1 de maio de 2010

Desafio Literário 2010 - Fevereiro: Conto de Fadas



- Dediquei minha vida ao estudo e ao pensamento, mas eles não me alimentaram – replicou o desconhecido. – Não quero ser ludibriado por uma pregação digna de Swedenborg, nem por seu amuleto oriental, nem pelos caridosos esforços que faz para reter-me num mundo onde minha existência é doravante impossível. Vejamos! – acrescentou, apertando o talismã, com a mão tremendo e olhando para o velho. – Quero um jantar regiamente esplêndido, um bacanal digno do século em que tudo, dizem, se aperfeiçoou! Que meus convivas sejam jovens, espirituosos, e sem preconceitos, alegres até a loucura! Que os vinhos se sucedam sempre mais incisivos, espumantes e capazes de nos embriagar por três dias! Que esta noite seja enfeitada de mulheres ardentes! Quero que a Orgia em delírio, rugindo, nos leve em seu carro de quatro cavalos para além dos limites do mundo e nos lance em praias desconhecidas: que as almas subam aos céus ou mergulhem na lama, que se elevem ou se rebaixem, pouco importa! Ordeno a esse poder sinistro que junte todas as alegrias numa só. Sim, tenho necessidade de juntar os prazeres do céu e da terra num último abraço para então morrer. Desejo também antigos cantos eróticos depois de beber, cantos que despertem os mortos, e beijos sem fim cujo clamor percorra Paris como um crepitar de incêndio, despertando os esposos e inspirando-lhes um ardor penetrante que rejuvenesça todos, mesmo os septuagenários!

Uma gargalhada saiu da boca do velhote; nos ouvidos do jovem enlouquecido, ela ressoou como um zumbido do inferno e o interrompeu tão despoticamente que ele se calou.

- Acredita – disse o comerciante – que meu chão vai abrir-se de repente para dar passagem a mesas suntuosamente servidas e convivas do outro mundo? Não, não, meu estouvado jovem. Você assinou o pacto, tudo está dito. Agora suas vontades serão escrupulosamente satisfeitas, mas à custa de sua vida. O círculo de seus dias, representado por essa pele, se contrairá conforme a força e o número de seus desejos, desde o mais pequeno até o mais exorbitante. O brâmane a quem devo esse talismã explicou-me outrora que haveria uma misteriosa concordância entre os destinos e os desejos do possuidor. Seu primeiro desejo é vulgar, eu poderia realizá-lo; mas deixo esse cuidado aos acontecimentos de sua nova existência. Afinal, queria morrer, não é mesmo? Pois bem, seu suicídio foi apenas adiado.


A primeira vez que ouvi falar de Balzac foi no contexto de “mulher balzaquiana”, ou A mulher de trinta anos. Vergonhosamente, eu ainda não li essa obra – provavelmente aguardarei até completar 30 e me darei o livro de presente como uma piadinha particular.

Lembro de, quando fazia jornalismo, ter farejado atrás de Ilusões Perdidas, uma vez que a sinopse do livro me fazia muito lembrar a posição em que eu me encontrava à época... Apesar disso, por um motivo ou por outro, sempre havia um livro mais importante para ler na frente, um outro interesse, outra grande história que eu simplesmente precisava ler.

Assim, quando vi a lista do Desafio Literário 2010, eu decidi que ia colocar Balzac no meio de uma forma ou de outra. Como estou guardando A mulher de trinta anos para daqui a mais seis anos, minha introdução à Comédia Humana acabou por ficar em cima de A Pele de Onagro.

Inicialmente, escolhi esse título porque ele me lembrou um dos meus contos de fadas favorito: Pele de Asno, de Charles Perrault. Talvez vocês se lembrem dos meus comentários sobre a verdadeira história dos contos de fadas... pois bem, Pele de Asno não é um desses contos que teve suas matizes suavizadas e acho que ela é até bastante atual, a se considerar as narrativas que ouvimos volta e meia de crianças abusadas pelas figuras paternas que as deveriam proteger.

Em resumo, Pele de Asno é uma princesa, filha de um rei e uma rainha de um reino muito distante. Eles são a família perfeita, amorosa, carinhosa... até que a rainha morre e o rei começa a procurar por uma nova esposa. Só que a rainha, eu seu leito de morte, faz o rei prometer que ele só voltaria a se casar com uma mulher que fosse em tudo superior a ela mesma.

A única mulher que o rei encontra capaz de ser mais bela, mais doce, mais gentil, mais sábia, mais tudo que sua falecida esposa é a própria filha.

Para conseguir escapar ao destino de se casar com o pai, a princesa se aconselha com sua fada madrinha, que lhe diz para fazer uma série de pedidos impossíveis: um vestido feito com a esplendor do sol, um vestido feito do esplendor da lua, a pele de um asno que defecava peças de ouro e era a riqueza do rei.

Todas essas condições o rei cumpriu. Desesperada, a princesa, vestida com a pele de asno, foge para outro reino, onde acabará por encontrar seu príncipe encantado... Aliás, há um filme de 1970 (que eu adoro) com a Catherine Deneuve no papel principal.

Caso alguém consiga ler em francês por aí, vocês podem ler a versão original do conto aqui (não consegui encontrar ela em português de jeito nenhum...)

Pois bem... eu achava que a pele de onagro balzaquiana tinha algo a ver com a pele de asno de Perrault, uma vez que onagro é uma espécie de jumento encontrado no Oriente. Mas nada há de mais distante que estas duas histórias; fosse eu traçar uma comparação, diria que Raphaël de Valentin está mais para Doutor Fausto – e não na versão happy ending de Goethe.

Enquanto a pele de asno da princesa servia como uma máscara, uma proteção de sua identidade, a pele de onagro de Raphaël é como um trato com Mefistófeles... um gênio da lâmpada. Eis o que diz a inscrição nas costas da pele:

Se me possuíres, possuirás tudo. Mas tua vida me pertencerá. Deus quis assim. Deseja, e teus desejos serão realizados. Mas regula teus desejos por tua vida. Ela está aqui. A cada desejo, decrescerei assim como teus dias. Queres-me? Toma-me. Deus te atenderá. Assim seja!

E assim o é. O desejo que Raphaël faz à pele (trecho com que abri a resenha) é sua sentença – a cada parte atendida, ela encurta, e assim também encurtam os anos de vida do rapaz. A princípio, isso pode não fazer diferença para ele – afinal, na abertura do livro, Raphaël está pronto a cometer suicídio.

A questão é que ele cogita e planeja sua morte quando está desesperado às voltas com seus fracassos. Ela virá, contudo, quando ele estiver no auge, quando todas as suas mais caras ambições estiverem ao alcance de suas mãos.

Quanto mais alto nos alçamos, maior é a queda, não é verdade?

O pior é que, como ele próprio há de se dar conta, tudo o que Raphäel realmente desejava, o que lhe era realmente importante, ele já tinha – e o tinha sem ajuda da pele, que, ao fim e ao cabo, tirou-lhe tudo.

O homem esgota-se por dois atos instintivamente realizados que secam as fontes de sua existência. Dois verbos exprimem todas as formas que essas duas causas de morte possuem: Querer e Poder. Entre esses dois termos da ação humana, há uma outra fórmula que é a dos sábios, e devo a ela a minha felicidade e longevidade. Querer nos queima e Poder nos destrói, mas Saber deixa o nosso frágil organismo num perpétuo estado de calma.

A Pele de Onagro não é uma obra para ser lida de uma única sentada, devorando tudo desesperado para chegar ao final – até porque, sabemos qual será o final logo ao início do livro, nas palavras proféticas do dono do antiquário.

É, ao contrário, um livro para ser saboreado e para fazer refletir. Um livro para ser lido em diferentes épocas, quando contemplaremos diferentes significados para aquela narrativa. Não à toa, essa é considerada a primeira obra-prima de Balzac, quando ele ainda estava começando o grande monumento que é a Comédia Humana - 89 obras entre romances, contos, e novelas, compondo um dos mais completos retratos da própria natureza humana.


Nota: 5
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: A Pele de Onagro
Autor: Honoré de Balzac
Editora: LP&M
Ano: 2008
Tradutor: Paulo Neves
Número de páginas: 280


A Coruja


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