23 de março de 2011

Para ler: Era uma vez, há muito tempo atrás



Throughout history, from medieval workshops to loft rehabs in the E.U., we Poles have always been known by our zlote raczki, our golden hands. The ability to fix wagons and computers, to construct Enigma machines and homemade wedding cakes, to erect village churches and American skyscrapers all without ever opening a book or applying for permits or drafting a blueprint. And since courting a beautiful girl by using a full range of body parts has only recently become acceptable, in the spring of 1939 the Pigeon made the solemn decision to court Anielica through his hands. Specifically, he vowed to turn her parents’ modest hut into the envy of the twenty-seven other inhabitants of Half-Village, into a dwelling that would elicit hosannas-in-the-highest every time they passed.
Besides Jakub, the Pigeon had eight sisters, who had taught him the importance of a clean shirt and a shave, and so the next morning before dawn, he donned his church clothes, borrowed his father’s wedding shoes, and made the long walk over two hills and three valleys to the Hetmanski family door. He knocked and waited patiently on the modest path, overgrown with weeds and muddy with the runoff from the mountain, until Pan Hetmanski finally appeared at the door.

"Excuse me for bothering you so early in the morning, Pan, but I was wondering if Pan wouldn’t mind if I made some improvements to Pan’s house. For free, of course."

"You want to make improvements to my house?"

"For free."

"And what did you say your name was?"

"Everyone calls me the Pigeon."

Pan Hetmanski stood in his substantial nightshirt and rubbed his chin thoughtfully. "And exactly what improvements did you have in mind?"

"Well, take this path for one, it could be paved . . . and there could be a garden wall to keep out the Gypsies . . . and glass could be put in these windows . . . and a new tin roof, perhaps."

Pan Hetmanski suppressed a smirk. "For free, you say." Another man might have been offended rather than amused, but Pan Hetmanski was a highlander and not a farmer, and thus more concerned with enjoying his plot of land than with working it. Besides, there had been enough young men lurking around lately to make him aware of what the Pigeon was up to, that the request was not to work on the hut, but to work somewhere in the vicinity of his fifteen-year-old daughter, Anielica. At least this one had the decency to come to the door and offer something useful.

"And how do I know you will not make rubble of my house?"

"If you would like to see my work, I can take you to my parents’ house. I did a complete remont last summer."

"And you will work for free."

"Yes, Pan."

"And would this have anything to do with my daughter?"

"I will leave that up to Pan. In time, of course."

"I’m not going to help you with any of the work."

"Of course not, Pan."

"And if you touch her I will throw you off the mountain and let the wild boars gnaw your bones."

"Of course, Pan."

"And if you make up stories about touching her, I will cut out your tongue and my wife will use it as a pincushion for her embroidery needles."

"That won’t be necessary, Pan."

The others had been easily scared away by such talk, and as Pan Hetmanski stood in the doorway scowling at the Pigeon, he regretted that he had not answered the door with a knife or an awl in his hand to appear more threatening.

Brigid Pasulka – Era uma vez, há muito tempo atrás...
Passaram-se mais de quatro meses entre a compra e a chegada desse livro nas minhas mãozinhas. Tal foi a epopéia pela qual o bendito volume passou para chegar até aqui que acabei por dar prioridade a ele na “fila de espera” dos livros que estão na estante.

Tendo chegado ao fim dele, o primeiro comentário que devo fazer é... a espera valeu à pena.

Era uma vez, há muito tempo atrás..., como já se percebe do título, tem um quê de conto de fadas. É uma história incrivelmente delicada... e triste. Encantadoramente triste.

Ok, isso provavelmente soou estranho, então me permitam tentar explicar: este é aquele tipo de livro que faz você sorrir por entre lágrimas... que te deixa de coração apertado e ao mesmo tempo te enche de esperança...

A história é narrada em dois tempos, alternando-se a cada capítulo. Começamos com a Polônia do final da década de 30, quando o país é invadido pelos nazistas – no lance que daria início à 2ª Guerra. Nesse cenário, temos o jovem Pombo, que se apaixona à primeira vista por Anielica, a garota mais bonita das redondezas – beleza suficiente para que em anos vindouros, seu nome ter virado até adjetivo.

Num lance à la Jacó, que serviu como pastor a Labão para conseguir a mão de Raquel, Pombo se oferece ao pai de Anielica para reconstruir a casa da família, totalmente de graça, com a habilidade de suas ‘mãos de ouro’. E enquanto trabalha, aos poucos o rapaz vai entrando no coração de toda a família, incluindo, caro, de Anielica.

O ‘não-namoro’ dos dois é um dos desenvolvimentos românticos mais lindos que já vi, suave e ao mesmo tempo espirituoso, sem nunca cair na pieguice.

Na verdade, todos os personagens do romance são singulares, emocionando e provocando o leitor. A forma como a autora conta a história nos dá a impressão daquelas narrativas que ouvimos na mesa do almoço de domingo em família, em que todos se sentam para compartilhar não apenas a comida, mas também reminiscências – e volta e meia alguém interrompe para acrescentar alguma coisa e todo mundo explode em gargalhadas ou arregala os olhos à espera do resto.

Essa é a melhor forma de caracterizar esse livro: uma história que nos pertence como uma memória familiar; cujos fios se entremearam para criar nossa própria existência.

Claro que essa ‘memória familiar’ da obra de Brigid Pasulka é colorida com as tintas da Polônia, com seus costumes e suas paisagens – como a formação rochosa chamada ‘Napping Knight’:
The Napping Knight was the optimists’ name for the Sleeping Knight, a rock formation and legend that is believed to wake in times of trouble to help the Polish people. After being thoroughly tuckered out by the Tatars, Ottomans, Turks, Cossacks, Russians, Prussians, and Swedes, however, it hadn’t risen in some time, and would, in the years of Nazi occupation, also come to be known as the Oversleeping Knight, and later, during the Soviets, the Blasted Malingering Knight.
Essa é uma das minhas passagens favoritas do livro, e é um bom exemplo do humor que permeia o livro – mesmo quando as coisas começam a se tornar mais sombrias, quando os nazistas e depois os soviéticos ocupam o país.

A segunda história ou linha narrativa se passa cinqüenta anos depois, na Polônia da década de 90, já desocupada. A narradora é Beata, apelidada de Baba Yaga, neta de Pombo e Anielica. O avô desapareceu anos antes e ninguém sabe se vivo ou morto; os pais morreram e a avó também acaba de falecer, de forma que ela vai para a Cracóvia, onde Pombo e Anielica viveram após se casarem, ao final da guerra.

Beata tenta encontrar seu lugar no mundo e sua própria identidade, guiada em parte pelas histórias que ouviu a vida inteira da avó, e em outra pelos vínculos que forma como as primas, Irena e Magda. Mas como encontrar uma identidade para si mesma numa nãção que ela mesma, não se reconhece, que, como a história da família de Beata, fraturou-se em algum ponto do caminho?

Historicamente, a Polônia foi um país em constante 'transferência'. Sua posição no mapa europeu é estratégica, encravado entre potências do leste e oeste, representando também um importante porto e saída para o mar (motivo pelo qual fazia parte do 'espaço vital' de Hitler). Na verdade, considerando o número de vezes que a Polônia foi invadida e conquistada, é até um espanto perceber que ela possua uma identidade cultural.

Mas ela está lá. Nos detalhes. No encontro de duas gerações, quando uma história interrompida reencontra seu eixo.

Era uma vez, há muito tempo atrás... não é exatamente um livro de finais felizes. Mas é uma história que vale muito à pena, um romance que combina uma história de Amor (com 'A' maiúsculo mesmo) das mais belas e permanentes que já vi, e o esforço de um país em encontrar e entender seu passado.

Recomendadíssimo.



A Coruja


Arquivado em

____________________________________

 

Um comentário:

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog