16 de outubro de 2015

Heróis de Papel - Capítulo 23


Capítulo 23

Meados de Maio (Ano 4)

Alex,

Antes de mais nada, preciso que saiba que não tenho problemas com detalhes. Se quiser ou mesmo precisar escrever a próxima carta contando quantos fios tem os lençóis ou quantos grãos de areia conseguiu contar numa hora, fique à vontade. Dizem que tamanho não é tudo, mas também não é insignificante. Mais detalhes, e mais carta significa mais coisas a dividir, e mais escoamento de pensamentos negativos. É um excelente escape; fique à vontade em usar. Tenha certeza, farei o mesmo, vez que já me disseste inúmeras vezes que o poderia fazer. Para minha absoluta insatisfação, tive de me resignar a usá-lo como ouvidos... (É nesse momento que você deveria rir, porque eu tentei fazer uma piada. Juro que sou melhor nisso ao vivo...)

Em toda honestidade, estou extremamente aliviado que tenha se disponibilizado não só a me contar tantos detalhes, quanto a receber qualquer tipo de assunto que porventura eu precise compartilhar.

Nesses últimos dois meses, tenho-me pego frequentemente olhando para o baú que me enviou como presente. Ri muito quando li que você concorda quanto ao tesouro do pirata. Foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando terminei de organizar o baú. Na verdade, foi essa ideia que me fez desenhá-lo. Fico extremamente feliz que tenha tido a mesma impressão. Mas não prometo nada sobre pranchas. Depende do que você tiver a me oferecer em troca de sua vida...

Brincadeiras à parte, eu realmente preciso lhe agradecer outra vez. Os detalhes dele são tão meticulosos, que cada vez que o observo, sinto como se estivesse lendo uma história diferente. Tenho, inclusive, a impressão de estar sempre descobrindo novos entalhes. Ou esse baú é mágico, e realmente se esculpem coisas novas sozinhas, ou os duendes de Stephenson subiram pro meu quarto e residem ali.

Ainda não sei o que pensar disso.

Mas com certeza sei o que pensar das meias. Achei curiosa a ideia de usá-las como enfeites de cabeceira. Inicialmente, lembrou-me as meias que aguardam ansiosamente a chegada de Papai Noel no Natal. Agora, porém, a imagem que tenho é um pouco diferente, principalmente com a passagem da Páscoa. Marianne riu muito do desenho que vai junto. Na verdade, ela chegou a chorar de rir. Espero que lhe proporcione boas risadas também.

Os ovos coloridos representam as bombas e ataques que ficaram para trás. Apesar de terem sido momentos terríveis, eles se tornaram apenas passado, e o horror que podiam causar, já o fizeram. São como ovos, eu imagino, que rapidamente se estragam, rapidamente viram passado também. Os coelhos e pintinhos ao redor da imagem são inspirados nos soldados cujas vidas você e os médicos do front têm salvado. Eles estão em frenesi e correndo para todos os lados não só por causa dos bombardeios de ovos, mas também porque, independentemente dos horrores que encararam, sobreviveram, graças a vocês. Você está bem no meio da bagunça, em sua cama com meias coloridas, perdido entre fugir do caos e correr atrás dos seus pacientes. O tapete de tulipas cobrindo o parco gramado representa o futuro, o qual, quero crer, será produtivo, cheio de esperanças.

Por falar em feriados e presentes, é uma pena que os doces anteriores tenham se estragado nesse interim. Vai mais uma leva, essa caprichada. Aquela confeitaria de que falei quando abriu está, surpreendentemente, vingando. Mesmo nesses tempos de escassez e controle, estou realmente surpreso de que seja possível começar algo e ver esse algo crescer. É impressionante. Alguns dos doces são de lá, inclusive todos os de frutas vermelhas. Prometeram-me que duram uns seis meses, então espero que cheguem até você ainda tão saborosos quanto são aqui.

Resolvi mandar numa caixa separada os livros que pude encontrar. Tentei repor mais alguns dos anteriores, inclusive uma coletânea do detetive que achei recentemente, mas o destaque vai para a coleção de livros de fotografia. Confesso que nunca havia sequer visto uma publicação só de fotografias, mas me impressionou. Há apenas dois: um cujo tema é “água”, e outro que não me parece ter um tema específico, mas se eu tivesse que julgar, diria que é algo como “vida urbana”. De qualquer forma, são muito bonitas as imagens.

Curiosamente, enquanto vagava pelos sebos, achei um dicionário de italiano e comprei. Esse não enviei porque creio que haja por aí aos montes. Olhei por pura curiosidade, mas é realmente complicada essa língua! Não sei como você está se dando com ela, mas não deve ter tantas dificuldades quanto eu, tendo em vista sua facilidade com idiomas. Pode ser totalmente diferente dessas, mas, ainda assim, deve ser mais fácil para você que para mim. O mais próximo que cheguei de dominar uma segunda língua foi o alemão, vez que foi exatamente lá que fiquei estacionado na maior parte da campanha. Ainda assim, nem de longe tenho facilidade, nem mesmo na época em que mais a usava.

Estou, na verdade, verdadeiramente surpreso com essa sua qualidade. Fluência numa família inteira de idiomas (conto três, no mínimo), ouvindo um açougueiro?! Você está sempre me surpreendendo. Senti-me na obrigação de aprender alguma coisa a mais. Vou tentar espanhol, ou francês. O que acha de francês? Pensando bem, dizem que italiano soa muito bem... e é a base para as línguas latinas. Acho que vou tentar italiano, e, depois, se ainda der, tento as outras.

Agora, num tom um pouco mais sério. Realmente, o que poderia dar errado, deu mesmo. Na verdade, isso não me surpreende muito, vez que, em operações delicadas como as de infiltração, normalmente basta um item do plano dar errado para que os subsequentes também caiam na mesma situação. Tendo problemas na comunicação – que é um dos itens chave dessas operações, é muito mais provável que dê tudo errado. Francamente, estou surpreso de que tenha escapado ileso. E aliviado. Não tem ideia do quanto estou aliviado!

Falando nisso, não vejo problema algum em ser seu contato. Por sinal, estou muito grato que o tenha feito, porque, sim, independentemente do veículo, prefiro ter notícias de seu destino – seja qual for – do que passar novamente pela insegurança e desespero de não saber. Você já se tornou um amigo ao qual estimo muito, e, portanto, aprecio, sim, seu gesto. Sinto informar, porém, que você não foi a única vítima desse tipo de tragédia, vez que alguns colegas meus também me contaram histórias semelhantes de conhecidos deles. Não é exatamente comum, pelo que entendi, mas também não tão raro quanto se deseja. Pelo menos foi esclarecido, o que, de novo, é melhor que não saber, creio eu.

O que eu sei com certeza é que definitivamente não sei o que se passa com Marianne. E o mais estranho, Carl nem sequer levanta uma sobrancelha. Estou rezando para que isso seja indício de que você está certo, e ela seja apenas uma senhora bastante afetiva. Mas está ficando bastante incômodo estar no mesmo cômodo que os dois... Dar-lhe-ei um exemplo: há duas semanas, por um instante, achei que ela me fosse sentar no colo. Estava sentada junto de Carl no sofá de sua casa, e eu na cadeira ao lado, enquanto conversávamos sobre um evento que ocorreria naquele fim de semana, onde iríamos dançar. Mas ela me olhava com tanta intensidade, e chegou a se aproximar o máximo que seu móvel permitia, que tinha certeza que ela estava para se levantar e sentar no meu colo. Como não consigo arranjar uma desculpa para desistir das aulas de dança, continuamos com as lições e treinos, mas, realmente, estou um tanto quanto perdido nessas circunstâncias.

Não ria. É bastante drástica a situação.
Por que continua rindo?

Embora seja uma boa ideia chamar o grupo para uma apresentação aqui no prédio, não creio que os outros vizinhos apreciem muito a ideia. Menos ainda, enquanto eu não descobrir o que Marianne está realmente pensando a meu respeito, não me atrevo a chamá-la para dançar também. Não sei se Carl realmente não se importa, ou se apenas esconde bem seus sentimentos, mas, por qualquer motivo que seja, não creio que seja saudável chamar a esposa de um vizinho para dançar. Nunca se sabe que tipo de ideias isso pode provocar, e eu prefiro evitar discussões com pessoas que moram tão perto.

Quando os “adversários” não moram tão próximos, não faço tanta questão de evitar confrontos, mas sempre preferi evitá-los com quem não se encaixa nessa categoria. Em minha defesa, meus companheiros de barracas e trincheiras nunca reclamaram dessa minha política.

Por falar nisso, sim, achei fantástica a notícia! Piano! Nossa! Aproveite a chance e aprenda com ele o máximo que puder. A propósito, saudações ao rapaz, vez que também deve ter tido dias bastante difíceis. Sei que ainda estão no front, mas espero honestamente que, pelo menos depois da missão anterior, seus dias estejam um pouco mais tranquilos. Encham seus ouvidos com essa música o máximo que puderem, para não terem tanta dificuldade na volta. Falo por experiência: a primeira vez que ouvi uma orquestra após voltar do meu tempo de serviço – no caso, eram os músicos de uma peça de teatro – precisei sair antes do término do primeiro ato, porque os sons traziam-me péssimas lembranças, e fui incapaz de aproveitar a apresentação. Passou-se muito tempo até que pudesse juntar-me a esse público novamente.

Por mais que achemos que estamos lidando bem com essas situações de vida ou morte enquanto estamos envolvidos e ativos na guerra, na verdade, é apenas quando voltamos que tudo desmorona, como se uma casa inteira desabasse sobre nossas cabeças. Não necessariamente assim que voltamos; vi casos em que só se manifestou alguns meses após o retorno. Assim, creio eu, se puder incorporar esses sons e associá-los a momentos de paz, não terá tantas dificuldades quanto eu tive de reinserir-se na rotina seminormal do pós-guerra. Eu não sou médico de cabeça, então não sei se estou falando algo condizente, mas sinto que teria tido menos problemas se não tivesse inconscientemente associado sons altos a bombas e mortes...

Deve ter algo a ver com a forma como Luka morreu. Até hoje ouço os gritos dele chamando meu nome. E, depois, as vozes elevadas e quase enlouquecidas de meus pais chamando pelo filho morto...

Nossa, desculpe-me. Não sei como transformei uma boa notícia sua num assunto como esse. Só não apago porque seria um desperdício de papel. Embora esse recurso não esteja escasso (ainda), nunca gostei de desperdiçar o que quer que seja – exceto conversas. Nunca tive algo contra diálogos desnecessários, mas completamente divertidos.

Só por isso, vai uma ilustração que, num pique de inspiração, imaginei quando primeiro li essa carta, até mesmo antes de ver a foto que veio junto, por mais incrível que isso soe. Dessa vez não é nada absurdo: um médico tocando piano num hospital, rodeado de pacientes. Claro, dei ao pianista características parecidas com as suas. A ideia é que ele, não somente com sua profissão, mas também com sua veia musical, ajude a curar os pacientes. Como predominantemente há poucas cores num hospital que não o branco, usei cores dessa vez. Não são tons fortes, porém, estando ali apenas para dar a sensação de paz. Achei interessante, contudo, como a sua foto ao piano aproximou-se bastante da imagem que eu conjurara mentalmente.

Espero também que Eric esteja certo. Ele passa o dia inteiro fora, e, às vezes, noites também. Desconfio que esteja trabalhando em algum tipo de pesquisa que o faz precisar passar mais tempo perto da mesma que em seu apartamento. Mal o vejo, mas, sempre que nos esbarramos (normalmente quando ele está indo ou voltando do seu trabalho), ele sempre tem no rosto uma expressão determinada. Lembra muito os soldados com os quais combati, antes de um ataque, ou os bombeiros, antes de um resgate perigoso.

E, sim, você tem razão quanto aos monumentos e obras. Patrimônios imensuráveis, e, às vezes, irrecuperáveis, destruídos para sempre. Dá-me uma dor imensa ao pensar nesse tipo de destruição desnecessária. Entendo a estratégia de atingir o espírito do adversário, mas, francamente, acho que tem o efeito contrário. Afora que, em tempos de paz, não é exatamente esse tipo de lugar que os visitantes querem ver? Me parece contraprodutivo, e um enorme desperdício de legado e história. Por outro lado, se houvesse algum tipo de consenso sobre o assunto, seria exatamente nesse tipo de local que o exército ou rebeldes (conforme o tipo de guerra em questão) estocaria os suprimentos.

É, não tem jeito. Eu não entendo a lógica das guerras. Sun Tzu que me perdoe, mas isso não é arte. Não sei se conhece essa obra, vez que vem de lugar bastante distante, mas, a essas alturas, creio que já deve ter ouvido falar, especialmente participando das missões mais silenciosas. A única cópia que pude achar foi essa que lhe mando, mas ela está bastante rabiscada. Confesso, entretanto, que achei bastante divertidas e interessantes as anotações. Fez-me pensar que o autor delas talvez fosse algum comandante tático, ou um pesquisador de história...

Até onde eu saiba, campos de prisioneiros não eram algo incomum, mas, por outro lado, normalmente não eram apenas prisioneiros, e, sim, escravos. Se bem que muitas vezes uma coisa leva a outra. Mas depois que esse tipo de sistema foi proibido, não creio que sejam tão frequentes. Ainda assim, faz sentido manter um para certos prisioneiros de valia, a exemplo de um presidente, ou um conde, ou algo do tipo.

Esse comentário do abatedouro me chamou a atenção. O que eu conheço é derrubar o inimigo, muitas vezes atirando em quem quer que apareça no outro lado do conflito. Mas poupar um grupo inteiro somente para matar depois, isso eu não conhecia. Não sei se entendi ao certo; é isso que estão fazendo?

“Civis”, hein? Bem, depois de três anos, já é tempo suficiente para se sentir diferenciado de pessoas “normais”. Mas é interessante perceber isso, não acha? O momento em que se descobre que não é mais um civil... Mas você tem razão. Muito mais nobres e heróis são aqueles que, sem preparo algum, ajudam, mais ainda quando estão cientes dos riscos. Isso, contudo, não significa que você não seja um herói, Alex. Apenas significa que há mais pessoas no mundo dispostas a isso, o que não pode ser mal. Se o mundo fosse feito de heróis... Mas não é, então, pelo menos, lutemos por esses heróis, por esses civis... Não concorda?

Agora, explique-me uma coisa, por favor. Por que raios alguém construiria um relógio que não funciona? Não dá para adicionar o mecanismo agora para fazê-lo funcionar, não? Ou, então, porque não colocar outra coisa no alto da torre que não um relógio? Diz-me que algum guia explicou-lhe isso, porque esta obra não me faz sentido algum. Por mais bonita que seja... E, realmente, é, de fato, muito bela.

Talvez, por essa inutilidade, eu tenha inconscientemente rebaixado a posição desse postal para terceiro lugar na minha lista de preferências desses mais recentes, mesmo sendo muito, muito formoso o monumento. Gostei mais do que mostra uma rua cheia de cavalos e cavaleiros, e do que me parece ser de um mercado ao lado de uma igreja.

Alguém por aí deve ter dado uma performance bastante ruim para não poder sequer assobiar. Meus pêsames à criatura. Em defesa da mesma, contudo, nem todos nascem com esse dom... Pelo menos agora vocês sabem quem são. Vivendo e aprendendo, não é? Aliás, como descobriram? Todo mundo cantou? Ou essa pessoa acha que canta bem e se voluntariou?

Por sinal, você escreveu que tocou o piano, mas, diga-me, dançou também? Divertiu-se nesse baile? Espero que tenha aproveitado tanto quanto os outros, não apenas produzindo, mas, também, usufruindo. O que me fez pensar, está novamente como assistente de um médico por aí? Ou observando procedimentos? Creio que apreciarão mãos extras nesses tempos, de forma que, se não já estiver fazendo isso, que tal voluntariar seus serviços?

Muito nobre das enfermeiras se prontificarem para dançar. Acho que as minhas tentavam pôr o máximo de distância que podiam entre nós. Mas talvez isso tenha mais a ver com um colega bastante “engajado”, por assim dizer, que também estava hospitalizado no mesmo quarto à época. Aparentemente seis enfermeiras pediram troca de posto, e duas saíram depois de engordarem um pouco. Não sei até onde é lenda, e até onde é verdade...

Abraços,

Kal


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