13 de novembro de 2015

Heróis de Papel - Capítulo 27


Capítulo 27

Fim de Janeiro (Ano 5)

Caro Alex,

Primeiro, peço que me perdoe a demora em respondê-lo. Sua carta chegou há algum tempo, mas, por não crer ser justo com você, não queria sequer a ler enquanto ainda estivesse naquele péssimo humor no qual me encontrava imerso. Não que tenha me recuperado, mas, pelo menos, não estou mais tão desesperado para me atirar em frente a um automóvel de bombeiros disparado em direção a uma emergência.

Nunca mais quero passar por um Natal desses...

Espero que o seu tenha sido bem melhor. Sei que soa um tanto quanto irônico, então, por favor, não me interprete de tal forma. Talvez seja uma tremenda falta de consideração minha, mas quem sabe Galahad não lhe deu muitas alegrias nesse Natal que passou?

Aqui, prossigo como posso. Tento não me enclausurar em casa, vez que sei por experiência que isso não é uma ação sã. Entretanto, pelo menos até metade de Janeiro, sair foi um pesadelo ainda maior. Devido às festas de fim de ano, e apesar dos meios de transporte mais restritos, muitos parentes ainda ficaram após o enterro de meus pais. Talvez seja só algum devaneio meu, mas parecia que aonde eu ia para caminhar ou para explorar, lá estava pelo menos um deles. E sempre que nos encontrávamos, repetia-se o olhar de escárnio o qual me lançavam antes de fingirem que não me viram.

Tentei visitar a sede de bombeiros à qual era filiado, mas muitos de meus companheiros foram levados ao front no início desta guerra, de forma que não ajudou muito...

Tentei visitar o orfanato, mas, uma esquina antes de chegar, deparei-me com minha prima, sobrinha de minha mãe, e que sempre foi apaixonada por Luka. Em curtas palavras, cinco minutos depois, e eu não pude mais completar minha “viagem”...

O pessoal do prédio reuniu-se para celebrar o fim do ano (ao menos os que não tinham outro lugar para irem), e Marianne com certeza notou que algo estava errado. Dava para notar que ela queria perguntar, mas, por algum motivo – e eu estou estranhando muito isso, vez que não é da natureza dela ficar calada – manteve-se em silêncio. Desconfio de alguma catástrofe próxima... Mas confesso que me foi um alívio, porque não estou preparado para dividir isso com outro que não você.

Alex, aproveito esse momento para lhe agradecer: seu presente não podia ter sido melhor! Não que o barco, os postais, o Pinóquio, e o baú já não me sejam caros (por sinal, meu preferido continua sendo o baú), mas visitar essa cidade em específico, e ver a arte que é fazer objetos de vidro coloridos é um dos meus objetivos de vida. Receber esse pavão após o Ano Novo não só me fez lembrar desse sonho e, consequentemente, de outras metas que gostaria de alcançar, como também renovou meu espírito ao me fazer sorrir de novo. Deveria ter lido a carta assim que a mesma chegou. Ter-me-ia poupado algumas dores e concedido-me algumas noites de sono.

Se, por um lado, você se diz salvo por minhas cartas, por outro, eu oficialmente o declaro o meu salvador também.

Você, e esse pavão.

Mais do que nunca, desejo que essa guerra acabe, e que você, meu amigo, volte são e salvo, para que eu possa lhe oferecer um caloroso abraço em agradecimento.

Entretanto, enquanto isso não nos é possível, mando-lhe minha mais recente aventura artística. Tentei usar de luz, cores e geometria, usando o pavão e os postais como referência. O que você vê nessa ilustração de infinitas cores é o que eu imaginava, quando mais novo, ser Veneza: uma cidade de caleidoscópios. Se, todavia, realmente a cidade fosse assim, seria impossível viver uma pessoa sã lá. Pelo enorme contraste de cores, e pela excessiva ordem na desordem (nunca achei que essa descrição realmente faria sentido algum dia), dá para se ver o quão caótica eu construí essa cidade em minha jovem cabeça.

Espero que essa festividade cromática traga-lhe alguma motivação também. Devido à complexidade desse desenho, não tive oportunidade de fazer vários como de costume. Entretanto, pude fazer mais um, dessa vez inspirado no feriado que acaba de passar: São Valentim.

Notei que esse ano, comparado aos últimos, havia mais casais nas ruas e mais lojas vendendo produtos relativos à data. Em particular, o comentário de uma mocinha inspirou esta ilustração: “Chocolate é uma maravilha!! Não duvido que seríamos capazes de vencer a guerra de uma vez se usássemos essa delícia como arma!”

Eu não entendi bem o contexto da conversa, ou mesmo o que, exatamente, ela quis dizer com isso. Mas me vieram umas ideias bem divergentes à cabeça, dentre as quais destaquei a do desenho que acompanha. Eu não creio que um avião de chocolate resista muito tempo no ar, mas sei que uma quantidade de chocolate grande o suficiente para se fabricar um avião (ou vários), ao derreter bem acima do inimigo seria o suficiente para cobri-los e, considerando que o chocolate torne-se uma espécie de cola, imobilizá-los.

Imagino que você deva estar às gargalhadas com essa cena, assim como eu também fiquei quando imaginei a situação, pouco depois que a moça disse aquilo (o que me rendeu olhares de várias naturezas e uma situação bastante desconfortável). Por favor, não pense que estou ficando louco. Essa foi, acredite, uma das ideias mais sãs que tive recentemente.

Particularmente, apesar de não negar que são bons, não sou grande fã de chocolate. Prefiro doces que tendam ao cítrico. Pode ser por isso que não consegui captar exatamente a que a jovem se referia. Ainda assim, mando-lhe alguns, junto com outras iguarias. Vão algumas tiras de carne ressecada e salgada. Você na certa recebe isso como parte de sua ração, mas estou acrescentando essas porque elas foram temperadas de uma forma que não conhecia (e nem sei ainda), e ficam uma delícia.

Afora isso, Marianne tricotou uma espécie de cachecol canino para o seu companheiro, e envio junto. Boa sorte em descobrir como se encaixa isso.

De resto, apesar dessa nova resistência a que fez referência, desejo profundamente pelo seu retorno em breve à pátria-mãe.

Abraços,

Kal


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