14 de agosto de 2015

Heróis de Papel - Capítulo 14


Capítulo 14

Fim de Setembro (Ano 2)

Alex,

Vou começar com as más notícias: ainda não achei Alice. A boa notícia, contudo, é que nesse meio tempo algumas pessoas enviaram-me cartas sobre o possível paradeiro de sua amiga de infância. Eu vou avisar aqui e agora: pode não dar em coisa alguma, pode ser informação falsa ou errônea, podem ser inúmeras coisas que, no fim, poderão ser resumidas em fracasso. Não quero lhe dar falsas esperanças, mas queria que soubesse que houve alguma mudança na nossa busca. Dar-te-ei mais notícias quando puder.

Quanto aos doces, nozes e livros, não se preocupe. Nada do que enviei é particularmente difícil de conseguir nessas quantidades. Até porque, como há uma média de três meses entre cada carta que escrevo, dá tempo juntar aos poucos, vez que a maior parte dessas coisas tem longa durabilidade. Algumas outras mando somente em ocasiões especiais, de forma que nada tem sido oneroso. Agradeço a preocupação, ainda assim. Também fico feliz que lhe tenham sido úteis em mais formas que a original. Na verdade, isso me deixou verdadeiramente feliz, pois, da mesma forma que pude conhecer meus vizinhos melhor por sua causa, esses pequenos alívios puderam fazer algo parecido por você.

Assim, mando o restante das obras da “tia Jane” (ou, pelo menos, as que pude achar)¹, já que, pela sua descrição, parece que havia só aquele primeiro. Não estou, contudo, surpreso quanto à reação dos soldados às peças de teatro. ‘Tio Will’ tem a capacidade de extrair os atores em nós. Sempre tenho vontade de encenar suas peças quando as estou lendo, ou quando as termino. Mesmo na época de front, essa sensação permanecia.

Mas, por favor, sinta-se à vontade em guardar fotos ou filmagens para me mostrar depois. Adoraria poder ver o resultado. Não faço idéia da sua proficiência com a música, mas se tiver despendido pelo menos metade dos esforços que focou em seus estudos, já deve ser bastante bom. Vou, provavelmente, pedir que faça a performance de novo ao vivo, se não foi muito incômodo...

Confesso, todavia, que fiquei curioso. Obviamente, você já tem algum conforto com a gaita. Foi seu primeiro instrumento? O único? São quantos que pode usar? E, o que mais me despertou atenção... Em que momento você aprendeu? Já que estava sempre focando na escola – ao ponto de não ter amigos afora Alice – achei que fora ela quem o ensinou alguma coisa sobre o assunto.

Marianne ficou feliz ao saber que lembra dela. Disse – e preciso salientar que ela insistiu que eu pusesse nessas palavras – que “sempre o achou muito quieto, antissocial e nada receptivo... mas que seu sorriso ao lado de Alice o fazia impossível de desgostar”. Estendeu também o convite para futuras limonadas quando de sua volta, se esse racionamento permitir que ela – novamente nas palavras de Marianne – “seja permitida pelo menos a cavar limões do chão”. O problema aí é que a matéria-prima dessa bebida está entre as frutas racionadas, e, portanto, de difícil acesso. Em outras palavras, Marianne acha que somente magicamente brotando um ela o conseguiria.

Em outras notícias, que sei que ficará feliz em saber, Alice realmente é querida por aqui. Embora apenas metade dos apartamentos esteja sendo usada no momento (e, pelo que me disse Marianne, costumava ter os quatro andares lotados), quase todos os atuais residentes falam dela com carinho. É de uma forma tal que fiquei realmente curioso em conhecê-la... O senhor do fonógrafo, porém, parece que não está mais por aqui. Como ele era bastante reservado, ninguém sabe de seu paradeiro, se voltará, ou mesmo se está vivo. O quarto dele permanece vazio.

Na verdade, afora este que vos fala, existem apenas dois outros moradores novos, no primeiro andar. Um deles, curiosamente, recebeu dispensa do exército pouco antes de ser anunciada nossa participação nesta guerra. Estamos pensando em fundar o “Clube dos Oficiais Desonrados”: ele, pela perna que não lhe obedece mais, e eu, pela mão que se recusa a obedecer comandos direito. O outro “primeiroandariano”, Stephenson, ainda não achou nenhum gnomo–ou, se achou, não está contando a ninguém.

Preciso enfatizar minha tristeza com essa sua perda de perspectiva de carreira. Catador de conchas é uma profissão deveras subestimada. Dito isso, boa sorte na nova localidade. Cuide bem de si e de nossos garotos por aí, vez que a troca repentina de temperaturas certamente não os fará bem...

Em preparação para o Natal –porque acho que minha próxima carta dificilmente chegará antes disso – e da sua mudança, mando um gorro bastante eficiente em baixas temperaturas. Ia lhe mandar algo monocromático dessa vez, mas diante da brancura certa dos próximos meses, achei por bem repetir a idéia, embora ache que seja um padrão completamente diferente do presente anterior. Não sei, não lembro... e, na verdade queria mandar um suéter, mas não faço idéia do seu tamanho. Mas as meias não precisam de tamanho exato, então procurei as mais coloridas que pude achar. A atendente da loja precisou segurar o riso quando viu o que estava comprando.

Seguem também alguns rabiscos que fiz ao caminhar um pouco pela cidade, tentando passar por locais que não conhecia. Não é exatamente recomendado numa época como a que vivemos, mas precisava de um pouco de adrenalina. Perdoe-me se é inconsideração minha dizer isso, mas gostaria de estar aí com você, servindo ao país, em vez de ficar para trás sem poder fazer nada. Nunca fui capaz de ficar quieto por muito tempo, e meu irmão vivia implicando com isso. Tenho inclusive uma fotografia em que ele fez uma pose estranha e nada militar, única e exclusivamente para que eu lembrasse de não fazer isso. Mostrar-lhe-ei quando você voltar, e me seria um verdadeiro prazer visitá-los, ou recebê-los aqui.

Abraços,

David.


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¹ Anteriormente, David enviou A Abadia de Northanger. Dessa vez, ele mandou Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade e Mansfield Park, que foi os que conseguiu encontrar.


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