27 de agosto de 2010

Clube do Livro (Agosto) - O Menino do Pijama Listrado



O aniversário do pai estava chegando, e, embora ele tivesse dito que não queria estardalhaço nenhum, a mãe preparou uma festa para todos os oficiais que estavam servindo em Haja-Vista, e houve grande estardalhaço nos preparativos. Toda vez que ela se sentava para fazer mais planos para a festa, o tenente Kotler estava ao seu lado para auxiliá-la, e os dois pareciam fazer listas e mais listas, muito mais do que seriam necessárias.
Bruno decidiu fazer sua própria lista. Uma lista de todos os motivos pelos quais ele não gostava do tenente Kotler.

Antes de tudo, havia o fato de que ele nunca sorria e sempre parecia procurar alguém para esfaquear de acordo com sua vontade.


John Boyne - O Menino do Pijama Listrado

Eu geralmente vou muito pelos detalhes dos livros que leio - serei sincera: sou uma leitora chata, do tipo que presta atenção em cada mínimo ponto e gosta de fazer referências cruzadas e teorizar sobre as idéias originais do autor.

Obviamente que faço o mesmo aqui.

Para começar, o título original é O menino do pijama listrado: uma fábula. Não é isso que está no título da capa, mas se vocês olharem aquela parte em que tem a catalogação do livro, vão descobrir esse pequeno, quase mínimo detalhe.

O que nos leva a perguntar... porque o autor chamou sua história de fábula? O que é uma fábula?

Fábula (latim fari + falar e grego Phaó + dizer, contar algo) é uma narração breve, de natureza simbólica, cujos personagens por via de regra são animais que pensam, agem e sentem como os seres humanos. Esta narrativa tem por objetivo transmitir uma lição de moral.


Realmente, o livro é uma narrativa breve - o autor diz em algum lugar que levou exatamente dois dias e meio para escrevê-la por completo. Mas ela tem uma lição de moral, além da que "meninos curiosos acabam na câmara de gás?". Qual a natureza simbólica da história?

Lembro que a Belle, quando fez a indicação do livro para o clube, falou algo sobre amizade. Talvez então, essa seja uma fábula sobre amizade, uma história sobre a capacidade de fazer amigos, de lealdade, de caridade, solidariedade. Mas, no único momento em que Bruno poderia ter sido fiel a sua amizade, quando questionado pelo tenente Kotler na cozinha, ele se acovarda.

Qual pode ser a moral da história? Qual a moral de uma guerra? Guerras, supostamente, são meios para se chegar a um fim. Que fim? A reparação de um erro? A segurança de um povo? A ambição de um governante?

Não acho que o livro seja uma fábula, do ponto de vista que não existe uma moral na guerra. A guerra, nas palavras do Padre Antônio Vieira, é "aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e, quanto mais come e consome, tanto menos se farta". Essa foi uma das melhores definições que encontrei quando escrevia minha monografia que, surpresa, surpresa: era sobre direito de guerra.

O que me surpreende é a forma como Bruno mantém sua inocência pueril morando nada mais nada menos do que em Auschwitz. Aliás, eu gostaria de me bater publicamente por só ter me tocado disso quando Gretel disse a Bruno que ele pronunciava o nome do lugar errado; não era "Haja-Vista". Havia tantas pistas: Shmuel dizendo que estavam na Polônia, a data da inauguração do campo no banco, junho de 1940 - o lugar foi inaugurado em maio, mas foi só em 14 de junho que chegaram os primeiros prisioneiros políticos polacos.

Não entendo como ele, especialmente sendo filho de um comandante da SS, não tivesse noção de quem eram os judeus, de como eles "poluíam" o espaço vital alemão, como eram culpados de todas as vergonhas que a grande Alemanha fora obrigada a engolir com o Tratado de Versalhes de 1919 e como o Führer estava levando-os de volta à glória de seus primeiros dias. Não entendo como ele não foi capaz de compreender o quão errado era tudo o que estava acontecendo quando Kotler esfaqueou Pavel na sala de jantar e ninguém disse ou fez nada (fica nas entrelinhas que o Kotler esfaqueou Pavel... e que estava tendo um caso ou estava a caminho disso com a Mãe de Bruno também. Ou é coisa da minha cabeça?).

Afinal, a juventude ariana era doutrinada desde muito criança - porque é de pequeno que se torce o pepino. Eles eram ensinados sobre sua herança e sobre a 'corja' judaica na escola. Por isso o ensino de História e Geografia era tão importante.

A perseguição de Hitler aos judeus não começou de um dia para o outro e era parte da educação básica dos alemães. Não é à toa que se estuda Hitler e o nazismo quando se fala de comunicação e influência das massas. Sério, conhecendo historicamente a época e período, a idéia de Bruno, com nove anos de idade, sem saber sequer o que são judeus, é ridícula. Vejam, a solução final, as câmaras de gás, começaram a funcionar em Auschwitz na primavera de 1942, de modo que dá para localizar a história por volta dessa época. Ora, estamos no auge da guerra, e a Alemanha está vencendo na Rússia - o que explica bem os mapas de Gretel e a marcação do avanço das tropas. Mais do que nunca, há o enaltecimento da raça ariana.

Assim, eu posso aceitar que, pela idade, Bruno não compreenda o que significa a diferença entre judeus e arianos e a importância do que está acontecendo; mas que ele sequer saiba o que são judeus; esse detalhe histórico é, sim, inverossímil.

Claro que funciona - e bem - para o livro e, de uma forma ou de outra, são escolhas que o autor fez para poder contar sua história. Ele consegue emocionar, consegue passar esse tom de inocência. Mas, à época, num ambiente como descrito ali, tal completa inocência seria impossível de se reter.

Acho que esse talvez seja um dos motivos pelos quais houve uma série de críticas pesadas em cima do filme. Lembro de alguma coisa nesse sentido quando o filme saiu; mas não o assisti, então, não tenho uma opinião formada.

Falando em filmes, Bruno me fez lembrar de Giusoé, de A Vida é Bela, que vive também numa fábula, num mundo fabricado por seu pai, Guido, para preservar sua inocência. Mas no filme de Benigni, tal farsa é ativamente perseguida pela figura do pai, ao passo que a ignorância de Bruno é de sua própria lavra. Ele não tem capacidade de enxergar - não porque seja muito novo, porque, ao meu ver, não subsiste inocência em tempos de guerra; mas porque não lhe deram as ferramentas para compreensão do que estava acontecendo.

O livro emociona, especialmente pela forma como o autor usou a linguagem - frases curtas, palavras repetidas, construções simples, típicas de um discurso infantil. Mas é uma emoção, não digo falsa, mas rasa. Nesse ponto, a história de A vida é bela me emocionou muito mais, porque ela tinha um propósito, a forma como o Guido foi capaz de se sacrificar de forma tão completa pelo filho. Nesse livro, não há nenhum sacrifício consciente e muitas das escolhas de Bruno são escolhas egoístas, escolhas, claro, de uma criança sem preocupações.

Ainda assim, aquela cena final, dos dois de mãos dadas... ela é bastante significativa - e talvez ali explique a moral, o sentido da fábula: a idéia de que, despidos de nossos preconceitos, do peso de nossas origens, somos, realmente, todos iguais.

Antes que eu me esqueça, a Gabi e a Tayla, que são membros do Clube, também fizeram a resenha do livro, a primeira para o Potterish e a Tayla no blog dela, o Sobre.


A Coruja


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Um comentário:

  1. Finalmente li esse livro!
    Só tive dificuldade com "o Fúria", mas só no começo :P
    O livro é bem menor que o barulho que ele fez, mas ainda assim "dá pro gasto".

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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