3 de julho de 2015

Heróis de Papel - Capítulo 08


Capítulo 08

Meados de Novembro (Ano 1)

Prezado Alex,

Não creio que teremos outra oportunidade antes da data, então, antes de mais nada, desejo-lhe um Natal pacífico. Estou respondendo à sua carta mais recente, o mais breve que me foi possível, na esperança sincera que essa correspondência chegue a tempo e lhe traga alguma alegria. Além, óbvio, dos extras, mas eu os mencionarei mais adiante.

Vou começar expressando o alívio que senti ao receber essa nova missiva. Para ser honesto, diante da simplicidade (ainda que apreciada) da anterior, comecei a achar que não lhe era mais interessante continuar essas trocas. Sua direta menção ao tema, explicitamente escrevendo o contrário, esclareceu qualquer dúvida que tivesse. Não digo isso para desencorajá-lo, e nem para fazê-lo sentir-se incomodado. Quero apenas que saiba que, também eu fico sempre na expectativa de receber suas cartas. Elas me fazem muito bem, e tenho apenas a agradecer por elas (e pelos postais).

Na verdade, os postais também se tornaram bastante preciosos. Meu serviço militar durou algum tempo, mas em sua maior parte foi gasto numa mesma região, e, basicamente, explodíamos coisas e pessoas. Assim como o seu, também não foi nada bonito. Porém, desde então, sempre foi um desejo meu voltar a ultrapassar nossas fronteiras nacionais e visitar outras, dessa vez sem o rastro de destruição que nos é comumente detestável.

Você está certo. Defender-nos é necessário, mas o que isso causa é um preço enorme a se pagar. A liberdade, a dignidade e a soberania que queremos proteger igualmente não têm cifras, mas são, ainda assim, muito caras.

Apesar disso, meu amigo, estou feliz que tenha a chance de relaxar ocasionalmente e fazer coisas simples, como olhar para o mar. Tenho certeza que não preciso contar sobre a preciosidade desses momentos. Ficarei feliz se puder dividir comigo algumas dessas experiências, inclusive por meio dos postais.

A propósito disso, esse último, com a imagem do oceano e da praia estava muito bonito. Sua mãe tinha bom gosto (e, pelo visto, seu pai também), e sou perfeitamente capaz de entender a paixão dela por esse tipo de ambiente. É calmo (na maioria das vezes), com som natural (as ondas) e sua brisa é confortável. Vi (e senti) o mar algumas vezes; é realmente um lugar de propriedades incríveis. Eu diria, até mesmo, de propriedades espirituais. Lembro-me, certa vez, de ter passado horas lá, e só me retirei porque tinha outro compromisso na data.

“Se algum dia tiver a chance,” pensei então, “pretendo ir a outra cidade costeira, e, dessa vez, aproveitar bastante o local.”

Ainda sem notícias de Alice, mas ouvi comentários (que talvez não passem de boatos) acerca de alguns documentos recuperados. Aparentemente alguns deles dizem respeito à famigerada lista de evacuados.

Quanto ao seu mecanismo de defesa, não posso julgá-lo, afinal, todos temos, em diferentes níveis, uma autodefesa assim. Nesses tempos de guerra, esse método torna-se ainda mais empregado, e não posso dizer que não se deve exercê-lo. Afinal, todos temos diferentes níveis de tolerância a perdas – entre outros fatores.

Honestamente, eu não conseguiria viver sempre isolado – mesmo você tendo me assegurado não ser esse o caso, sei bem o que é estar rodeado de conhecidos e sentir-se só ainda assim. Teremos que discordar nesse ponto: não creio que esse tipo de isolamento seja bom. Entendo a lógica por trás dele, mas não creio que relacionamentos humanos sejam puramente baseados em lógica. Pessoas precisam de outras pessoas, até mesmo para o equilíbrio espiritual. Por isso, encorajo-o a usar esse cenário horrível em que se encontra como desculpa para começar novos laços. Perder fortifica um soldado, e vencer vê-lo-á com muito mais benefícios do que inicialmente pressupunha.

Não o considero um mercenário por ter se alistado com fins de estudar. Tampouco creio que fez a escolha errada, mesmo duvidando se teria a mesma atitude hoje. Pelo que tem me descrito, eu creio que você seguiria o mesmo caminho. Provavelmente pensaria mais a respeito; certamente hesitaria (quem não o faria diante dos horrores que a guerra nos faz testemunhar ou até mesmo protagonizar?), mas acho que sua vontade prevaleceria. A meu ver, isso é que é a verdadeira coragem. É saber o quão grande é o inimigo, e, ainda assim, encará-lo por ser a coisa certa a se fazer – e se você está ganhando algo disso, melhor ainda.

Mudando um pouco o assunto, e pra finalizar, estou enviando seu presente de Natal. Não sei qual sua preferência literária, vez que não tocamos no assunto ainda, mas achei que Sir Scott¹ seria uma boa forma de começar. Gosto desse tipo de literatura, de aventuras e romances...histórias onde tudo dá errado, antes de terminar tudo bem. Acho que é uma boa alternativa à nossa atual realidade, e esse gênero sempre me ofereceu conforto assim. Espero que ele o agrade também.

Além disso, mandei também um diário, para o qual você pode desabafar nos dias de maior desespero, ou mesmo para se manter são no cotidiano das lutas. Há, ainda, doces e bolachas, e também alguns itens de proteção ao frio. Queria mandar um travesseiro decente, já que mencionou que continuam ruins, mas preciso descobrir se posso enviar-lhe um novo ou não (dessa vez não deu tempo procurar essa informação). Se souber, por favor me informe.

Os dois desenhos eu acho que você reconhecerá. Resolvi pegar o tema natalino para escolher os cenários. O primeiro é uma das avenidas do centro, ainda parcialmente vazia, mas os que estão aqui fazem questão de comemorar, e, por isso, montaram algumas árvores ao longo do pavimento. Não sei se é algo que sempre fizeram ou não, vez que poucos Natais passei na capital, e prestei pouca atenção então, mas eu achei muito bonito.

Sobre o segundo desenho, eu passei mais tempo rindo da situação, do que desenhando mesmo. Precisei comprar algumas provisões, e, no caminho, vi um rapaz tentando levar consigo uma moça, que obviamente não apreciou o convite. Era realmente notável que a garota tentava se livrar do rapaz sem causar uma cena, mas não foi possível. Um cachorro, com grinalda ao redor do pescoço e visco na coleira, veio correndo na direção dos dois. Em seguida todos os transeuntes derreteram-se em gargalhadas quando o canino abocanhou, com toda força, a traseira do rapaz, puxou-lhe as calças e, ainda por cima, passou a cheirar o homem de cima a baixo.

E o pior, as pernas dele não era as únicas coisas “em pé” (Perdoe o molhado ao canto desta folha, se não tiver secado. Chorei de tanto rir...).

Nessa nota de alegria, renovo meus desejos que seu Natal, pelo menos, seja tranquilo.

Abraços,
David

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¹ David está falando aqui de Sir Walter Scott, autor, entre outros clássicos, de Ivanhoé


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2 comentários:

  1. Sei não mas o pacote do David me pareceu muito com os que a Lulu costuma mandar, sempre recheado de coisas boas. :D

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    1. Huhauhauhua... é porque eu me inspiro nos "care packages", que são uma tradição que começou - olha só! - na segunda guerra. E o David, que ao final das contas, foi um soldado, sabe bem o tipo de coisa que faz falta quando você está no front.

      A wikipedia tem uma entrada sobre o assunto aqui: https://en.wikipedia.org/wiki/CARE_Package

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