5 de janeiro de 2011

Desafio Literário 2011: Janeiro - Literatura Infanto-Juvenil || A Filha do Fabricante de Fogos de Artifício

Quinze mil quilômetros atrás, em um país a leste da selva e ao sul das montanhas, viviam um Fabricante de Fogos de Artifício chamado Lalchand e sua filha Lila.

A mulher de Lalchand morrera quando Lila era pequena. A menina era um toquinho de gente mal-humorado, sempre chorando e fazendo birra para comer, até que Lalchand construiu um berço para ela e o pôs num canto da oficina, de onde ela podia ver as fagulhas brincando e ouvir os silvos e os estalidos da pólvora.

Assim que saiu do berço, ela ensaiou seus primeiros passos pela oficina, rindo quando o fogo brilhava e as fagulhas dançavam. Muitas vezes queimava os dedinhos, mas Lalchand borrifava-lhes água e dava um beijinho no dodói, e logo Lila estava brincando de novo.
Nunca sei bem o que esperar de Philip Pullman. Por um lado, o cara escreveu uma das maiores - ao menos eu considero - obras da ficção fantástica (e se você ainda não leu a trilogia Fronteiras do Universo... Shame on You!). Por outro, até hoje não consigo engolir o final de A Borboleta Tatuada; e se amei de paixão Sally e o Mistério do Rubi (que indico e recomendo para qualquer um que goste de romances policiais na Era Vitoriana), só terminei Sally e a Sombra do Norte por pura teimosia.

A única coisa que posso afirmar com absoluta certeza é que jamais fui indiferente a um livro de Pullman - ou os amo ou os detesto. O cara é polêmico, vamos convir: ateu assumido, a Igreja Católica torce o nariz para ele (não duvido que se pudessem, empurravam-no para a Fogueira) - aliás, seu último título lançado foi O Bom Jesus e o Infame Cristo e por aí já dá para ter uma idéia de que Pullman gosta de jogar uma lenha na fogueira ele mesmo...

Por todos esses motivos, quando fui montar a agenda do Desafio Literário 2011, não tive dúvidas em meter o Pullman no meio - hesitei apenas entre escolher O Espantalho e seu Criado e este título.

Ao final das contas, creio que fiz uma boa escolha. Eu gostei bastante de A Filha do Fabricante de Fogos de Artifício: há um elemento de exótico, de diferente nela, que me faz lembrar o estilo de Kipling. Se bem que eu me remeto a Kipling toda vez que vejo uma citação à Índia, vá entender porque...

Ela também tem um certo tom de fábula, especialmente pela parte do grande elefante branco falante, Hamlet (e posso morrer de rir com o fato de que batizaram um elefante melancólico com esse nome?).

Esse tom, esse sentido do exótico é realçado ainda pelas ilustrações de Nick Harris, num traço cheio, rápido, meio pesado, perfeito para a história que conta.

Estou tentando aqui arranjar uma maneira de explicar como me senti com a leitura desse livro. Não sei, acho que... bem, vocês já tiveram a impressão de, enquanto mergulham numa história, sentirem o gosto, o cheiro, o som daquela história? Foi isso que Pullman fez nessa sua pequena fábula: minha impressão era de sentir o cheiro e o gosto de especiarias (com uma pitada de fumaça da grelha da Rambashi?) e de ouvir a música que as dançarinas acompanhantes dos cortejos dançavam.

Lila, a personagem do título, cresceu na oficina do pai, um artesão dos fogos de artifício. Fascinada por aquele universo, desde pequena ela demonstra claro talento para os negócios da família, sendo capaz de, sozinha, criar seus próprios fogos. No entanto, quando fala com o pai sobre o assunto, o velho se assusta, e diz que ela não pode ser uma fabricante de fogos; ela tem de casar.

Claro que a menina se revolta com a idéia e, graças à ajuda de Chulak, o garoto responsável por cuidar do elefante branco do rei, Hamlet, ela descobre que para se tornar uma legítima fabricante de fogos, precisa passar pela prova do demônio do Monte Merapi, Ravazni.

O problema é que quando Chulak engana o pai de Lila para que ele revele o segredo, o velho Lalchand não lhe conta tudo e é assim que a menina parte sem saber o detalhe mais importante para sua proteção.

É claro que o rapazinho decide ajudar a amiga, afinal, ela se meteu na enrascada, em parte, por causa dele. O problema é que Chulak é guardião de Hamlet, um magnífico elefante branco que pertence ao rei. Elefantes brancos são raros e muito caros de se manter: dormem em lençóis de seda, precisam ter suas presas folheadas todos os dias a ouro e comem toneladas de sorvete de manga - quando o rei está zangado com algum de seus nobres, ele manda o elefante como presente para o mesmo e o esforço para manter o animal acaba levando o dito à falência.

Exceto pela parte dos lençóis de seda, presas folheadas a ouro e sorvete de manga, o resto da história é mais ou menos verdade. Diz-se que no antigo Sião (hoje Tailândia), os elefantes brancos, como animais raros e sagrados, pertenciam ao rei quando encontrados. Na hipótese de um cortesão cair em desgraça com o rei, este lhe enviava o animal, que, claro, tinha de ser alimentado e bem cuidado, o que custava uma fortuna e acabava por arruinar o personagem.

Aliás, há um conto de Mark Twain, O Roubo do Elefante Branco, em que o rei do Sião dá um animal desse tipo à Rainha Vitória - e o bicho desaparece no meio do caminho.

Não me perguntem como um elefante simplesmente desaparece, especialmente um que é um presente para a Rainha da Inglaterra. Leiam o conto, morram de rir e depois venham comentar comigo. Twain é domínio público, não deve ser difícil encontrá-lo no google.

E eu saí completamente do assunto dessa resenha...

O caso é... Chulak acaba por fugir com Hamlet - que, além de elefante branco, ainda era falante (mas só entre conhecidos) - para encontrar Lila - fuga essa que já vinha sendo planejada, até porque Hamlet não gostava muito do estilo de vida que levava.

A crítica que posso achar para fazer ao livro é... ele é muito curto. Li o volume todo em menos de uma hora, enchendo de detalhes as entrelinhas, e já imaginando continuações e desdobramentos. A questão é que esse livro é voltado para um público mais jovem, e alongá-lo além do que ele já vai, reconheço, seria pura lingüiça.

Se algum dia eu tiver filhos - num futuro ainda muito, muito distante - esse seria um livro que eu gostaria de ler em voz alta para eles, fazendo as vozes de cada personagem e quem sabe até improvisando uma completa encenação.

Talvez eu faça isso para minhas sobrinhas da próxima vez que viajar para vê-las, quem sabe? Só não sei quem mais se beneficiaria da experiência - se eu ou elas...

Nota: 5
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: A Filha do Fabricante de Fogos de Artifício
Autor: Philip Pullman
Tradutor: Heloisa Maria Leal
Ilustrações: Nick Harris
Editora: Bertrand Brasil
Ano: 2007
Número de páginas: 112


A Coruja


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12 comentários:

  1. Fico mal quando entro no seu blog e vejo todas essas dicas maravilhosas de leitura porque sei que mal tenho tempo para os livros que já estão na minha lista, que dirá para os que descubro aqui! aahuahuahuahauhau

    Sinceramente, acho você incrível por dar conta disso tudo.

    Anyway, deixei um selinho no meu blog pra você =)

    beeeeijos e feliz ano novo!

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  2. Que resenha massa, Lulu! Gosto quando alguém comenta que amou deste ou odiou aquele livro de um mesmo autor... se eu gosto de UM livro da pessoa, vou querer ler TODOS! Rs.
    Po, eu quero leer!! \o/

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  3. Acompanho seu blog mas fico em off só lendo. Hoje não me contive e resolvi comentar: é um dos blogs literários que resenha de forma mais fiel e cativante que eu já vi! Sério, eu quase senti daqui o clima do livro. Meus parabéns pela forma como escreves e transmites para os teus leitores, nós só podemos agradecer!

    Super abraço!

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  4. oh-oh, mais um pra lista de "tenho de ler"!

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  5. Fascinante interpretação da obra, tão legal quanto ler é instigar leitores potenciais. Muito bom, Lu!

    Bjs

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  6. Gostei do livro e das dicas!!!! Muito boa resenha!!!! Beijos

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  7. Báh eu adoro o tom das tuas resenhas! Eu tenho uma relação de amor e ódio com o Pullman, e a Filha do fabricante... é um dos que amo, achei ele encantador, e ó eu li para o meu guri, bem assim em voz alta e fazendo vozes diferentes, ele adorou.
    estrelinhas coloridas...

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  8. Adoro esses títulos estranhos...um dia com certeza vou ler esse.

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  9. Sua resenha ficou muito boa. Você nos envolve não história, mesmo sem conhecê-la.
    Parabéns pela leitura e pela indicação do livro!

    Abs, Rê

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  10. Haaa vc leu esse livro, nossa como queri mesmo ver uma opinião sobre ele... agora vou correr para ler...

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  11. Adorei a sua resenha! Que livro maluquinho... hehehe
    Bjs

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  12. Shame on me, nunca li nada dele. Mas esta na lista! E este com certeza vai entrar também!
    Adorei a resenha, obrigada.
    Beijocas

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