11 de maio de 2011

Desafio Literário 2011: Maio - Livro-Reportagem || Em busca de Merlim



EM BUSCA DE MERLIM coloca em cena a verdade por detrás da famosa lenda do Rei Arthur: o mago Merlim não procedia da Inglaterra ou do País de Gales, como proclama a sabedoria popular, mas da Escócia- essa é apenas uma das decisivas revelações feitas por Adam Ardrey ao investigar uma das maiores fábulas já contadas nos cânones ocidentais. Arthur, o líder inigualável; Merlim, o sábio arquetípico; e Camelot, o suntuoso castelo, sede da Corte do Rei: costuma-se acreditar – até mesmo o autor, antes de escrever esta obra – que todos são somente figuras fictícias, sem raízes reais na História. O escritor prova o contrário.
Em uma sexta-feira no ano de 2000, Adam foi à Biblioteca Nacional da Escócia, planejando uma visita de fim de semana com seu filho à região de onde sua família emigrou para Irlanda. Encontrou um livro do século XVIII, que apontava evidências que ligavam seu destino e sobrenome aos de Arthur, o mítico herói. Sua conexão direta com a lenda o levou a escrever esta narrativa embasada por consistentes revelações. As inesquecíveis personagens das histórias de cavalaria são agora colocadas em um cenário ao sul da Escócia, no final do século VI e início do VII (e não em meados do século V, como é dito tradicionalmente).

Do momento de sua morte até os dias de hoje, Merlim teve seus registros históricos suprimidos e alterados pelos escritores cristãos, e sua verdadeira origem e importância obscurecidas pelas calúnias de que seria louco. Por sua vez, Languoreth, sua irmã gêmea, tão inteligente e poderosa quanto o mago - mas uma grande ameaça ao poder da Igreja e do Estado - foi simplesmente banida da História, e sua existência, praticamente apagada.

EM BUSCA DE MERLIM recupera a verdade apagada nas lendas. O passado é examinado com precisão e cautela: os lugares onde Merlim nasceu, viveu, morreu e foi enterrado são identificados, assim como as pessoas que o cercavam, como Mungo, o terrível rival fanático, e Arthur, o amigo herói. O autor garimpa documentos e fontes históricas, identificando os elementos fictícios que foram introduzidos. E conclui: “não havia mais magia no século VI do que temos agora”. A história do sábio paladino foi incorporada à indústria cinematográfica e à literatura mundial, onde múltiplas versões criativas confluem no obscurecimento dos fatos. Da Idade Média até hoje, não pararam de surgir lendas e personagens que alimentam o imaginário ocidental. Porém, o Merlim buscado ao decorrer das páginas da obra é outro: ao descobrir a realidade por detrás da ficção, Adam Ardrey tira o mago das páginas da lenda e o coloca, agora sim, na História.
Encomendei esse livro na empolgação, quando estava escrevendo meu especial O Único e Eterno Rei, sobre o ciclo de lendas arturianas, seus antecedentes e desdobramentos. Infelizmente, o volume só chegou depois que já tinha terminado de escrever – e depois de passar semanas em cima de textos e iluminuras medievais e duzentas mil versões diferentes de uma mesma história, precisava de algo diferente.

Joguei então o volume para a lista do Desafio Literário 2011 – alguns meses e certamente eu estaria curada da minha ressaca arturiana. Contudo, quando o livro chegou, de cara fiquei com o pé atrás ao ver a propaganda na capa: “a verdadeira história de Merlim, que os cristãos primitivos ocultaram”.

À medida que ia lendo, ia ficando com os dois pés atrás.

Eu teria adorado o livro se Adam Ardrey tivesse apresentado sua história como uma nova hipótese, procedendo então a revelar suas descobertas, relacionando-as com os textos mitológicos, os romances, as coletâneas canônicas.

O livro assume, contudo, um tom sensacionalista – algo como aqueles testes de paternidade e programas de auditório. Ele começa a metralhar acusações para todos os lados, formando uma grande teoria da conspiração que não é apenas óbvia, como já muito martelada e cansativa.

Seguinte... a Igreja Católica sempre foi manipuladora. Estudantes de marketing deveriam estudar a fundo as técnicas dela de manipulação e propaganda, porque, sejamos sinceros, eles são Ph.D no assunto.

Mas a sublimação da cultura celta – e druídica – correu por obra e graça dos romanos, numa época em que os cristãos faziam parte da indústria de entretenimento do Império, servindo como ração para as feras no Coliseu.

Não podemos esquecer também que a cultura desse povo era fundamentalmente oral. Eles não deixaram para trás nem mesmo um alfabeto estranho que pudesse eventualmente ser desvendado com uma Pedra de Rosetta.

Assim, tudo o que sabemos sobre os celtas, os druidas – e por tabela, Merlim, que, acredita-se, pertencia a essa cultura – é baseado em relatos de segunda mão... de romanos. Os monges cristãos só aparecem na figura um pouco mais tarde, de modo que os relatos dele já são relatos de terceira mão – o processo já tinha começado e estava bem adiantado.

Além disso, há o detalhe de que, a despeito de todas as figuras históricas que se apontam como sendo “O Verdadeiro Arthur” – e, por conseqüência, o verdadeiro Merlim – existem relatos sobre nosso querido rei muito anteriores a Monmouth, parte do ciclo de lendas celtas que antecede as datas que Ardrey usa em seu livro.

Essa, porém, nem é a questão mais problemática. Uma vez que tais fatos – se são fatos – ocorreram há tanto tempo que perderam suas origens, qualquer teoria pode ser apresentada. Mas veja bem, qualquer teoria; não verdade absoluta. Historicamente falando, as afirmações absolutas de Ardrey só poderiam ser feitas se ele tivesse encontrado documentos escritos pelo próprio Merlim – e mesmo assim com muitas ressalvas, porque não há ninguém que possa comprovar - que esteve lá - que tal documento é verdadeiro.

Ok, esqueça isso. Se Merlim era druida e druidas não transmitiam seus conhecimentos de forma escrita, um livro escrito por Merlim seria uma completa contradição.

A teoria levantada por Ardrey em seu livro é válida; interessante o suficiente para levarmos em conta. Mas é, como não deixei de repetir, uma TEORIA, não a verdade revelada por ordem e graça divina – que é a impressão que temos pelo tom empregado na narração da pesquisa do autor.

Eis um Merlim possível, enfim. Se verdadeiro, porém, aí já é uma ouuuutra história...

Nota: 3
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Em busca de Merlim
Autor: Adam Ardrey
Tradução: Rafael Aragon Guerra
Editora: Record
Ano: 2010
Número de páginas: 380



A Coruja


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2 comentários:

  1. Báh tenho verdadeiro pavor de autores que pensam que suas hipóteses e teorias são verdades absolutas... e esse tom de revelação divina?! Deixa a minha mente já cansada de tanta bobagem totalmente exausta... adorei o texto, esta tua característica de escrever sobre a obra sem depreciá-la é uma busca constante.
    estrelinhas coloridas...

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  2. Show de construção analítica e de encadeamento de ideias.

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