa que nossos monumentos não estão mais em risco, agora que os aviões dele não conseguem passar em peso através de nossos bloqueios aéreos. Por outro lado, sinto que tenhamos perdido por aqui algumas coisas irreparáveis.

Grandes museus, igrejas e coleções particulares foram saqueadas por todo o continente. Não se sabe exatamente o que foram feitas delas, mas há relatos de grandes fogueiras para queimar obras que não se enquadram na ideologia ou estética deles – livros, pinturas e esculturas perdidas para sempre.

Quanto mais avançamos, mais horrores colocamos a descoberto. Você talvez já tenha ouvido falar nos campos de prisioneiros, mas não tínhamos idéia da dimensão que isso tinha tomado. Mais um item para acrescentar aos pesadelos que a guerra nos deixa de legado.

Não consigo me lembrar se tivemos algo como isso na guerra passada. Você, tendo sido oficial de inteligência então, poderá saber. Mas é diferente... Duas décadas atrás, fomos lançados ao conflito por um espírito de oportunismo e ambição. Agora está em funcionamento uma máquina ideológica que entende ser necessário extirpar inteiros povos, apagar sua cultura e história, salgar a própria terra de suas raízes... Capaz de tratar seres humanos como gado a ser numerado e levado para o abatedouro.

Ao ver essas coisas, é difícil não perder a fé na humanidade. Mas, ao mesmo tempo, há aqueles que se arriscam para dar abrigo às pobres criaturas vitimizadas pelo regime, que se negam a entrar pelo partido, a saudar tanta loucura. Civis, que não têm qualquer tipo de preparo para as situações em que terminam por cair.

Você me chama de herói, mas a verdade é que não faço mais ou melhor que os outros; apenas cumpro meu dever.

Passando para assuntos mais amenos... Fico contente que tenha gostado do baú. É realmente um trabalho de entalhe admirável. Seu desenho mostrando todos os presentes juntos me fez lembrar do botim de um pirata. O que acha? Poderíamos arranjar um gancho para você. Só não me faça andar na prancha.

Consegui vários novos postais para sua coleção. Meu particular favorito é o da torre com relógio. Você não pode percebê-lo pela imagem, claro, mas a torre é feita com uma pedra avermelhada, mas muito escura, e o relógio é azul com ponteiros e símbolos em prata. Foi construída pela extravagância de um antigo prefeito da cidade. Não tem qualquer uso prático porque o relógio não tem mecanismos por trás, e está sempre parado às três horas.

Seguem também duas fotos. A primeira é da praia próxima ao hospital, de onde vieram as conchas que envio também com essa carta. A segunda sou eu ao piano. Não sei se é possível me reconhecer, já que estou com a cabeça abaixada. Seja como for, a história da foto é que improvisamos no mês passado um baile no hospital para animar os doentes. Não houve muita dança por motivos óbvios – embora as enfermeiras tenham se disposto a servir de par para os que se aguentavam em pé por tempo suficiente – mas ajudou a levantar os ânimos, e a descobrir quem podemos chamar para cantar. Mais importante, contudo, é que também ficou claro quem nunca devemos permitir que sequer assobie.

Creio que isso seja tudo por hoje. Tenho a impressão de que essa talvez seja a maior carta que escrevi em nossa correspondência. Espero que ela não o entedie com tantos detalhes e divagações.

Abraços,

Alex.


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¹ No período em que Alex passou MIA (acrônimo militar que significa 'missing in action' ou desaparecido em ação), David mandou uma coletânea de peças de teatro de vários escritores britânicos, entre os quais Shakespeare e Oscar Wilde. Alex recebeu posteriormente a coletânea, mais Noite de Reis e A Megera Domada - vez que David passou a dar preferência a comédias.


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