18 de novembro de 2010

Meme Literário: Dia 18 – um início de livro que você gosta




De todos os começos de livro que já li, o mais curioso, mais surreal, mais estranho, mais deliciosamente subversivo que encontrei foi o prólogo de A Cor da Magia, de Terry Pratchett, em que ele nos introduz ao mundo de Discworld.

E como você não poderia sair correndo atrás de todos os outros livros do autor depois de um começo como esse?


NUM DISTANTE CONJUNTO DE DIMENSÕES de segunda mão, num plano astral que não fora destinado a voar, a névoa estelar flutua e se dissipa...

Veja...

Grande A’Tuin, a Tartaruga, surge lentamente nadando pelo abismo interestelar, com gelo de hidrogênio nas patas pesadas e crateras meteoríticas na enorme e primitiva carapaça. Com olhos do tamanho de oceanos cobertos de lágrimas e poeira de asteróide, olha fixamente para o Alvo.

No cérebro maior do que uma cidade, e em lentidão geológica, Ela pensa somente no Peso.

É claro que a maior parte do peso se deve a Berilia, Tubul, Grande T’Phon e Jerakeen, os quatro elefantes gigantescos cujos ombros largos e bronzeados pelos astros sustentam o imenso mundo do disco, o Discworld, rodeado pela longa queda-d’água em sua vasta circunferência e coroado pela abóbada azul-bebê do Paraíso.

A astropsicologia ainda não conseguiu determinar o que pensam os quatro animais.

A Grande Tartaruga era uma mera hipótese até o dia em que o pequeno e obscuro reino de Krull, cujas montanhas se projetam sobre a beira, construiu uma enorme grua com roldanas na ponta do penhasco mais íngreme e por esse mecanismo vários observadores desceram pela Borda, numa nave de bronze com janelas de quartzo, para que enxergassem através da cortina de névoa.

Os antigos astrozoólogos, puxados de volta por enormes grupos de escravos, conseguiram retornar com muitas informações acerca da forma e da natureza de A’Tuin e dos elefantes, mas isso não resolveu questões fundamentais da essência e do propósito do universo.

Por exemplo, qual era afinal o sexo de A’Tuin? Essa pergunta vital, diziam os astrozoólogos cada vez mais respeitados, só seria respondida quando uma grua maior e mais potente fosse construída para uma nave espacial. Enquanto isso não acontece, podiam apenas especular sobre o cosmo.

Havia, por exemplo, a teoria de que A’Tuin viera de lugar nenhum e continuaria a se arrastar de maneira regular, em marcha constante rumo a lugar nenhum, para todo o sempre. A teoria era muito bem-aceita entre os acadêmicos.

Uma alternativa, preferida pelos religiosos, era a de que A’Tuin rastejava do Lugar de Origem à Época de Acasalamento - bem como todas as estrelas no céu, obviamente também carregadas por tartarugas gigantescas. Quando chegasse o momento, se acasalariam com enorme paixão e por pouco tempo, pela primeira e última vez. Dessa ardente união nasceriam novas tartarugas, que originariam novos modelos de mundo. Essa hipótese era conhecida como Big-Bang.

E foi assim que um jovem cosmoquelônio da facção Marcha Constante, testando o novo telescópio com que esperava medir as dimensões exatas da córnea do olho direito de A’Tuin nessa noite agitada, acabou sendo a primeira pessoa de fora a ver fumaça subir em direção ao Centro, vinda do incêndio da cidade mais antiga do mundo.

Naquela noite, mais tarde, o jovem se viu tão compenetrado nos estudos que se esqueceu completamente do ocorrido. Não obstante, ele foi o primeiro.

Houve outros...


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E aproveitando o ensejo já que estamos por aqui, não deixem de participar da pesquisa de opinião para o balanço de final de ano de D. Lulu!





A Coruja


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3 comentários:

  1. Realmente, é um início de livro bastante... peculiar. A única coisa que eu pensei quando li isso foi "WTFH?!?!". =P

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  2. Desculpa, mas não vou ler esse post.
    Tô sem dinheiro e não quero sofrer de vontade de ler todos os livros do Terry Pratchett

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  3. '-'
    Só pra constar, criei um blog tbm:
    http://shithappensbr.blogspot.com/

    Diz o que acha :)

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