8 de agosto de 2016

#LendoSandman: Entes Queridos


O penúltimo arco de Sandman reúne os vários fios soltos que foram sendo deixados ao longo da série para entregar ao leitor um final magnífico e pungente para a história de Morpheus, o Sonho dos Perpétuos. É o derradeiro ato da tragédia que já se anunciava desde o momento em que o Lorde Moldador deixou seu cativeiro.


Entes Queridos abre com o capítulo O Castelo - que, embora não fosse originalmente parte desse arco, dialoga muito bem com ele, iniciando com o sonhador devorado por mulheres sem face, repetindo o tema das bacantes que despedaçaram o corpo de Orpheus (mesma maneira pela qual as Fúrias lidam com suas vítimas).

Antes que o pesadelo possa seguir seu curso, o sonhador se descobre num castelo, sendo recepcionado pelos habitantes do Sonhar, conhecendo o coração do reino até se deparar com o próprio Morpheus a lhe dar boas-vindas.

Esse prólogo quebra a quarta parede entre história e leitor, colocando-nos na posição do sonhador, e dá o tom para nosso envolvimento com o que virá a seguir: a entrada em cena das Benevolentes.

A história de Morpheus - sobretudo nesse volume - tem a estrutura de uma tragédia grega. As três que são uma, dentro desse contexto, servem como o Coro, reconhecendo a existência de uma plateia para a qual falam e demonstrando consciência de serem parte de uma história. É para nós, leitores, que elas explicam o fiar, tecer e cortar do fio da existência. Tanto em sua abertura quanto ao final do arco, elas estão nos guiando, e dizendo que é hora de chegarmos ao final - ao final da história de Morpheus e também ao final da série Sandman.


Interessante é que, embora este seja um volume que trata do clímax do arco narrativo de Morpheus, o foco da história são todas as facetas femininas presentes na imagem das três que são uma. Tudo em Entes Queridos faz referência a elas - as Fúrias, as Górgonas… e também as mulheres por trás da queda de Sonho. Pois há Clotho, a donzela, Lachesis, a mãe e Átropos, a anciã. E há também Lyta Hall, Nuala de Faërie e Tessália.


A narrativa se inicia de fato após Daniel ser sequestrado por Loki e Robin Goodfellow - o Puck que vimos pela última vez em Sonho de Uma Noite de Verão - sua mãe, Lyta Hall, entra em desespero.

Inicialmente, ela tenta se apegar à noção de que precisa ficar calma e que tudo vai ficar bem. Lyta se doou completamente a sua função de mãe e não tem uma âncora interna - sua identidade está centrada em Daniel, e no momento em que ele desparece, ela também perde sua razão de existir. Por isso, quando confrontada com uma fotografia entregue por Loki mostrando o corpo carbonizado do filho, a ex-heroína perde completamente a noção da realidade e sai numa jornada delirante em busca de vingança - e das Fúrias.

Em teoria, Lyta e sua loucura rancorosa não seriam capazes de alcançar Morpheus. Contudo, como comentei quando escrevi a análise de Estação das Brumas, a mulher é uma descendente colateral das Fúrias. Na mitologia da DC para além de Sandman, Lyta é filha de Helena Kosmatos, heroína que fez um acordo com a tríade: elas lhe deram seus poderes e, em troca, elas podem utilizar seu corpo como avatar.

Tendo herdado os poderes da mãe, Lyta herdou também a capacidade de ser um avatar. Por isso ela pode sair em busca das Benevolentes e por isso elas necessitam de Lyta para cumprirem sua tarefa - não por causa da ‘morte’ de Daniel, mas sim pelo sangue derramado de Orpheus.

Daniel, porém, não está morto. Seguindo a tradição dos heróis gregos - e é bom observar mais uma vez que a estrutura de Entes Queridos é toda calcada nas tragédias clássicas - ao ser colocado no fogo por Loki, Daniel teve queimada sua mortalidade, tendo sido preservada sua parte imortal - a parte que foi gestada no Sonhar e a ele pertence.

Mas como Daniel foi chamar a atenção de Loki e Puck? Por que sequestrar o garoto - e fazê-lo num momento tão crucial quanto o que se apresenta nesse arco, logo após a morte de Orpheus, quando Sonho já se transformou num alvo para as ‘gentis damas’?

Odin, ao confrontar Sonho sobre o paradeiro de Loki, chama-o de a gazela prestes a ser sacrificada e a aranha no meio da teia à espera de sua presa. E não é difícil entender disso tudo que o sequestro de Daniel foi o pagamento do favor que o deus das mentiras ficara devendo a Morpheus ao final de Estação das Brumas.


Loki, contudo, é um deus - e um deus de malícia e mentiras. Sim, ele deve um favor a Morpheus - e assim, ele leva Daniel consigo. Mas Loki não pode fugir a sua natureza e sua natureza é subverter o favor que ele devia: matar o garoto e assim frustar o planos de Sonho parecem uma excelente ideia afinal.

A princípio, pode parecer uma ingenuidade da parte de Morpheus dar a Loki um encargo tão delicado: a essa altura, ele já sabe que Daniel será seu sucessor no Sonhar e ele conhece o suficiente da outra criatura para saber que ele tentaria trapaceá-lo. A não ser que… a não ser que se livrar da parte mortal da alma de Daniel fosse necessário aos seus planos.

Não à toa, quando já está mais uma vez preso nas entranhas da terra, sem mais nada para fazer além de pensar e sentir dor, Loki explode em gargalhadas violentas ao perceber que foi manipulado. Pensando que estava atrapalhando os planos de Morpheus, Loki e Puck, na realidade, fizeram seu serviço sujo.


Afinal, Sonho poderia, desde o princípio, ter ordenado a um dos súditos do Sonhar que fosse buscar Daniel. Ele só coloca o Coríntio no caso quando o inevitável já aconteceu.

Seja como for, Lyta é apenas o primeiro vértice, a mãe da tríade. A ela se segue Nuala, do reino das Fadas, aqui representando a donzela.

Embora ela nunca tivesse dito com todas as letras, sempre me pareceu razoavelmente implícito que Nuala amava Morpheus. O que é curioso, porque não costuma ser da natureza das fadas amar; e amar de forma silenciosa. Paixões violentas que se consomem numa explosão e logo são esquecidas são mais a especialidade de Faërie - Cluracan é um exemplo perfeito disso.

Nuala amou Morpheus em silêncio durante anos, distante, sem jamais pedir nada em troca. Amou-o de forma platônica, amou-o, acima de tudo, pela gentileza com que ele a tratou, por ter lhe dado liberdade quando ela lhe fora dada como escrava; por nunca ter esperado que ela lhe desse nada além da verdade de sua forma. Contudo, uma vez tendo sido retornada a Faërie e após ouvir de Puck que Morpheus está em apuros, ela decide agir - no momento mais inopoturno e de maneira mais inconveniente possível.


Lembro que da primeira vez que li Sandman, quando cheguei nessa parte, fiquei com raiva de Nuala. Minha impressão era que se ela não o tivesse forçado a sair do Sonhar, ele teria arranjado uma maneira de enfrentar as Fúrias, de vencê-las. Eu precisava culpar alguém e ainda não tinha compreendido que tudo o que estava acontecendo tinha uma razão de ser.

Relendo agora, percebo que quer ela o tivesse chamado, quer não, de alguma forma teria terminado do mesmo jeito. Que Nuala tenha a chance de confessar seu amor e assim se libertar totalmente das expectativas que lhe tinham sido impostas - que ela possa deixar Faërie para trás afinal, mesmo que seu amor não seja correspondido, essa é a verdadeira dádiva que Morpheus lhe oferece no momento em que responde ao seu pedido.

O último vértice dessa tríade é Tessália, que pela segunda vez na série - a primeira tendo sido em Um Jogo de Você - representa o papel da Anciã. Tessália, que primeiro enfrentou Morpheus na tentativa de matar o Cuco e que, agora nos é revelado, foi a amante tomada pelo rei do Sonhar nos arcos anteriores. Tessália, que compra mais alguns milhares de anos de existência e resolve antigas querelas protegendo Lyta para as Fúrias. Tessália, que impede Morpheus de resolver tudo matando Lyta - o vértice mortal da tríade original -, (ainda que fosse bem pouco provável que Morpheus realmente tivesse intenção de matá-la) para depois que está tudo feito, sentir ela, também, um desejo de vingança.


Assim é que Lyta, Nuala e Tessália são as agentes da destruição que permitem que as Fúrias se ponham a caminho para vingar o sangue de Orpheus. Mas a vitória das Fúrias é uma vitória vazia, porque a verdade é que Mopheus planejou seu fim.

Daniel, Lyta, as Fúrias, Loki - todos eram peças numa engrenagem num plano que Morpheus vinha preparando há tempos. Como Destruição já dissera em Vidas Breves e como Morte acusa aqui em Entes Queridos, ele já sabia que seu final estava chegando. Ele vinha se preparando para esse momento desde que vestiu suas armas para ir ao Inferno resgatar Nada.

Os anos de cativeiro de Sonho fizeram-no mudar. Fizeram-no enxergar o mundo e suas criaturas com um pouco mais empatia e humildade. Contudo, ele é incapaz de aceitar essas mudanças - incapaz de conciliar a maneira como agora enxerga as coisas com as responsabilidade de seu cargo. Sua existência foi sempre uma vida de deveres e Morpheus está cansado. Cansado e machucado, especialmente após sua despedida do filho.

Morpheus mudou, mas ele não pode negar sua natureza da mesma maneira que o irmão, Destruição, e simplesmente abandonar o Sonhar. É para a morte que Morpheus se prepara - mas uma morte que signifique algo, que se encaixe na narrativa: Sonho é, afinal, o Príncipe das Histórias. Seu sacrifício significa também sua redenção e fecha de forma extremamente digna a sua tragédia pessoal.

As Fúrias venceram, no sentido de que forçaram Morpheus à morte. Mas perderam, porque Sonho escolheu sua morte. Ele entregou o que restava de seu poder - a última pedra do sonho - nas mãos de Daniel. Nos momentos finais, ele se desfaz de suas armas e em vez de ser despedaçado pela loucura vingativa das benevolentes, ele se vai suavemente, entregando sua mão à da irmã preferida.


É um momento de profunda tristeza, mas também extremamente belo - uma das cenas de maior força de uma história repleta de passagens brilhantes.

Paralelo ao que está acontecendo com Sonho e seu Coro de Fúrias, temos Rose Walker, a protagonista de Casa de Bonecas, numa viagem em busca de seu coração, numa narrativa que parece estar desconectada do resto - mas que, na verdade, é também um ato necessário para o encerramento da peça. Porque Rose nos leva a visitar muitos dos lugares e dos personagens que nos foram apresentados ao longo de Sandman, fechando as demais pontas soltas que talvez nem tivéssemos percebido. Rose nos dá a chance de relembrar tudo o que aconteceu até aqui e de nos despedir.

Rose também nos lembra que em meio a tantos finais, há também novos começos. E eis então que Daniel assume o papel que nasceu para viver. O final de Morpheus não é o fim de Sonho, mas apenas uma nova faceta de uma mesma entidade. Sonho vive e o Sonhar será restaurado.

As escolhas foram feitas. Destino vira a página do livro. E assim, de forma magistral, Gaiman nos guia para o último capítulo de sua saga.

Continuamos em frente com Despertar daqui a duas semanas. Enquanto isso, junte-se a nós na vigília pelo rei do Sonhar no Pipoca Musical e na comunidade All About Gaiman.


A Coruja


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4 comentários:

  1. Muito obrigada por essa análise tão sensível e tão acertada. Adorei cada um dos seus textos nesse projeto. Parabéns!

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    1. O prazer tem sido meu, Helen; reler Sandman tem sido um presente esse ano. Obrigada por acompanhar.

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  2. Sonho disse ao ser preso que o tempo em que ficaria lá não seria nada pra ele. Mas quem diria que nesse breve momento pensando na vida, mudaria tudo. Ótima resenha coruja, vc e a tbs fazem textos excelentes.

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    1. Obrigada. Pois é, é engraçado, não? Ele acha que é absolutamente imutável, que aquele cativeiro não representa nada... mas a verdade é que Sonho mudou muito em virtude de seu aprisionamento e seu sacrifício - porque não há outra palavra para o que ele fez - é não apenas uma consequência como também uma resposta a essas mudanças. Ele estava se preparando para isso desde que foi atrás de Nada no Inferno - talvez tenha começado até antes, ainda no primeiro arco, quando o vemos deprimido em O Som de suas Asas. Gaiman preparou muito bem o terreno e, ainda que seja doído se despedir de Morpheus, eu acho que não havia outra saída para ele.

      Só falta um agora. Vou sentir falta desse projeto...

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