4 de setembro de 2015

Heróis de Papel - Capítulo 17


Capítulo 17

Início de Março (Ano 3)

David,

Felizmente, esse ano não tivemos grandes problemas com o frio. A despeito da queda nas temperaturas, o inverno foi mais ameno que o do ano passado; sequer tivemos neve. Ainda assim, seus presentes foram de grande valia e devo ainda confessar que criei uma irracional afeição às meias coloridas.

Respondendo algumas de suas questões... nosso pelotão é relativamente pequeno, uma vez que servimos de apoio para os rapazes da força aérea e defesa de algumas áreas de porto para a marinha. A princípio, tínhamos sido treinados como tropa de assalto, mas os revezes da guerra nos empurraram para uma função defensiva.

Parte do motivo de nossa mudança foi justamente um ganho de terreno. Fomos transferidos um pouco mais para o sul e fizemos contato com a Resistência. Começamos a fornecer armas e alguns outros suprimentos para eles.

Nesse contexto, não há tantas possibilidades de promoção. Parte do motivo de ter subido a oficial foi termos apenas um médico que dividimos com a base aérea. Todo e qualquer auxílio para ele era bem-vindo e me tomar como aprendiz foi uma boa forma de tentar dividir um pouco a carga de trabalho.

Sobre meus planos para o futuro... não sei se estaria disposto a continuar como médico militar. Talvez se ficasse estacionado num posto permanente, se isso fosse possível, mas não consigo imaginar como faria se fosse destacado para acompanhar tropas – eu já abandonei Alice uma vez, não poderia fazê-lo de novo.

Fico muito satisfeito em saber que lhe pude servir de alguma forma. Afinal, você tem sido um apoio inestimável desde o início de nossa correspondência. De certa forma, você também me fez sair da minha carapaça – a despeito da minha reserva, o fato de sempre compartilhar com meus homens seus livros e doces terminou por me integrar ao pelotão, quer eu quisesse ou não. Agora sirvo de ponto para ensaios de teatro e de orquestra improvisada em noites de calmaria.

Eu culpo você por minha repentina capacidade de me sociabilizar.

Imagino que o Luka sobre quem você escreveu seja seu irmão? Seria um apelido? Bem, seja como for, creio que ele tivesse razão. Sua inclinação a se expor mais por estranhos que por si mesmo me parece uma bela forma de altruísmo. Admiro-o por isso; eu não acho que poderia fazê-lo. Não gosto de interferir a menos que seja chamado para tanto; tendo mais a ser um observador passivo dos fatos.

Estou contente em saber que gostou dos postais e que pretende montar um mural com eles. Posso quase imaginar – especialmente agora que conheço seu rosto (obrigado pela fotografia!) – sua expressão apresentando tal colagem para suas visitas. Não tive oportunidade ainda de coletar as lendas que prometi, mas já descobri por antecipação que todos os castelos têm fantasmas residentes.

Não é curioso como prédios antigos costumam acumular fantasmas e outros mistérios quase da mesma forma que acumulam poeira? Pior é quando as histórias fazem referência a tempos tão passados que são até mesmo anteriores às construções. As pessoas parecem achar que um castelo só pode ser um castelo legítimo se houver algum tipo de tragédia sangrenta com direito a assombrações no final.

Envio mais dois postais dessa vez – uma reprodução da sala de tapeçarias medievais do seu ‘castelo de infinitas torres’, que é, aparentemente, bastante famosa – e uma imagem panorâmica do vale .

Não sei exatamente o motivo do pedido de desculpas da senhora Marianne; ela nunca falou menos que a verdade, afinal. Seja como for, agradeço pelos chocolates. Não tenho bem certeza o que posso ter que incitaria curiosidade, mas comprometo-me a me submeter ao escrutínio dela quando estiver de volta.

Sua ilustração do chá debaixo do mar me rendeu boas risadas. Por algum motivo, fez-me lembrar de histórias que li na infância – fiquei na expectativa de descobrir quem seria o chapeleiro no seu desenho. Quanto ao outro esboço, não se preocupe em desculpar-se pela ousadia. Sinto-me quase lisonjeado por servir de modelo para um artista como você.

Realmente, não vejo porque se preocupar com sua ‘surdez musical’. Cada um tem seus próprios talentos, e você se supera no desenho – especialmente a se considerar que não tem perfeita coordenação com uma das mãos. Se consigo carregar uma nota numa gaita, isso não significa que seja capaz de fazer o que você faz com lápis e papel. Não há comparação possível.

Mande recomendações a todos. E tente descobrir se Stephenson conseguiu ou não encontrar um gnomo. Essa é uma descoberta científica de suma importância, e gostaria de participar da mesma.

Alex.



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