2 de outubro de 2015

Heróis de Papel - Capítulo 21


Capítulo 21

Fins de Janeiro (Ano 4)

Alex,

Não tem ideia do quanto me foi um alívio receber notícias suas! Por um breve instante, quando vi que havia uma carta na caixa do correio, e talvez ainda impressionado pela história que me contou Alice, receei que fosse um aviso semelhante ao que ela recebeu – mas, desta vez, real.

Estou muito, mas muito, mas imensuravelmente contente que não seja esse o caso. Mais ainda, que você esteja vivo e praticamente inteiro.

Serei, contudo, egoísta. Minha maior felicidade foi constatar a retomada de nossas cartas. Você disse ser-me grato (apesar de não haver por quê), e eu lhe peço, novamente, perdão por esse meu egocentrismo.

Estou bastante impressionado com vários itens de seu conto, o primeiro deles sendo a destruição de aviões, da pista e da base. Deve ter sido um ataque e tanto das forças inimigas. Meu alívio quintuplica-se nesse ponto, pois, apesar do tamanho do bombardeio – a julgar pela destruição que causou, imagino que tenha sido um ataque grande – você sobreviveu. Eu sinto muito pelos seus companheiros que não tiveram igual sorte, e sinto, mas ainda, pela falta que eles devem fazer a você e seu batalhão. Todavia, reitero minha alegria em saber que não foi uma vítima fatal.

O segundo ponto que me chamou a atenção foi saber que você acabou por pegar um papel na guerra similar ao meu. Entretanto, não sei porque estou assim tão surpreso. Já faz três anos que você se juntou ao nosso exército, o que significa que não é mais um aspirante, mas, sim, um oficial treinado, formado e com experiência. Definitivamente, não é mais o mesmo de então. Creio que seja isso, na verdade, o que o salvou nas três situações. Ainda assim, jamais esperava que fosse enviado para trás das linhas inimigas. Se não for muito pesado para você, gostaria de ouvi-lo contar tudo o que aconteceu, cada detalhe e cada aperto desde então, quando você voltar. É claro que, se forem lembranças que prefere esquecer (e muitos de nós do “Clube dos Oficiais Desonrados” preferem-no fazer), saberei silenciar-me sobre o assunto.

Confesso, contudo, que um ponto foi-me estranho: terem ficado sem comunicação numa missão de infiltração quando, muitas vezes, essas missões são carregadas sem qualquer contato com o exterior – exceto pelas datas marcadas.

É uma pena que as meias tenham sido perdidas. Eu tinha uma especial expectativa em vê-lo nelas, mas, tudo bem: contentar-me-ei em dar-lhe um par novo de “meiões” e cachecol coloridos. Tenho a impressão que a bagunça de cores é diferente das anteriores, mas é uma mistura tão indisciplinada, que me causou risadas. Achei o requisito perfeito para a seleção do novo par. Tenho ciência de que não está mais no mesmo local frio onde a neve era um grande problema frequente, mas, como não sabemos quando (ou se) o moverão novamente, fiquemos precavidos.

O Natal e o Ano Novo já se passaram... É estranho, porque a impressão que tenho é que a última carta que lhe escrevi era justamente em preparação para os feriados. Parece que há um “buraco” na minha memória, como se algo tivesse sugado essa época pra fora da mesma. Ainda bem que as cartas o alcançaram (não sei quanto aos itens que as acompanhavam), pelo menos assim haverá alguma prova de que esse tempo realmente passou para mim também.

Nesse meio tempo, Marianne me convenceu a sair mais, a me juntar a um grupo de dança (e outras coisas mais). Eu não tinha percebido, mas acho que ela está querendo se casar comigo. Desde que começamos a dançar juntos, nossa amiga me lança uns olhares que não sei como interpretar. Ela é uma excelente senhora, mas isso está ficando estranho, vez que, não sei se recorda, Marianne é muito bem casada com Carl... Dá pra ver nos rostos dos dois o quanto se dão bem.

Bem, essa foi só mais uma das loucuras que aconteceram por aqui. Chegou uma vizinha nova, a Julia, que ocupa o último quarto vago do meu andar (o segundo), no fim do corredor. Aparentemente, ela é violinista, e, como o contrato não proíbe, ela pratica seu instrumento em seu quarto. Considerando que ela já é muito boa nisso, não me é problema ouvi-la praticar durante o dia (à noite seria diferente, mas ela é educada e não o faz após o entardecer), mas nossa vizinha do meio está enlouquecendo. A pobre da Marianne, na verdade, realmente está perdendo o juízo, porque Julia acabou por involuntariamente trazer alguns dos membros do que creio ser sua orquestra, e todos ocuparam apartamentos ao redor da nossa amiga. Nina, embaixo, Daniel, acima, Ark, acima de Julia e Pete acima de Ark. É engraçado, na verdade, ouvi-los praticarem seus respectivos instrumentos em seus quartos, às vezes na mesma hora. Parece que estamos realmente em algum espetáculo filarmônico, mas sem sairmos de nossos apartamentos. Quem sabe você não se junta também?

Já Stephenson, surpreendentemente, mudou-se. Eu lamento, sinceramente, não poder informá-lo de qual foi (será?) o desfecho da história dele com os gnomos. Há alguns meses, ele fez suas malas, despediu-se de todos e foi embora... O que me faz pensar que, no fim das contas, se soubéssemos o que houve, não seria um mistério, então, talvez, mistérios sejam apenas histórias cujos finais não foram revelados. Eis que temos um.

Também conheci mais um morador do prédio. Eric, o qual reside acima do apartamento onde ficava o cavalheiro do fonógrafo (aliás, ainda não sei se essa pessoa continua lá ou não...). Ele é professor de física, e diz que o fim da guerra está próximo. Não sei com que base ele afirma isso, mas espero honestamente que esteja certo. Após anos desse conflito, não vejo a hora de vê-lo findar...

Fico feliz que tenha entendido o porquê de eu defender Anna. Já desconfiava que, cedo ou tarde, você enxergaria a lógica. Não sei se isto, em si, é motivo de felicidade ou não, visto as dificuldades que lhe permitiram me entender, mas fico grato pela consequência. Mais que isso, porém, estou mais preocupado com sua saúde. Já deu tempo de se curar? O clima tropical não afetou o efeito das medicações (ou melhor, das reações e defesas do seu corpo)? Espero que tenha passado um Natal tranquilo ou, pelo menos um Ano Novo sem maiores problemas.

Por falar nisso, FELIZ ANO NOVO! Que esse ano finalmente o traga de volta para casa, são e salvo (e inteiro, caso isso não conte como nenhum dos dois)!

Preciso agradecer-lhe imensamente pelo baú. Além de ser único, de um talento indescritível e ricamente detalhado – característica essa que me é muita cara – eu não poderia ter ganhado algo mais precioso. Juntei-o à coleção. É a primeira coisa que se nota ao entrar nesse apartamento: a mesa com o baú, e, dentro deste, postais, conchas e um tritão de madeira. As conchas seguram tudo em pé perfeitamente, e, quando pegam os últimos raios do dia, fazem um show espetacular no teto. Mando uma ilustração, na tentativa de dividir essa paisagem, mas não consegui reproduzir bem os efeitos de luz...

Vai também um rascunho do que eu imagino esteja passando na cabeça de Marianne quando Julia & Companhia estão tocando. Tentei colocar o máximo de elementos de loucura, mas como sempre fui muito apegado a ordem e disciplina, não deve ter se traduzido bem em papel...

Por fim, fiz uma sequência dos eventos que narrou em sua carta, usando animais como personagens. Não sei se dará para notar, mas tentei colocar algumas de suas características no animal que o representa na história: o lobo. Inicialmente pensei em colocar um coelho, como de praxe em fábulas, mas sempre me revoltou o aspecto negativo que é conferido aos lupinos em contos afora, apesar de serem criaturas muito espertas, sociais e bonitas. Assim, resolvi criar o primeiro lobo herói. Parabéns! (Não pude evitar rir neste ponto.)

Seguem, de praxe, as frutas secas (dose dupla para o doutor ex-paciente!), alguns doces de estação e uma tentativa de reiniciar a biblioteca. Não sei se alguma parte dela foi salva, se ainda seria útil ou não... Mas vão juntos alguns dos livros que havia enviado antes, ou obras completas de autores que havia enviado antes e, talvez, um ou dois novos, bem como as cruzadas e tirinhas dos jornais que consegui juntar.

Por fim, vai também algumas revistas do personagem que inspirou meu apelido, Kal (o nome original, porém, é Kal-El). É continuada, ou seja, a história nem começa, nem termina nesse volume, mas dá para ter uma noção ao lê-lo. Não sei se já conhecia, mas parece que é bastante popular além de nossas fronteiras.

Ganhei o apelido assim: há muito, muito tempo, tirei uma criança de um prédio completamente tomado pelas chamas, e, uma vez longe do fogo, entreguei-a aos socorristas. Parei um instante para respirar um pouco pela máscara de oxigênio, e logo depois voltei a adentrar o local com um segundo grupo de resgate, pois diziam que ainda haviam pessoas presas.

Quando voltei, com um gato nos braços – o gato do mesmo garoto que havia levado antes – os médicos que estavam com o menino chamaram-me de “Kal”. Aparentemente, o rapazinho comparara-me ao seu herói preferido, e começara a referir-se a mim da mesma forma. Quando meu irmão soube, o apelido ficou.

Apesar de não gostar muito do herói em questão – embora aprecie sua filosofia – admito que acabei por me apegar ao nome.

No mais, abriu uma confeitaria nova – algo impressionante nesses tempos – e visitei mais alguns marcos da cidade. Muito bonitos, espero que sobrevivam a esse conflito. Seguem alguns rascunhos dos que mais gostei.

Abraços,

Kal.


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