22 de outubro de 2013

Quem Conta um Conto (Outubro): O Conto da Ísis || DOWN WITH THE SUNS!


DOWN WITH THE SUNS!


Ela deveria ter adivinhado que não daria certo. Mais que isso, ela deveria saber que não daria certo...

Mas é claro que ela teve que bancar a teimosa, e agora seus amigos estavam todos morrendo, um a um, ao seu redor. Nunca devia ter acreditado nas palavras daquele maluco e daquela desvairada, afinal, o que dava a eles o titulo de sabe-tudo?

Ou o que dava a ela esse titulo? Quem era ela para saber em quem acreditar, e a quem apontar como mentiroso?

“É tudo minha culpa,” soava repetidamente em sua cabeça. Essa ideia ridícula de acabar com quatro dos sete sóis... Não que a ideia tivesse vindo dela, mas a moça endossara com todas as suas forças, fazendo com que, como sempre, todos a seguissem.

A diferença é que dessa vez seu erro fora fatal... só não a ela, aparentemente.

Por que, por que acreditara? Os sóis existiam há milênios; aquele mundo todo fora balanceado de tal forma. A simples matemática do equilíbrio equacional deveria tê-la prevenido, afinal, quando se mexe em um lado, o outro precisará ser ajustado.

Mas ela simplesmente acreditara que daria certo... e esse fora seu erro.

Acreditar era coisa do passado, um verbo que há tempos fora esquecido, exceto pelos livros de história ou pelo ocasional romance. Acreditar era o verbo que os humanos do passado usavam para se expressarem quando não sabiam o que fazer ou como fazer algo.

Mas não fora exatamente essa situação que a levara a tomar medidas tão drásticas?

Não saber. Definitivamente a pior coisa que já fora inventada... ou experimentada.

Desde que seu mundo era mundo, Marina Aniram havia ouvido histórias sobre outros mundos, outras galáxias, outros planetas e, talvez mais importante, outros sistemas... sistemas em que a vida havia se desenvolvido com apenas um sol, sistemas em que a vida havia se desenvolvido sem nenhum, e outros em que haviam 100, mas as vidas que ali se desenvolveram haviam se adaptado para tanto.

Infelizmente, onde ela vivia, essa adaptação fora perdida, de alguma forma até então inexplicável – pelo menos para o grande público. A sua raça fora forçada a endividar-se com outras, na busca de meios para a sobrevivência. Eventualmente, um meio fora desenvolvido, mas isso os limitava a viver em redomas que, embora os protegessem do sol, também os mantinha eternamente presos. E também servia como suas fraquezas, posto que bastava um simples projétil ser atirado na frágil proteção anti-solar, e toda sua sociedade estaria a mercê daquela que havia atacado. Diplomacia interestelar era a única coisa que os mantinha relativamente seguros, mas não impedia o aumento dos juros das dívidas, lentamente condenando-os de uma forma ou outra.

Fora naquela situação que uma estranha chegara a seu planeta, e dizia que a solução era simples: extinguir sóis suficientes para sobreviverem, calculando que quatro seriam o suficiente.

Parecia simples, e óbvio o suficiente para que muitos já houvessem pensado nisso antes. Porém, não havia tecnologia no mundo – ou em qualquer mundo, nem mesmo nos muitos universos paralelos dos quais se tinha conhecimento – que fosse suficiente para extinguir um sol. Quatro, então, seria impossível.

Mas a estranha alegara poder fazê-lo e, em troca de favores que Marina deveria prestar depois, ela, de fato, extinguira um sol a cada 2 anos estelares nos últimos seis. Restava apenas um dos contratados. Apenas um sol, e os Spolis poderiam viver na superfície de seu planeta de novo, se os cálculos estivessem certos.

Só que a superfície do planeta tinha mudado drasticamente... e dos animais e plantas que outrora existiam em grandes números, muitos haviam, inclusive, desaparecido.

E a única culpada era ela.

Devia se entregar às autoridades e pedir condenação pública, por estrangulamento ou decapitação. Bastante antiquado, mas adaptável à situação.

Mas isso não resolveria o problema. E, mais importante ainda, precisava impedir a estranha de finalizar o contrato. Se ela acabasse com mais um sol, quem sabe o que poderia acontecer? Não havia dúvidas de que o planeta sobreviveria, afinal, embora tenha uma adaptação extremamente lenta, a estrutura biológica de um planeta dura e se adapta bem mais que os seres vivos que abriga.

Mas os Spolis e a maioria dos outros seres não teriam a mesma chance.

E a culpa era dela. Toda dela...

“Rrrrrrrrr...” esmou seu Garfo, sustentando-se no ar por um tempo antes de pousar em seus cabelos rosados e aninhar-se lá. Todo Garfo acompanha seu Spoli do nascimento até que esse morra. E quando o Spoli morre, o Garfo costuma seguir...

Da mesma forma que, quando um Garfo morria, muitas vezes o Spoli entrava em coma, ou morria junto. No melhor da hipóteses – a depender do ponto de vista, visto que muitos, inclusive Marina, discordavam totalmente dessa ideia – o Spoli tornava-se totalmente incapaz sequer de levar um copo d’água à boca.

E ela estava olhando agora mesmo para um Garfo morto. A quantidade de sangue em seu abdômen claramente demonstrava a causa de seu óbito: ruptura de pele. Parecia ridículo, e nenhuma das sociedades que ela conhecia registrara casos assim. Porém, há um ou dois anos, tornara-se cada vez mais comum em seu planeta. Alguns Garfos, os mais suscetíveis à mudança de temperatura – mesmo dentro da redoma – perdiam substâncias dermatológicas rapidamente, e, mais cedo do que tarde, um buraco rompia-se em seus corpos. A hemorragia era intensa – ou plasmogia, a depender do biótipo do Garfo – e a morte seguia-se rapidamente, com muita dor e sofrimento nos poucos minutos que levava.

E ela causara isso a muitos Garfos e Spolis.

Aliás, por que a estranha viera diretamente para ela? Por acaso a escolhera a dedo, ou a esmo? Será que havia um motivo para isso, um motivo por que Marina fora escolhida?

Ela se abraçou, numa tentativa de suprimir o milésimo calafrio que lhe percorria o corpo.

“Rrrrrrr...”, Nora esmou de novo, batendo asas mais uma vez, ao seu lado.

A moça não conteve o pequeno sorriso. Podia ter 679 anos – 680 em uma semana – mas em todo esse tempo, Nora sempre fora-lhe capaz de arrancar um sorriso.

Marina esticou os braços para que o Garfo ali pousasse, e assim Nora o fez. Abraçando-a, a Spoli escondeu o rosto entre as penas de cor castanha.

“Não posso, Nora. Não posso voltar pra casa,” suspirou.

Há dias não pisava em casa. Não tinha coragem de voltar para um lar, quanto fora a causa da destruição de tantos outros...

Ela precisava achar a estranha, e dar um jeito de terminar o contrato ali mesmo.

Sim, o mínimo que ela podia fazer era encontrar Lua... E tinha uma semana para isso.


A Elefanta


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